SABATINA/RICARDO CAPPELLI
O candidato do PSD ao Governo do Distrito Federal, Ricardo Cappelli, não alimenta muitas esperanças. Para ele, o Banco de Brasília (BRB), em dificuldades desde a tentativa de compra do Banco Master de Daniel Vorcaro, não conseguirá resistir à posse do próximo governador, marcada para o dia 6 de janeiro. Cappelli considera que haveria uma tentativa deliberada de esconder o real tamanho do rombo do BRB, talvez com o intuito de privatizá-lo. Arruda propõe ainda um choque de gestão na saúde. Diz que fará uma auditoria no Instituto de Gestão Estratégia de Saúde do DF (Iges-DF). "Vai sair gente presa de lá", afirma. Veja abaixo a sabatina do candidato:
Na maioria das unidades da federação, PT e PSB estão unidos em coligação, além da coligação federal, como Lula como candidato a presidente e Geraldo Alckmin como vice. Por que não foi possível fazer essa coligação no Distrito Federal? O senhor não tira votos do candidato do PT e vice-versa?
O PT, desde o início, insistiu em ter dois nomes na chapa majoritária: o próprio candidato atual e Erika Kokay ao Senado. Isso criou dificuldades, uma vez que você tem três nomes principais, que são o governador e os dois candidatos ao Senado. Se um partido, de cara, já quer indicar dois dos três, isso acaba criando uma dificuldade. E a segunda dificuldade é que eu tinha um entendimento, desde o início, de que nós tínhamos que trabalhar para construir uma chapa que fosse além da esquerda, mais ampla, enquanto o PT defendia a construção de uma chapa de esquerda no Distrito Federal. Então, nós tivemos visões distintas, e é natural, numa eleição que tem dois turnos, os partidos apresentarem as suas candidaturas. Nós mantemos uma boa relação e espero que estejamos juntos no segundo turno.
O senhor esperava um resultado melhor nas pesquisas do que está tendo agora? O PT acabou surpreendendo e pegando o segundo lugar…
Não. Saíram 15 pesquisas, você está citando uma só [AtlasIntel de 3 de setembro]. Então, acho que é natural para essa fase da campanha. Essa pesquisa a que você se refere foi completamente fora do padrão de todas as demais. Qual é a questão? Eu sou o único que nunca fui candidato a nada no Distrito Federal. Portanto, sou o mais desconhecido. E isso, com o avançar da campanha vai sendo superado. Numa dessas pesquisas, saiu um dado que me animou muito, porque de cada 10 pessoas que me conhecem, oito dizem que votam em mim. Então, estou muito animado com a possibilidade de crescimento da nossa candidatura. Ainda temos quatro semanas pela frente.
O senhor acha que vai ficar com os votos do Arruda?
Eu não tenho essa pretensão de dizer que vou ficar com os votos do Arruda [o candidato do PSD, José Roberto Arruda, teve sua candidatura impugnada pelo Tribunal Regional Eleitoral]. Agora, os votos do Arruda, a maior parte deles, não irão para o campo governista. Até porque o Arruda tem denunciado a movimentação da governadora Celina Leão, e principalmente, do vice dela, para cassar a candidatura dele. E ele tem denunciado os escândalos de corrupção desse governo, que não são pequenos. Então, acho pouco provável que a maior parte do eleitorado do Arruda vá para a candidata governista, para a continuidade. Acho que a maior parte virá para a oposição e que a população vai acabar por procurar em quem votar. Hoje [terça-feira, 8], nós, sete candidatos ao governo, protocolamos juntos, no Ministério Público do Distrito Federal, um pedido de investigação para que o Ministério Público apure a relação de uma empresa prestadora de serviço do Distrito Federal com uma empresa do marido e da filha da governadora. É inacreditável. Essa empresa depositava R$ 100 mil todos os meses na conta da empresa do marido e da filha da governadora, e era um movimento sincronizado: a empresa recebia do governo e depositava os R$ 100 mil na conta. Eles dizem que era um serviço de engenharia, mas não tem nada que comprove a execução desses serviços.
