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Rio 2016 recebeu R$ 149 milhões de doação de parceiros do COI para pagar dívidas

COB e Comitê Paralímpico abriram mão de verbas de publicidade a que tinham direito para fechamento das contas

Rio 2016 recebeu
R$ 149 milhões de doação de parceiros do COI para pagar dívidas
Comitê organizador dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro encerrou suas atividades apontando falta de apoio financeiro dos governos estadual e municipal do Rio Crédito: Alex Ferro/ COB

O comitê organizador Rio-2016 só encerrou suas atividades após ter recebido R$ 149 milhões em doações de parceiros do COI (Comitê Olímpico Internacional) para quitar dívidas pendentes das Olimpíadas.

A ajuda financeira foi repassada entre 2019 e 2023, e a fonte dos recursos não foi divulgada. A entidade também precisou que o COB (Comitê Olímpico do Brasil) e o CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro) renunciassem a verbas de publicidade dos Jogos para encerrar suas atividades, em dezembro de 2023.

Em nota, o COI afirmou que contribuiu com US$ 1,53 bilhão (R$ 5 bilhões, em valores de 2016) para realização dos Jogos de 2016, como parte do compromisso que estabelece com todos os comitês organizadores.

"Além do apoio do COI, os Comitês Olímpicos Nacionais (CONs) e as federações internacionais dos esportes olímpicos de verão deram uma contribuição excepcional para a realização bem-sucedida dos Jogos Olímpicos Rio 2016, apesar de uma crise econômica sem precedentes no Brasil. Os organizadores do Rio 2016 encerraram com sucesso as operações e as contas do comitê organizador", afirmou o COI.

As dívidas do comitê organizador foram o principal impasse que se arrastou após os Jogos. A entidade atribuiu à falta de repasse de verbas públicas o buraco que exigiu a mobilização do COI para que o rombo não marcasse a realização da primeira edição olímpica na América do Sul.

Além do COB e do CPB, faziam parte dos credores da entidade fornecedores dos Jogos e funcionários com ações trabalhistas. A dívida total, em 2017, era estimada em US$ 104 milhões (R$ 341 milhões, em valores da época). A principal credora era a GL Events, responsável por montar estruturas provisórias e de hospitalidade em várias regiões de competições, como Parque Olímpico e Complexo de Deodoro.

O responsável por negociar o encerramento das contas da Rio-2016 foi Ricardo Trade, escolhido como CEO da entidade em 2017, após os Jogos, para tentar solucionar as dívidas. Ele não havia participado do comitê durante a organização das Olimpíadas, tendo atuado apenas na candidatura, até 2009.

Trade é econômico nas palavras sobre sua atuação. Diz que não assumiu a tarefa para obter visibilidade, mas apenas para impedir que as dívidas prejudicassem a imagem de um evento que, para ele, foi muito bem organizado. "Ter encerrado dessa forma foi importante."

O executivo disse que não sabe quais parceiros olímpicos contribuíram com o pagamento das dívidas.

"O COI tinha seus parceiros. Pode ser o COI ou algum patrocinador. Não sou testemunha disso. Mas, com os parceiros olímpicos, ajudou a solucionar", disse ele.

O valor de R$ 149 milhões de "doações do movimento olímpico" consta nas demonstrações contábeis da Rio-2016 dos anos de 2017 a 2023, disponibilizadas pelo COB à reportagem.

O COI havia se negado a auxiliar a Rio-2016 após a prisão de Carlos Arthur Nuzman, que era presidente do COB e acumulava o comando do comitê organizador.

O dirigente foi preso em outubro de 2017 sob acusação de ter participado da compra de votos no COI para a escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos. Ele negou as acusações, e a ação penal contra ele foi encerrada por determinação do ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

As negociações com o COI foram retomadas a partir de 2018

Os documentos atribuem o rombo principalmente ao não compromisso dos governos federal, estadual e municipal em contribuir com o orçamento da entidade, como previsto no dossiê de candidatura.

O relatório diz que o município deixou de repassar ou assumir serviços avaliados em cerca de R$ 320 milhões. Patrocínios de empresas estatais para a realização dos Jogos Paralímpicos foram, segundo a Rio-2016, R$ 26 milhões menores do que o prometido.

O ex-prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PSD), que comandou o município durante a preparação dos Jogos, afirmou ver "como um elogio as informações do relatório".

"Foi um esforço permanente não repassar recursos públicos para o comitê. Nós assumimos muitas responsabilidades. Que bom que o COI colocou a mão no bolso para ajudar a pagar essa conta", disse ele.

Quando o Rio conquistou o direito de sediar os Jogos, o plano era que 25% do orçamento fosse bancado pelos cofres públicos. Durante a preparação, ficou decidido que, em vez do repasse de recursos, os governos assumiriam serviços da organização -o que, segundo o comitê extinto, não foi cumprido como planejado.

Um dos motivos para a mudança foi a intenção do TCU (Tribunal de Contas da União) de analisar os gastos do comitê -inclusive salários de executivos. O comitê defendeu a retirada do artigo da lei federal que previa o socorro da União em caso de deficit.

De acordo com a última versão da matriz de responsabilidade dos Jogos, divulgada em junho de 2017, o comitê gastou R$ 9,2 bilhões.

O encerramento da Rio-2016 só foi possível após COB e CPB terem renunciado a R$ 23 milhões referentes ao repasse de verba de publicidade dos Jogos. As duas entidades ficaram proibidas pelo COI de obter patrocínios individuais a fim de não concorrer com os apoios ao comitê organizador. Em troca, receberam uma participação dos acordos da entidade. A prática é comum em edições olímpicas.