Correio da Manhã
CORREIO CENTRO-OESTE

Acesso gratuito a transfusão de sangue veterinário ainda enfrenta desafios no DF

No entanto, tutores podem cadastrar os pets em bancos de sangue e ajudar outros animais

Atualizado em 11 de julho de 2026 - 17:29

Acesso gratuito a transfusão de sangue veterinário ainda enfrenta desafios no DF
"Muitos entendem a importância da doação somente quando seu pet precisa dela", comentou Araújo Crédito: Divulgação/Prefeitura de São Paulo

O Distrito Federal não possui um banco público de sangue veterinário. Apesar de dispor do Hospital Veterinário Público de Brasília (Hvep), os tutores que precisarem do recurso para os pets, terão de buscar uma das opções de clínicas particulares.

O Hospital Veterinário da Universidade de Brasília (HVet/UnB) até dispõe de um banco de sangue, mas este é destinado, exclusivamente, ao atendimento dos animais atendidos pela unidade.

Como explicou o professor Jair Duarte, da Clínica Médica de Cães e Gatos do HVet/UnB, "por diferentes razões, inclusive de logística e capacidade, não são fornecidos hemocomponentes (o nome dado aos componentes do sangue obtidos a partir da doação) para outros centros", disse.

Para mais informações sobre este cenário, o Correio da Manhã procurou a Secretaria Extraordinária de Proteção Animal (Sepan-DF), responsável pela gestão do HVep.

No entanto, a pasta limitou-se apenas a responder que não dispõe de banco público de sangue, ignorando questionamentos feitos pela reportagem sobre as tratativas para solucionar o problema e outras perguntas relacionadas à quantidade de leitos disponíveis no HVep.

Precisa-se de doadores

O professor Jair Duarte, que também é diretor científico da Associação Brasileira Veterinária de Hematologia e Medicina Transfusional, pontuou que um dos grandes desafios relacionados ao tema é a captação de doadores.

"Os atendimentos são uma prática diária e precisamos constantemente de estratégias e métodos que motivem os responsáveis a disponibilizar seus cães e gatos para a doação. Sem estes, o banco de sangue não consegue suprir as demandas do serviço médico veterinário", observou.

Flaviane Teles, que é coordenadora do curso de Medicina Veterinária da Faculdade Estácio, explicou que esse cenário se mantém em Brasília devido a uma combinação de fatores que vão desde a conscientização pública até a complexidade logística.

Teles citou ainda fatores como infraestrutura incipiente e falta de padronização, se comparada com a rede de hemoterapia humana.

"Assim como as pessoas, cães, gatos e outros animais podem precisar de transfusões sanguíneas em diversas situações, como acidentes graves, cirurgias complexas, doenças hemolíticas (quando células do sangue têm uma vida menor), intoxicações e anemias severas", esclareceu.

Além da rede pública

Dentre os obstáculos percebidoas na hora de conquistar novos doadores, o dr. Anilton Araújo comentou que diversos mitos ainda pairam no imaginário popular.

"Muitas pessoas têm receio de que o animal sofra ou fique estressado durante a doação. Isso não acontece. O procedimento é muito tranquilo. O tutor acompanha tudo e, se o animal não se adaptar à primeira doação, ele não é obrigado a doar novamente", argumentou.

Araújo é CEO do Centro de Hemoterapia Pet do DF (OHV Pet), referência entre os bancos de sangue veterinários particulares de Brasília.

Assim como na UnB, Araújo destacou que a demanda é maior do que a quantidade de doadores disponíveis.

"Mensalmente, são produzidas cerca de 350 bolsas de sangue, que atendem, em média, a 300 animais. Ainda assim, não é o suficiente para suprir a procura", lamentou.

Experiência

A bancária Anna Karla Dantas tem uma gata chamada Lua, que precisou ser internada quatro vezes devido a uma anemia, necessitando de doações de sangue em todas as internações.

Na primeira e na segunda vez, Dantas teve de desembolsar um alto valor para adquirir a bolsa de sangue em uma clínica particular. A partir da terceira internação, ela passou também a levar os outros gatos para serem doadores no OHV Pet e conseguir um desconto na bolsa de sangue.

"Eu acho complicado não haver unidade pública para isso. Quando a gente precisa, tem de recorrer a clínicas particulares, pagando um alto valor. Além de ser mais difícil encontrar doadores para gatos, se compararmos com a disponibilidade para cães", afirmou.

Benefícios da doação

Araújo destacou que a doação, além de ajudar a salvar outro animal, também é benéfica ao próprio doador.

"Durante a avaliação realizada antes do procedimento, muitas vezes, conseguimos identificar doenças que ainda não apresentaram sintomas. Isso permite iniciar o tratamento precocemente e aumenta muito as chances de recuperação", salientou.

Como se tornar doador

Segundo Araújo, para doar, os animais precisam ter entre 1 e 8 anos de idade. No caso dos gatos, eles devem pesar acima de 4 kg. Já os cães devem pesar mais de 21 kg.

O HOV Pet oferece transporte de ida e volta aos tutores que não puderem levar o animal à clínica, localizada no Núcleo Bandeirante.

Chegando lá, o pet passa por exames, que duram de 10 a 15 minutos. São verificadas as funções renais e hepáticas, além de realizada a testagem de doenças transmitidas pelo sangue. A coleta dura entre 3 e 5 minutos e o tutor pode acompanhar todo o processo.

"Além de ser gratuita, o animal recebe benefícios como vacinação, vermifugação, identificação do tipo sanguíneo e acompanhamento da saúde", detalhou Araújo.

No caso da doação ao banco do HVet/UnB, o professor Duarte comentou que, para se candidatar, é preciso que os responsáveis entrem em contato pelo e-mail ([email protected]) ou pelo perfil do banco de sangue no Instagram: @bancodesangue.hvet.

"A partir disso, nossa equipe iniciará a comunicação com o tutor para realizar uma triagem remota e saber se o pet está elegível para se candidatar", afirmou.

Assim, segundo Duarte, viagens desnecessárias podem ser evitadas. Ao chegar à unidade, novos exames serão realizados para verificar a viabilidade do procedimento.