Lançada sem muito alarde no Disney+, no finalzinho de julho, a série 'Fúria' adotou o formato de lançamento semanal de episódios, o que se mostrou uma estratégia acertada da plataforma, que viu as avaliações do show explodirem internacionalmente, resultando em um interesse crescente pela produção no Brasil.
O último episódio da primeira temporada chega nesta segunda (31) ao Disney+, em um momento em que o show acumula cerca de 98% de aprovação na plataforma agregadora de notas Rotten Tomatoes, o que faz dela a série com melhor avaliação de 2026 até o momento, e muito disso se deve a sua proposta ousada de apostar na inclusão para contar uma história que geralmente é dominada pelo estereótipo dos homens brancos de Hollywood.
Livremente inspirada no filme 'O Mistério da Viúva Negra' (1987), a trama de 'Fúria' gira em torno de uma caçada por Catherine (Lola Petticrew), uma assassina em série que usa de sua aparência para matar homens que estiveram envolvidos em abusos sexuais que sofreu em sua adolescência. A grande sacada, porém, se dá em sua perseguidora. A agente Alice Black (Emmy Rossum) tenta resolver esse caso, enquanto enfrenta a represália da corporação por ter sofrido um caso de abuso e agressão de um ex-companheiro que é muito querido no FBI.
Ao longo dos capítulos, as tramas das duas começam a se entrelaçar, propondo uma grande reflexão sobre os conceitos de justiça e impunidade, além de trazer à tona a forma desumana como mulheres vítimas de assédios e abusos são tratadas, após tomarem coragem para denunciarem seus agressores.
A convite do Hulu e do Disney+, o Correio da Manhã conversou com o elenco do show, que refletiu sobre essa importância de ter mulheres em papéis de destaque de produções que fujam do padrão, como em suspenses policiais.
Para Quincy Tyler Bernstine, que interpreta a Agente Nora, a responsável pelo departamento de crimes sexuais do FBI, é um "presente gigantesco" ver a boa recepção que 'Fúria' conquistou junto ao público internacionalmente.
"Poder fazer parte de um projeto assim foi um presente gigantesco, sabe? É tão raro vermos histórias como essa, e isso foi uma das coisas que me atraiu no roteiro logo de cara. Porque eu pensei tipo 'como assim é um show sobre uma serial killer mulher?". Tipo, isso é algo tão raro, não apenas no cinema e na televisão, mas no mundo real. Sabe, as mulheres representam cerca de 8% ou alguma porcentagem minúscula dos assassinatos em série. Então eu fiquei fascinada em fazer parte da narrativa de uma história sobre pessoas que não falamos muito, sabe? E tem sido fascinante, à medida que os episódios foram lançados, ver como o mundo reagiu a eles, sabe? Tipo, eles estão assistindo a essa criaturinha minúscula matando esses homens enormes. E chega a um ponto que você meio que torce por ela. Tem sido realmente emocionante fazer parte disso, sabe? E isso é um testemunho do gênio louco da Liz Meriwether", compartilhou a atriz.
Na série, Quincy tem um papel meio de guru espiritual de Alice, mas também funciona como um grande alívio cômico em meio a temas densos e angustiantes. Por mais pesada que esteja a situação, Nora sempre aparece com um conselho inusitado ou com uma tirada ácida que ajudam a quebrar a tensão, enquanto guia Alice em meio a suas dificuldades. Para Bernstine, isso ajudou a construir uma experiência muito divertida.
"Eu tenho que dar a maior parte do crédito à Liz Meriwether e aos roteiristas, porque esse humor ácido veio das mentes deles, tudo estava escrito. Eu lia os roteiros e pensava: 'Não acredito que vou dizer essa fala' [risos]. Quero dizer, algumas das coisas que saem da boca da Nora são simplesmente insanas, sabe? E ela está lá embaixo, no porão do FBI, sem luz e sem janelas, fazendo esse trabalho realmente sombrio, desafiador e angustiante, sabe? Mas conseguir equilibrar isso com humor foi fundamental, porque, tipo, como você passa por uma situação dessas de outra forma? Você tem que ter senso de humor, caso contrário, acho que você simplesmente entraria em combustão espontânea, de tanta tristeza, sobrecarga ou depressão", explicou, acrescentando que "é preciso ter essa 'luz' em forma de humor entrando porque, sabe, acho que de outra forma seria muito difícil de assistir sem ficar muito para baixo. É um texto ridiculamente brilhante", concluiu Quincy Tyler Bernstine.
