Correio da Manhã
Saúde

Crise climática amplia ameaças à saúde e desafia o SUS

Eventos extremos alteram o comportamento de doenças, elevam o número de mortes por calor e pressionam o SUS

Crise climática amplia ameaças à saúde e desafia o SUS
Eventos climáticos extremos aumentam riscos à saúde e representam desafio para o SUS Crédito: Agência Brasil

“A crise do clima também é uma crise de saúde”. Foi assim que o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, classificou o momento atual vivido pelo mundo durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2023 (COP28).

O debate sobre a saúde na pauta climática ainda é considerado recente, apesar de os efeitos da crise já serem irrefutáveis. Especialistas apontam que, na COP26, em 2021, o tema da saúde orbitou os debates da conferência, mas de forma paralela e tímida. É inegável que os efeitos das mudanças climáticas impactam e interferem na saúde humana, podendo influenciar diretamente a propagação de doenças, a qualidade do ar e da água e acarretar doenças graves.

As doenças mais sensíveis a essas mudanças são as infecciosas como dengue, malária e leishmaniose. Além do aumento da transmissão de hepatites virais e leptospirose, que vem crescendo em regiões afetadas por inundações e enchentes, como ocorreu no estado do Rio Grande do Sul, que vivenciou uma das piores crises da sua história em 2023-2024, quando o Brasil ainda sentia os impactos do fenômeno climático El Niño que alterou substancialmente as temperaturas do país.

Enquanto os estados do Sul do Brasil eram castigados pelas chuvas recordes e pelo transbordamento dos rios, as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste foram impactadas pela seca e pelo calor extremo, que resultou em nove ondas de calor e criou um ambiente ainda mais propício à proliferação do mosquito Aedes aegypti, principal vetor da dengue, da zika e da chikungunya.

Com a explosão dos casos de dengue em 2024, o país viveu uma de suas piores epidemias da doença. Além disso, outro evento climático preocupante na saúde são as ondas de calor que acarretam uma série de impactos negativos como desidratação grave, exaustão e agravamento de problemas cardiovasculares e respiratórios. Esses sintomas se intensificam em populações vulneráveis, como idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas e obesos.

A epidemiologista Ethel Maciel, que acompanhou as discussões sobre saúde na COP30, em Belém, como enviada especial representando o Ministério da Saúde, destaca que é evidente que a crise climática tem alterado o comportamento das doenças e da circulação dos vírus.

“As mudanças climáticas afetam nossa saúde de diferentes formas. Elas influenciam as doenças infecciosas e as doenças crônicas. Na epidemia de dengue, vimos o encurtamento, devido ao calor, do ciclo de transmissão do mosquito. O tempo que ele leva para passar de larva a mosquito adulto encurtou. Isso vai mudando a forma como entendemos as doenças. Inclusive, a própria circulação dos vírus foi muito impactada pelas mudanças climáticas. Antes de 2023, tínhamos muito bem marcados os ciclos das doenças: no verão, arboviroses; no inverno, doenças respiratórias. Em 2024 e 2025, embolou tudo.”

Vilão silencioso

O agravamento das ondas de calor também tem sido alvo de atenção por parte dos pesquisadores brasileiros. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) juntamente com a Universidade Federal da Bahia (UFBA) realizou um levantamento inédito mostrando que, entre 2000 e 2019, 120 mil mortes no Brasil estão associadas às ondas de calor.

O estudo explorou os efeitos do calor extremo sobre as internações hospitalares do Sistema Único de Saúde (SUS), evidenciando como as mudanças climáticas apresentam riscos concretos à saúde pública. Diante disso, os pesquisadores destacam a necessidade de fortalecer a agenda de adaptação por meio da operacionalização de medidas de proteção ambiental e da integração das áreas de saúde e meio ambiente.

Segundo a pesquisadora da Fiocruz que liderou o estudo, Beatriz Oliveira, o levantamento inova ao integrar a caracterização das ondas de calor, considerando frequência, intensidade e duração, à análise de seus impactos sobre internações e mortalidade. Diante de previsões de que eventos climáticos extremos se intensificarão e se tornarão mais frequentes daqui em diante, o estudo vem como um diagnóstico e um alerta.

“[Esses dados] se tornam muito mais chocantes porque eram invisibilizados. Esses estudos, eles tendem a tornar isso muito mais visível. A gente começa a direcionar os nossos olhares para esse risco”, afirmou. “Não é normal o calor que a gente tá vivendo. Não podemos normalizar essa exposição. Precisamos reconhecer isso como um problema de saúde pública e atrelar ele às possíveis medidas”, destaca Oliveira.

Capacitação dos profissionais

Diante desse cenário apresentado, especialistas ouvidos pela reportagem reforçam a necessidade de esforços e ações coordenadas de mitigação e adaptação no Sistema Único de Saúde (SUS).

Ethel Maciel ressalta que, após a COP30, o Brasil começou a fazer o dever de casa. Segundo ela, foram estabelecidas medidas voltadas à mitigação de eventos climáticos extremos, mas ainda insuficientes. Apesar do SUS ser reconhecido internacionalmente por ser o maior sistema único de saúde do mundo, ainda apresenta uma série de lacunas em sua resposta às mudanças climáticas e planos de prevenção.

“O primeiro guia para o profissional de saúde e mudança climática saiu em 2024. É algo muito recente para nós. Foi a primeira vez que a gente começou a falar disso do ponto de vista institucional, pelo Ministério da Saúde”, declarou ela, mencionando algumas das medidas implementadas desde então – entre elas uma Sala de Situação Nacional de Emergências Climáticas em Saúde e o Plano de Ação em Saúde de Belém, que visa o monitoramento do clima, a estruturação dos sistemas de saúde e a inovação.

Outra medida citada por Maciel é o Adapta SUS. Estratégia do Ministério da Saúde focada em preparar o SUS para os impactos das mudanças climáticas. O plano envolve 93 ações de curto a longo prazo (com execução até 2035) e prevê investimentos na ordem de R$ 9,8 bilhões para a construção e adaptação de infraestruturas, como Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e hospitais. “Na COP30, em Belém, foi lançado o AdaptaSUS, então o Brasil tem, pela primeira vez, um plano de adaptação para o Sistema Único de Saúde”, destaca Maciel.

A patologista Evangelina Araújo e fundadora do Instituto Ar, organização que se tornou referência na defesa da saúde pública em questões ambientais, reconhece que o Brasil tem estabelecido medidas para enfrentar situações causadas pelas mudanças climáticas no âmbito da saúde. No entanto, especialistas ouvidos pelo Correio da Manhã alertam que a intensificação dos eventos climáticos extremos que impactam na saúde tende a aumentar substancialmente a demanda por atendimento médico no SUS, que passará a ser pressionado em duas frentes: pelos pacientes que já dependem regularmente do sistema e pelo aumento de pessoas afetadas diretamente pelos eventos extremos.

“[Precisamos] capacitar os profissionais de saúde para esse atendimento. Eles têm que fazer os protocolos de assistência na ponta, preparar a infraestrutura do serviço de saúde em situações de desastres para que possa manter a assistência, proteger a população, fazer o monitoramento e dizer como que a população deve se proteger frente ao desastre que está por vir”, detalha. “Eles têm que olhar para as populações mais vulneráveis, que serão mais afetadas, e tomar as ações corretas. Então assim, tem muita coisa para ser feita.”