Correio da Manhã
Ciência-Tecnologia

A IA já chegou aos bancos, mas será que os times já chegaram até ela?

A IA está se tornando progressivamente democrática

A IA já chegou aos bancos, mas será que os times já chegaram até ela?

Nos últimos três anos, o mercado financeiro global acelerou de forma sem precedentes seus investimentos em Inteligência Artificial. Bancos, fintechs, seguradoras e cooperativas financeiras correm para implementar modelos, automatizar processos e criar assistentes virtuais, e a narrativa é quase sempre a mesma: quem não adotar IA ficará para trás.

Durante décadas, a vantagem competitiva no mercado financeiro esteve atrelada ao acesso à tecnologia e quem tinha os melhores sistemas de core banking, algoritmos de risco mais sofisticados ou a infraestrutura de dados mais robusta, levava vantagem. Hoje, a IA está se tornando progressivamente democrática e muitos modelos de linguagem avançados, ferramentas de análise preditiva e plataformas de automação inteligente estão disponíveis a preços acessíveis para organizações de qualquer porte. Mesmo uma fintech com um time de dez pessoas pode acessar hoje a mesma capacidade computacional que um grande banco utilizava com exclusividade há alguns anos atrás. Então, quando a ferramenta deixa de ser esse diferencial, o que diferencia os melhores líderes? A capacidade humana de saber o que fazer com ela da maneira mais estratégica.

O mercado financeiro construiu, ao longo de décadas, uma cultura de excelência técnica, formou especialistas de alto nível em produtos financeiros, gestão de risco, compliance, operações e regulação, formando profissionais rigorosos, confiáveis e preparados para um ambiente onde as regras do jogo mudavam mais devagar. O problema é que as regras do jogo estão mudando na velocidade da luz e, a maneira como operamos a nossa atuação no mercado precisa acompanhar essas mudanças.

A nova economia exige um perfil que vai muito além do domínio técnico especializado e o profissional do mercado financeiro nos próximos anos precisará ser capaz de:

- Aprender rapidamente e continuamente, além de desconstruir o que aprendeu quando necessário (Flexibilidade Cognitiva);
- Trabalhar com Inteligência Artificial como parceira estratégica e não como ferramenta passiva;
- Conectar conhecimentos de áreas distintas para enxergar soluções que especialistas isolados não veem;
- Interpretar dados e traduzir padrões em decisões mais inteligentes;
- Experimentar e escalar o que funciona;
- Compreender tendências que nascem fora do setor financeiro.

Quando olhamos para as transformações mais relevantes que o mercado financeiro viveu nas últimas décadas, é difícil encontrar uma que tenha nascido dentro do próprio setor. A Amazon por exemplo, ela não inventou o marketplace financeiro, mas mostrou o que significa criar uma experiência de compra tão fluida que qualquer atrito passa a ser inaceitável. O Mercado Livre não é um banco, mas hoje tem uma das operações de crédito mais relevantes da América Latina, construída a partir de dados comportamentais que nenhum banco tradicional possuía.

Perceba que o padrão é muito claro: as transformações mais profundas do mercado financeiro foram provocadas por pessoas e organizações que olhavam para fora, não para dentro, e que além disso, estudavam outros setores, outros comportamentos, outras tecnologias, e tinham a capacidade de traduzir esses aprendizados em novos modelos de negócio.

Um profissional que só conhece o mercado financeiro é um bom especialista, mas um profissional que conhece o mercado financeiro e sabe o que está acontecendo no varejo, na saúde, no agronegócio e na tecnologia é uma pessoa inovadora. Por muito tempo, o modelo de desenvolvimento de profissionais no setor financeiro funcionou da seguinte forma: você estuda, se especializa, obtém certificações e aplica esse conhecimento durante anos. Hoje, o ciclo de vida do conhecimento encurtou de forma dramática e as competências que eram diferenciais há três anos estão se tornando básicas. Além disso, as ferramentas que existiam há dois anos estão sendo substituídas, mas os modelos de negócio que pareciam consolidados estão sendo desafiados por soluções que não existiam no ano anterior e nesse contexto, treinamentos pontuais deixam de ser suficientes porque são instantâneos em um ambiente que exige fluxo contínuo.

Hoje precisamos olhar para um novo modelo de equipe nas instituições financeiras que consigam formar equipes onde tecnologia, negócio, experiência do cliente e inovação funcionam em conjunto, com uma linguagem comum e objetivos compartilhados. A verdade é que executivos de negócio que não entendem IA de maneira ampla tomam decisões estratégicas equivocadas e equipes que não se comunicam produzem projetos que morrem na passagem entre um departamento e outro.

O ponto é: a capacidade de adaptação precisa se tornar uma competência institucional e não apenas individual. Estruturas que foram construídas apenas para preservar o que funciona bem precisarão criar espaço para o que ainda está em desenvolvimento.

Eu acredito que a Inteligência Artificial será, nos próximos anos, a ferramenta mais poderosa que o mercado financeiro já teve à disposição, mas ferramentas não tomam decisões estratégicas e isso ainda é, e continuará sendo, responsabilidade humana. E a pergunta que cada liderança do mercado financeiro deveria estar respondendo agora é "que tipo de profissional e que tipo de cultura precisamos construir para que essas IAs gerem impacto real nos resultados da instituição em longo prazo?".

E sempre foi assim no mercado financeiro, quem formula a pergunta certa antes dos demais já está, na prática, definindo o futuro do setor e sai na frente.

*Por Stefano Gabriel Levorato, CIO da Sociedade Brasileira de Inovação e especialista em inteligência artificial