O projeto “Quintal de Memórias”, realizado pelo Coletivo Entrevazios, promove entre maio e junho uma temporada de atividades culturais gratuitas em Taguatinga e Planaltina. A programação reúne a ação formativa “Barraca de Memórias” e o espetáculo “Carrego O Que Posso, Faço Quintal Onde Dá”, com foco em relatos de mulheres que participaram da construção e consolidação de Brasília fora dos registros oficiais da capital.
As atividades começam em Taguatinga entre os dias 25 e 29 de maio e seguem para Planaltina de 8 a 12 de junho. Em ambas as regiões administrativas, a programação inclui encontros voltados para grupos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e associações que atendem pessoas idosas. Ao final de cada ciclo de atividades, o espetáculo teatral será apresentado gratuitamente ao público.
O projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal. Segundo os organizadores, a proposta é criar espaços de escuta e compartilhamento de memórias relacionadas ao cotidiano de mulheres migrantes que viveram o processo de formação da capital federal.
Troca de experiências
A ação formativa “Barraca de Memórias” funciona como um espaço itinerante de troca de relatos e experiências. Durante os encontros, participantes são convidados a compartilhar histórias ligadas aos territórios em que vivem, utilizando lembranças pessoais, objetos e experiências cotidianas como ponto de partida para atividades de criação.
De acordo com o Coletivo Entrevazios, a iniciativa busca registrar aspectos da história de Brasília que não costumam aparecer em documentos institucionais ou narrativas oficiais. As ações abordam temas relacionados à migração, trabalho doméstico, formação das cidades do Distrito Federal e permanência das memórias familiares nos espaços urbanos.
O espetáculo “Carrego O Que Posso, Faço Quintal Onde Dá” integra a programação do projeto e foi dirigido por Sandra Vargas, fundadora do Grupo Sobrevento. A montagem utiliza elementos do teatro de objetos para construir uma narrativa baseada em relatos de mulheres idosas moradoras de regiões antigas do Distrito Federal.
Objetos domésticos
Objetos domésticos como panelas, bacias, roupas de bebê e ferros de passar aparecem em cena como elementos de composição dramatúrgica. A proposta da encenação é utilizar itens do cotidiano como dispositivos de memória ligados às experiências de mulheres que migraram para Brasília durante diferentes períodos da construção e expansão urbana da capital.
Segundo a atriz e coordenadora do projeto, Maysa Carvalho, os relatos compartilhados durante as apresentações frequentemente se relacionam com experiências vividas por outras mulheres presentes na plateia. A produção afirma que o espetáculo foi desenvolvido a partir de processos de escuta realizados em diferentes regiões do Distrito Federal.
Após cada sessão, o público poderá circular pela cenografia e observar os objetos utilizados na encenação. A proposta é aproximar os espectadores dos materiais que serviram como referência para a criação dramatúrgica e para a construção das narrativas apresentadas em cena.
Cotidiano da história
A diretora Sandra Vargas afirma que o espetáculo aborda aspectos cotidianos da história de Brasília presentes nas relações familiares e nos ambientes domésticos. Segundo ela, o uso de objetos no teatro permite acessar experiências e memórias que geralmente não aparecem em registros históricos convencionais.
O projeto também amplia o trabalho desenvolvido anteriormente pelo Coletivo Entrevazios em pesquisas ligadas à memória urbana e às transformações sociais de Brasília. Criado em 2014, o grupo atua em projetos que relacionam arte, cidade e experiências coletivas.
Entre os trabalhos desenvolvidos pelo coletivo estão o livro “Entrevazios”, lançado em 2014; a intervenção urbana “O Estrangeiro”, realizada em 2015; a exposição “De Ver Cidade – Brasília numa caixa de brincar”, apresentada em 2019; a intervenção poética “Lourença”, em 2021; e o minidocumentário “Barraca de Memórias”, lançado em 2023. O grupo também realizou projetos como a exposição “Percursos Inventados”, o espetáculo “Carrego O Que Posso, Faço Quintal Onde Dá”, visitas teatralizadas com ”Cidade Espetáculo – Aventura nos Três Poderes” e a exposição “Memória Migrante – Mostra Acervo Poético”.
As apresentações previstas para Taguatinga e Planaltina contarão com recursos de acessibilidade. A sessão marcada para 27 de maio, em Taguatinga, terá audiodescrição. Já a apresentação de 10 de junho, em Planaltina, contará com audiodescrição e interpretação em Libras.
Em Taguatinga, o espetáculo será apresentado na Associação dos Idosos de Taguatinga, às 14h30 do dia 27 de maio. Em Planaltina, a sessão ocorre no Complexo Cultural de Planaltina, às 9h do dia 10 de junho. As atividades formativas serão realizadas ao longo da semana em ambos os locais para grupos previamente agendados. Segundo os organizadores, o projeto pretende fortalecer o reconhecimento de narrativas construídas fora dos centros institucionais da capital e ampliar espaços de circulação para produções artísticas voltadas à memória social do Distrito Federal.