Como o senhor disse, seu grande desafio é se tornar conhecido no DF. O senhor já tem visto alguma mudança nesse sentido?
Sim. Veja, já temos aí um pouco mais de uma semana de programa de TV. Começou também a campanha mais intensa. Então, a gente percebe que as pessoas já estão conhecendo mais, já conversam mais, enfim. Acho que nós temos um potencial de crescimento grande. Temos propostas concretas para a cidade. Estou muito animado. A campanha está só no começo. Na primeira eleição do Ibaneis [Rocha, ex-governador], nessa data, ele tinha menos que eu. O Ibaneis foi bater 7% no dia 12 de setembro. Hoje ainda é dia 8, tem tempo.
Com relação a essa questão do desconhecimento, os seus adversários ficam batem que, embora o senhor tenha vivido em Brasília, tenha se formado jornalista em Brasília, o senhor seria, de certa forma, um turista na cidade. O senhor tem uma boa parte da sua experiência fora da cidade, no Maranhão, no Rio de Janeiro. Como é que o senhor rebate isso?
Não, não é verdade. A minha experiência foi aqui. Eu trabalhei oito anos para o governo do Maranhão, sendo seis anos aqui em Brasília, morando em Brasília. Eu tenho 26 anos de experiência na administração pública, a maior parte disso no Distrito Federal. Foram, acho, sete ou oito anos no Ministério do Esporte, seis anos no Governo do Maranhão em Brasília. Eu cheguei aqui em 2003 para trabalhar no primeiro governo Lula, no Ministério do Esporte, na época. Então, já são 23 anos. Nesses 23 anos, eu saí daqui duas vezes: para trabalhar três anos em Nova Iguaçu e dois anos finais do governo do Flávio [Dino] no Maranhão. Então, desses 23 anos, são 18 anos aqui. Minha filha mais velha, de 15 anos, é nascida e criada no Distrito Federal. Eles falam isso por quê? Porque eu nunca fiz política no Distrito Federal. Então, eu não participei e não participo dessa panelinha política apodrecida que está aí há anos e que conseguiu, com o maior orçamento do Brasil entregar a pior educação do Brasil no Ideb. Nós temos hoje a pior saúde do Brasil. O maior tempo de espera médio para consultas, exames e cirurgias está no Distrito Federal. Nós temos 31 mil pessoas na fila da cirurgia. Nós temos mais de 1 milhão de procedimentos de consultas e exames na fila. Estão faltando 5,3 mil médicos, 4,2 mil técnicos de enfermagem, 2,3 mil enfermeiros. Na atenção primária, estão faltando 1,9 mil agentes comunitários de saúde. Todo dia está morrendo gente no Distrito Federal por falta de atendimento. Eu concordo com eles: eu sou forasteiro mesmo. Eu sou de fora dessa panelinha política apodrecida do Distrito Federal, que está aí, com o maior orçamento do Brasil, entregando dor, sofrimento e morte para a população do Distrito Federal na saúde.
O senhor agiu aqui no DF, na questão do 8 de Janeiro, com certo pulso firme. Como é que o senhor acha que deveria se agir agora em relação à grave crise da Justiça em Brasília? Está faltando pulso firme?
É muito estranho tudo o que está acontecendo. Nós estamos, hoje, a 26 dias das eleições. Por que os inquéritos relacionados ao escândalo do banco Master, todos eles, e são vários, estão sob sigilo? Por quê? O que é que o ministro André Mendonça esconde da população do Distrito Federal? Cadê os inquéritos que envolvem o ex-governador Ibaneis Rocha? Cadê a delação de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB? Por que o inquérito do Dark Horse, que é um dos inquéritos relacionados ao banco Master, continua sob sigilo? Por que ele quebra o sigilo de uns e não quebra de outros? Ele hoje (ontem) afastou o diretor-geral da Polícia Federal. Ele disse que chegaram ao ministro Alexandre de Moraes documentos, supostos documentos apócrifos. Ninguém assina, não tem cabeçalho, não tem nada, que aquilo não servia para nada. Ora se esses documentos não serviam para nada, como é que foram utilizados como argumento para afastar o diretor-geral da PF? Será que é porque o diretor-geral da Polícia Federal vinha questionando a condução parcial do ministro André Mendonça nos inquéritos? Então, é muito grave o que está acontecendo. É inadmissível que a Justiça brasileira, a mais alta Corte, haja assim a 26 dias das eleições.