Visão feminina
Outro apoiador de Alice na série é o agente Danny, que é interpretado por Scoot McNairy. O ator contou que ter a chance de trabalhar em uma série policial escrita, produzida e protagonizada por mulheres foi uma experiência única.
"Cara, foi incrível! Não há nada mais gratificante do que ir trabalhar todos os dias em uma série que você realmente ama e acredita. Então, com essa equipe criativa, foi ótimo. Foi maravilhoso ter mulheres comandando a série aqui. Ter a Liz Meriwether como showrunner, a Emmy [Rossum] também foi produtora executiva. E foi tão maravilhoso vê-las contando uma história que, de certa forma, a gente já tinha visto antes, mas agora sob uma lente, uma perspectiva diferente. E isso tornou esse trabalho muito empolgante, porque eu não sentia que estava fazendo apenas mais uma série policial. Eu estava fazendo uma série policial sob a perspectiva e a lente de uma mulher, o que eu sabia que permitiria que fosse algo novo, fresco e diferente para a cena", contou.
Quanto ao personagem, Scoot afirmou que a chave para entendê-lo foi adotar uma perspectiva mais humana para um agente federal.
"Para interpretar o Danny, busquei entender o que faz dele humano. E compreendi que a humanidade desse dele era o fato de ser extremamente empático. Ele realmente se importa, o que faz dele quase um cuidador, sabe? E acho que essa foi o que mais me atraiu neste projeto: viver um policial que não é o estereótipo do durão e calejado. Ele é sensível, tem emoções e genuinamente se importa com as pessoas com quem trabalha. Senti que foi isso que a Liz fez de forma tão brilhante, é uma abordagem totalmente diferente do policial masculino. Você tem outros estereótipos de masculinidade tóxica na série, mas o Danny é diferente", explicou Scoot.
Inclusão com bom humor
Quem rouba a cena ao longo da primeira temporada é Alden. Interpretado pelo comediante, roteirista e ativista pelo acesso universal à saúde, Steve Way, o rapaz se destaca por ter suas deficiências motoras, mas ainda assim fazer de tudo para proteger sua cuidadora, que secretamente atua por aí como serial killer.
Com seu humor ácido, Alden surpreende ao enfrentar o próprio FBI, rendendo momentos de comédia pesada, mas também trazendo para a tela as dificuldades que uma pessoa com deficiência física enfrenta diariamente.
Para Steve, ter a oportunidade de interpretar o Alden foi algo bastante pessoal, porque, segundo ele, momentos de dificuldades cotidianas retratados no show são parte de sua rotina real.
"Eu fiquei lisonjeado que a Liz tenha escrito esse personagem para mim. Claro que também me senti intimidado, porque trabalhar com ela significa ter de atingir um padrão muito alto. Mas todo mundo me fez sentir muito acolhido. E foi tão especial que eu pude ser eu mesmo esse tempo todo. Isso tornou o meu trabalho muito mais fácil", comentou Way.
Uma das cenas mais impressionantes desta primeira temporada é o momento em que Catherine dá banho em Alden. A cena impacta porque algo tão banal quanto uma chuveirada pode ser um desafio para as pessoas. O momento é suavizado com o humor sacana de Alden, mas nada que reduza a relevância desse momento.
"Para viver o Alden... Acho que fui apenas eu mesmo. Por exemplo, para a cena do banho, aquela era a minha cadeira de banho, era o meu sabonete. O time basicamente me perguntou como eu tomava banho. Então, foi tão autêntico e específico para mim e para a minha rotina diária. E acho que tem que ser assim, porque torna tudo mais real. Torna o relacionamento mais especial e mais genuíno. Permite que o público se identifique mais com isso", explicou.
