Cinema

Pequenas Criaturas: uma carta de amor e ódio a Brasília

Estrelado por Carolina Dieckmmann, ‘Pequenas Criaturas’ tem o Distrito Federal dos anos 80 como personagem

Pequenas Criaturas: uma carta de amor e ódio a Brasília
Com Brasília como cenário, 'Pequenas Criaturas' conta uma história de drama e amadurecimento Crédito: Divulgação

Faz tempo que um filme ambientado em Brasília não se destaca nos cinemas brasileiros. Desde a “febre" das adaptações cinematográficas das músicas do Legião Urbana, lá nos anos 2010, que uma grande produção nacional não olha com tanto carinho para o Distrito Federal quanto 'Pequenas Criaturas'.

Sucesso nos festivais do último ano, sendo o grande vencedor do Festival do Rio 2025, o filme da diretora e roteirista Anne Pinheiro Guimarães traz um olhar cru, porém sensível, da transição da infância para a adolescência no contexto brasileiro da década de 1980. Nesse período tão peculiar da história brasileira, o longa acompanha a jornada de Helena, interpretada brilhantemente por Carolina Dieckmmann, a matriarca de uma família disfuncional que acabou de se mudar para Brasília. No entanto, o marido sai em uma viagem a trabalho logo na primeira semana na casa nova, deixando Helena com os dois filhos nesse lugar aparentemente hostil, em que tudo é novo e assustadoramente organizado.

E justamente por se passar nesta capital planejada que o filme trabalha seu contraste. Em meio ao planejamento urbano de Brasília, Helena descobre uma traição do marido, bagunçando sua vida de uma vez por todas.

Além disso, os meninos começam a explorar a região em busca de novos amigos, e acabam se envolvendo em algumas confusões típicas da infância, e outras 'não mais tão comuns assim’ que ajudam a reconstruir um Brasil de outros tempos. Esse núcleo é sustentado principalmente pelo carisma arrebatador do pequeno Dudu (Lorenzo Mello), que traz um olhar de fascínio infantil e inocência para o Distrito Federal. Ao seu lado está André (Théo Medon), que vive a adolescência e descobre na capital do país seu primeiro amor. Em meio a toda essa experiência de casa nova, a família embarca em seus pequenos caos particulares, fazendo do filme um grande e delicioso drama sobre amadurecimento, descobertas e escolhas.

Rodado completamente em Brasília, o filme funciona mesmo como uma carta de amor e ódio à capital. Inspirado em memórias da vida da própria diretora, 'Pequenas Criaturas’ explora todo o fascínio e as peculiaridades do DF, principalmente para quem vem de fora.

“É um filme muito pessoal, inspirado nas minhas experiências e dedicado à minha mãe. Como filha de diplomata, passei a infância viajando; sempre partindo e sempre chegando. Nasci em Brasília, e morei lá entre os 8 e os 15 anos, as idades do Dudu e do André. Quem já foi sabe que Brasília é uma cidade única, diferente de todas as outras, uma cidade planejada, futurista, modernista, com seus encantos e seus desafios, especialmente para quem chega. Não é fácil, mas tem seus momentos mágicos e deixa marcas profundas ", contou Anne Pinheiro Guimarães.

Mais do que isso, o filme é uma ode à maternidade, explorando de forma muito orgânica e bonita os desafios que as mulheres adquirem na vida ao se tornarem mães. Esse capítulo é comumente conhecido pela alegria de ter o bebê, mas também é carregado de incertezas, inseguranças e dores, que muitas vezes são ignoradas pela sociedade em prol da “obrigação materna”.

"Comecei a pensar nesse filme quando tive minha primeira filha, quando virei mãe. Comecei a pensar na minha mãe, que eu tinha perdido recentemente, e pensar no que foi viver um momento como aquele do ponto de vista dela”, explicou a roteirista e diretora.

Para a atriz Carolina Dieckmmann, aceitar esse papel foi uma escolha muito fácil, não só pela temática ser muito boa, mas porque a história dialogou com ela em nível pessoal.

"A Anne [diretora] me convidou para fazer esse filme, que segundo ela, seria um pouco sobre a mãe, um pouco sobre ter morado numa outra cidade e um pouco sobre o que isso significou para ela. E isso já me pegou de cara, antes de qualquer coisa. Primeiro porque eu acho que fazer um filme sobre uma mãe já me pega muito. E depois… Essa mãe é uma mulher tão triste assim. Eu acho que é uma história muito bonita e muito triste. Essa mulher carrega uma tristeza profunda que também me tocou muito”, contou a atriz.

Ela também comentou que as reações iniciais ao filme a pegaram de surpresa, porque apesar de ser uma história dramática, ela consegue passar uma mensagem de esperança que cativou o público de diferentes festivais pelo Brasil e pelo mundo.

"Quando a gente faz um filme, a gente vive aquele processo, então nunca dá para saber muito bem como as pessoas que não participaram, que não viram como aquilo foi feito, que não estiveram no dia a dia, vão ver essa história. Então, para mim é sempre uma surpresa [a recepção do público]. Mas 'Pequenas Criaturas', foi ainda mais longe. Eu imaginava que as pessoas iam recebê-lo de um jeito menos esperançoso. E todo mundo que falou comigo depois do filme, falou do filme com uma esperança na vida assim, sabe? No tempo, nas relações, e nas próprias tristezas que os personagens passam. Eu vi que não ficou um filme sobre a tristeza. Ficou um filme que passa por isso, ele não cristaliza nisso”, revelou.

'Pequenas Criaturas' chegou aos cinemas na última quinta-feira (23), com lançamento em 34 salas distribuídas por 16 capitais brasileiras, mas esse número ainda pode aumentar. Então, é uma grande pedida para o final de semana. Porque além de incentivar as produções nacionais, ir ao cinema para ver um bom filme é sempre uma grande experiência. Ainda mais quando os projetos transformam lugares do cotidiano brasiliense em cenários de cinema.