O senhor propõe o programa Fila Zero, para zerar a fila da saúde. Como o programa funcionará na prática?
Primeiro nós vamos acabar com a corrupção na saúde. Em sete anos do governo Ibaneis-Celina Leão, foram cinco secretários de Saúde diferentes, sendo que um foi preso durante a pandemia. Em sete anos de governo Celina e Ibaneis, nós tivemos cinco ou seis secretários de Saúde, é quase um por ano. Por que troca tanto o secretário de Saúde? Veja, escândalos de corrupção sucessivos. O Iges virou um antro de corrupção e cabide de emprego. Tem mais de 800 pessoas nomeadas no Iges. Cabo eleitoral para tudo que é lado. Então, a primeira atitude: eu vou fazer uma auditoria. No primeiro dia, eu vou instalar uma auditoria no Iges. E tudo indica que nós vamos botar muita gente na cadeia. Segunda medida: no primeiro dia, eu vou abrir processo para contratar os profissionais de saúde que estão faltando. Veja, eu até compreendo, eu trabalho com administração, com gestão, há 26 anos. Você conseguir contratar um profissional de saúde, um médico, para levar ele para o interior do Pará é difícil. Cidade pequena, o médico não quer ir. Agora, qual é a dificuldade de contratar médico para trabalhar na capital do Brasil? Por que estão faltando 5,3 mil médicos? Isso é um documento oficial que a Secretaria de Saúde encaminhou para a Comissão de Saúde da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Esses números são oficiais. Nós vamos dar um choque de gestão, demitir os apadrinhados, acabar com a corrupção. Segundo, abrir processo para fazer todas as contratações que estão faltando.
Na sua sabatina, José Roberto Arruda disse não considerar que a questão do Master/BRB seja a questão central no debate eleitoral aqui do DF. Ele citou que o maior problema é a saúde. O senhor concorda?
O que está hoje na emergência, na urgência da população é a saúde. Por quê? Porque a saúde não espera. Agora, o BRB é um problema colossal para o DF. Tudo indica que o BRB está quebrado. Eles estão apenas manobrando a quebra do BRB para depois da eleição. Qual o tamanho do rombo do BRB? Ninguém sabe. É R$ 12 bilhões, é R$ 16 bilhões, é R$ 20 bilhões? É um banco público que está há mais de um ano sem apresentar um balanço. Isso é um escândalo.
Como se vai resolver o problema do BRB?
Veja, eu acho, infelizmente, que o BRB não chega ao dia 6 de janeiro de 2027, que é a data da posse do novo governador. O que eles fizeram agora foi uma manobra inédita na história do Brasil. O BRB seria liquidado na semana passada. O governo entrou com um pedido no Supremo, e Fux, o ministro Fux, deu uma decisão inédita na história do Brasil. Na minha opinião, essa decisão colocou em xeque todo o sistema financeiro nacional. Por quê? O Tribunal de Justiça da Bahia tinha um contrato com o BRB para manter no banco os seus depósitos judiciais. O contrato venceu e o TJ da Bahia, sabendo das fragilidades do BRB, anunciou que ia retirar o dinheiro. Se o TJ da Bahia retira o dinheiro, no dia seguinte o Banco Central liquida o BRB. O que o Fux fez? Deu uma decisão obrigando o TJ da Bahia a deixar o dinheiro no BRB. Já imaginou isso? Você tem o dinheiro no banco. Aí você quer tirar o dinheiro e o juiz fala: “Não, você está obrigado a deixar o dinheiro no banco”. Gente, isso é o fim do sistema financeiro nacional.
