“Venho do Planeta Fome”. Essa frase corajosa foi o cartão de apresentação de Elza Soares ao mundo. Elza se apresentaria no programa de calouros que Ary Barroso, autor de “Aquarela do Brasil”, entre outros clássicos, apresentava no rádio. Ela tentou se arrumar. Mas não conseguiu evitar seu aspecto miserável. Ary Barroso perguntou a ela: “De que planeta você veio, minha filha?” E Elza, corajosa e altiva como sempre, deu a resposta que marcou sua história.
Esse episódio e outros estão no musical “Elza”, inspirado na trajetória da cantora Elza Soares, que será apresentado em Brasília entre os dias 27 e 31 de maio, no Teatro da Caixa Cultural.
O espetáculo, que estreou em 2018 no Rio de Janeiro e já passou por 15 cidades brasileiras, reúne no palco sete atrizes que interpretam diferentes fases da vida da artista e personagens ligados à sua trajetória pessoal e profissional.
A montagem tem texto de Vinícius Calderoni, direção de Duda Maia e direção musical de Larissa Luz. O espetáculo recebeu prêmios em diferentes categorias do teatro musical brasileiro, entre eles o Bibi Ferreira, Shell, APCA, Cesgranrio e Reverência.
Em Brasília, participam da montagem as atrizes Janamô, Josy.Anne, Júlia Sanchez, Julia Tizumba, Sara Chaves, Sara Hana e Naruna Costa, que estreia nesta temporada do espetáculo. Ao longo da peça, as intérpretes se alternam na representação de Elza Soares em diferentes períodos da vida da cantora.
A narrativa também inclui personagens ligados à trajetória da artista, como familiares, amigos, Ary Barroso e o jogador Garrincha, com quem Elza manteve um relacionamento. A proposta da montagem não segue uma estrutura cronológica tradicional de biografias musicais, e sim um texto adaptado para o teatro de forma a valorizar a pluralidade artística da vida de Elza Soares.
Emoção
O Correio da Manhã conversou com Sara Chaves, uma das Elzas que estarão no palco. Ela comenta sobre o quanto a peça lhe marcou.
“Houve muitos momentos no período de ensaio em que me emocionei pelo fato de a história em si da Elza Soares me atravessar de diversas formas como mulher preta nessa sociedade racista”, conta Sara. “Mas Elza é potência, força e um lembrete diário de que nada nem ninguém pode abalar a nossa voz. Somos realeza”.
Sara detalha a experiência com o espetáculo. “Acho que o momento que sempre mexe comigo (e há aqui um spoiler) é a cena da Elza tentando ajudar Mané Garrincha com alcoolismo, que desemboca na música ‘Malandro’ com um arranjo super sensível. Lembro de tantos familiares que sofreram de alcoolismo e não conseguiram dar a volta por cima”. A canção “Malandro” é de Jorge Aragão.
Ela explica que o processo de imersão para o papel foi imediato. “Já procurei trechos do espetáculo no YouTube, me reconectar também com as músicas da Elza que já conhecia desde a infância. Um pouco antes dos ensaios presenciais com o elenco, eu tive acesso ao vídeo do espetáculo na íntegra, ao texto atualizado e fui estudando as falas, movimentações, intenções, pegando os baldes de casa para fazer as cenas sozinha. Tive ajuda de muitos amigos que bateram texto comigo também”.
Desde o início, a produção correu de forma muito tranquila e com muita dedicação de todos que faziam parte da equipe. O elenco comenta sobre a forma como se sentiu acolhido nos ensaios e durante todo o período antes de subir aos palcos. “O ritual que criei para essa produção foi de respiração e meditação: de desacelerar pós-espetáculo. Tive também preparação de voz com Anna Priscila Lacerda, minha professora de canto e amiga pessoal que fez ajustes de voz para realizar esse espetáculo”, relembra Sara.
No palco, músicas de diferentes períodos da carreira de Elza Soares são apresentadas de forma não linear. O repertório inclui composições como “Se Acaso Você Chegasse”, “Lama”, “Malandro”, “Lata D’Água”, “Cadeira Vazia”, “A Carne”, “Maria da Vila Matilde” e “A Mulher do Fim do Mundo”. Os arranjos musicais foram desenvolvidos pelo maestro Letieres Leite, da Orquestra Rumpilezz, morto em 2021. O espetáculo também inclui duas músicas inéditas compostas durante o processo criativo da peça: “Ogum”, de Pedro Luís, e “Rap da Vila Vintém”, de Larissa Luz.
Entrevistas
Segundo os criadores, a construção dramatúrgica foi baseada em pesquisas sobre entrevistas concedidas por Elza Soares ao longo da carreira e em referências literárias de autoras como Angela Davis e Conceição Evaristo. Fragmentos dessas obras aparecem incorporados ao texto da peça. Para Sara Chaves, é indíscutível. Se ela pudesse definir o legado da Elza para as novas gerações de mulheres nas artes em apenas uma palavra, seria com certeza “ousadia”.
De acordo com Vinícius Calderoni, a estrutura do musical foi desenvolvida de forma coletiva durante os ensaios, com participação ativa das atrizes e da equipe criativa. O dramaturgo afirma que o processo incluiu relatos e experiências compartilhadas pelas intérpretes, que contribuíram para a construção das cenas e diálogos. A diretora Duda Maia afirmou que a proposta do espetáculo foi construída a partir da escuta das atrizes e da interação entre elenco, direção e equipe musical. Segundo ela, o trabalho buscou integrar diferentes experiências e perspectivas durante os ensaios.
A trajetória retratada no espetáculo aborda episódios marcantes da vida de Elza Soares, incluindo a infância, o início da carreira artística, a relação com Garrincha, perdas familiares, episódios de violência doméstica e situações de discriminação enfrentadas pela cantora ao longo da vida pública.
Apesar de tratar desses episódios, a montagem adota uma abordagem centrada na dimensão artística e na presença de palco da cantora. Segundo Vinícius Calderoni, Elza Soares participou do processo de elaboração do espetáculo e manifestou o desejo de que a peça destacasse aspectos ligados à sua personalidade e à sua relação com a música.
O musical foi desenvolvido em um período em que Elza Soares lançou os álbuns “A Mulher do Fim do Mundo”, em 2015, e “Deus é Mulher”, em 2018. Os trabalhos ampliaram a presença da cantora junto a novas gerações de público e renderam reconhecimento da crítica nacional e internacional. Elza Soares faleceu em 2022, aos 91 anos.
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