Ele também falou sobre a conexão que desenvolveu com Lola Petticrew, que vive a vilã do show, mas também interpreta sua cuidadora e interesse amoroso.
"Sabe, a Lola realmente se interessou. Ela me perguntava sobre tudo, e nós apenas conversamos sobre nós mesmos. Nós conseguimos nos conhecer em um nível muito pessoal. Então, quando chegamos e gravamos nosso primeiro dia juntos, realmente pareceu muito natural. E acho que isso ajudou muito porque nos permitiu mostrar de verdade que esses dois personagens já têm uma conexão. E se não tivéssemos conversado antes, não acho que teria transparecido dessa forma", comentou.
Apesar de sofrer com distrofia muscular, Steve Way protagonizou cenas de ação em "Fúria". Sua cena favorita, inclusive, foi justamente uma que misturou ação e comédia de um jeito inesperado.
"Acho que meu momento favorito foi quando os federais entraram no meu quarto para me prender. Eu pude fazer muita comédia física com a minha cadeira de rodas. E contracenar com o Scoot [McNairy] e o Rob [Yang] foi muito divertido. Não acho que aquelas cenas teriam sido tão engraçadas se fossem com outras pessoas", disse.
O personagem foi tão marcante que também foi citado por Quincy como um de seus favoritos.
"O Alden, meu Deus! Eu fico sem palavras! Sabe, em uma cena você vê a Catherine e a Alice em um confronto intenso, com armas e fentanil, e então corta para o Alden tentando dificultar a vida dos policiais. É simplesmente brilhante", contou a atriz.
A Poderosa Chefona: das comédias para o suspense
Ao longo das entrevistas, um nome foi unanimidade entre o elenco: Elizabeth 'Liz' Meriwether. Criadora de "Fúria", Liz tem sua carreira marcada pelo fenômeno "New Girl", sitcom de humor e drama que prendeu a atenção dos fãs entre 2011 e 2018, totalizando sete temporadas que marcaram época e ajudaram a transformar a atriz Zooey Deschanel em um dos ícones da TV americana na década passada.
Meriwether conseguiu se reinventar sem perder sua essência em "Fúria". O suspense comanda o show, mas os arcos dramáticos e a comédia de desconforto marcam presença na produção, dando muita personalidade ao projeto, o que virou um chamariz para atrair o interesse do elenco.
Scoot McNairy, por exemplo, disse que ao ler que Liz estava no projeto, ele aceitou sem nem precisar ler o roteiro a fundo.
"Cara, de coração, não foi nem o roteiro que me atraiu para o show. Eu assisto documentários de crimes e séries policiais e sempre quis trabalhar em uma, só nunca pensei que seria em uma série da Liz Meriwether. Ela é fantástica! Ela vem quebrando barreiras ao dirigir, escrever e produzir séries. O fato de ser ela no comando desse projeto fez com que eu não precisasse ler muita coisa, porque eu tinha certeza absoluta de que ela faria algo incrível", revelou Scoot.
Quincy colaborou com o depoimento, destacando a presença dela nos sets de filmagens.
"Trabalhar com a Liz foi um sonho realizado. Eu amo o trabalho dela há muito tempo e fiquei nas nuvens quando me pediram para fazer o teste para este projeto. Eu não conseguia acreditar na minha sorte, porque ela é simplesmente genial! Quando me enviaram o material, fiquei impressionada, mas o que me prendeu foi o comando de set dela, que foi verdadeiramente incrível", completou Quincy.
"A Liz é muito, muito talentosa, e tenho certeza de que vocês verão muito mais produções criadas pela Liz Meriwether nos próximos anos", concluiu Scoot McNairy.
A primeira temporada de 'Fúria' está disponível no Disney+. O sucesso dela garantiu uma segunda temporada, que foi anunciada na última semana.
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