O BRB não tem solução?
É difícil afirmar, porque ninguém sabe o tamanho do buraco. Eu acho que a tendência, infelizmente, vai ser um desastre para a cidade. Eles estão só protelando para o banco ser liquidado ou privatizado depois da eleição. Se, eventualmente, chegar ao dia 6 de janeiro, nós temos que adotar algumas medidas. Primeiro, o que a governadora atual não faz, nós temos que exigir. Desviaram R$ 12 bilhões, R$ 16 bilhões. Esse dinheiro não saiu numa mala, saiu por dentro das contas. Como é que essas contas não estão rastreadas? Claro que a PF tem isso. Onde foi parar o dinheiro do BRB? Tem que voltar para o BRB. Segundo, nós temos que encolher o banco. Encolher em que sentido? O BRB nasceu para ser um banco de desenvolvimento do Distrito Federal. Na megalomania misturada com corrupção do senhor Paulo Henrique Costa e desse governo que está aí, eles tentaram transformar o BRB num banco de varejo nacional para competir com Itaú, com Banco do Brasil. Isso é uma sandice. O que o BRB está fazendo no Tocantins, em São Paulo, no Nordeste? Por que o BRB está patrocinando um campeonato de vela em Dubai, corrida na Paraíba? Qual o sentido disso?
Ontem tivemos mais um caso de feminicídio no DF. Chegamos a 16, segundo os dados da Secretaria de Segurança Pública do DF. De que forma o senhor pretende combater os feminicídios caso for eleito?
Nos últimos anos, a média no Distrito Federal é de uma mulher vítima de feminicídio a cada 15 dias. Isso é uma epidemia que está no Brasil, mas está aqui também. Como a gente enfrenta isso? Com planejamento e inteligência. O agressor que chega a assassinar uma mulher, em geral, é alguém próximo e que não mata na primeira investida. Tem uma sucessão. Boa parte dessas mulheres assassinadas estavam com medidas protetivas, pediram socorro e não foram devidamente protegidas. Como é que a gente faz isso? Primeiro, reforçando o núcleo de inteligência da Polícia Civil, agindo de forma mais efetiva quando há indícios de que aquilo pode evoluir para um assassinato, fortalecendo também as Deam, as Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher, e fortalecendo as casas de apoio à mulher no Distrito Federal. Nós temos que fortalecer essa rede, fortalecer as delegacias e colocar isso como prioridade da nossa Polícia Civil. Nós temos que impedir que isso aconteça com planejamento e com inteligência.
Suas considerações finais…
Primeiro, agradecer o convite. Esse é um espaço sempre muito importante para a gente apresentar as nossas ideias. O Distrito Federal não nasceu para estar nas páginas policiais, envolvido no maior escândalo da história do sistema financeiro nacional, o escândalo BRB/Master. O Distrito Federal não nasceu para ter a pior educação de ensino médio do Brasil, para ter a pior saúde do Brasil. Nós temos R$ 74 bilhões de orçamento este ano, é o maior orçamento per capita do Brasil, e temos tudo para dar um salto. Eu tenho 26 anos de experiência como administrador público, já ocupei várias funções. Eu tenho muita experiência e muita vontade de transformar. Essa cidade nasceu para ser exemplo para o Brasil, para ser vanguarda, para inspirar o Brasil. Ela não nasceu para ser o último lugar em educação, pior lugar em saúde. A cidade não quer continuar nesse rumo que está aí, que a levou para o buraco, e nem quer voltar ao passado. Por isso, eu estou muito animado de que a gente vai conseguir fazer a cidade andar para frente, discutindo propostas concretas para a cidade. Juscelino Kubistschek, quando perguntado para que lado ele ia, se ia mais para a esquerda ou mais para a direita, respondeu: “A humanidade não anda nem para um lado, nem para o outro, ela caminha para frente”. E é para frente que o Distrito Federal tem que caminhar.
Menu