As chamadas canetas emagrecedoras transformaram a maneira como muitas pessoas encaram a perda de peso. Com a promessa de reduzir o apetite, favorecer o emagrecimento e melhorar indicadores metabólicos, medicamentos como semaglutida e tirzepatida ganharam espaço no tratamento da obesidade e do sobrepeso associado a comorbidades.
O avanço dessas terapias, porém, também trouxe uma expectativa de que a redução do número na balança seria suficiente para solucionar diferentes insatisfações relacionadas ao corpo. Na prática, especialistas alertam que emagrecer e tratar uma alteração corporal são processos distintos.
A perda de peso pode reduzir a quantidade de gordura e trazer benefícios à saúde, mas não corrige automaticamente alterações anatômicas, circulatórias ou estruturais. Por isso, quando permanecem sintomas como dor, inchaço, excesso de pele, flacidez ou desproporção corporal, a origem da queixa precisa ser investigada.
Efeito das canetas
Os medicamentos conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras atuam em mecanismos relacionados à saciedade, ao apetite e ao metabolismo. A semaglutida, por exemplo, atua sobre os receptores do GLP-1. Já a tirzepatida combina a ação sobre os receptores de GIP e GLP-1.
Entre os efeitos dessas substâncias estão o aumento da sensação de saciedade, a redução da ingestão alimentar e o retardamento do esvaziamento gástrico. No caso da tirzepatida, a indicação para o controle crônico do peso deve estar associada a uma alimentação com menor aporte calórico e à prática de atividade física.
A resposta ao tratamento, entretanto, varia entre os pacientes. Alimentação, sono, consumo de álcool, estresse, doenças endócrinas e uso de outros medicamentos podem interferir na evolução. Por isso, a eficácia do tratamento não deve ser medida apenas pela velocidade da perda de peso, mas também pela segurança e pelos resultados metabólicos e funcionais alcançados.
O uso sem acompanhamento médico também pode trazer riscos. Náuseas, vômitos, diarreia, constipação e dor abdominal estão entre os efeitos adversos descritos. Além disso, a perda de massa muscular pode ocorrer durante o emagrecimento, especialmente quando não há atenção à alimentação e à prática de exercícios.
No Brasil, os medicamentos agonistas de GLP-1 passaram, desde junho de 2025, a exigir retenção de receita nas farmácias, para ampliar o controle sobre a prescrição e reduzir o uso indiscriminado.
Emagrecimento não resolve
A redução da gordura corporal pode melhorar a mobilidade e o controle metabólico, mas não necessariamente elimina todas as alterações presentes no organismo.
Isso ocorre porque diferentes estruturas respondem de maneiras distintas à perda de peso. Pele, músculos, parede abdominal, sistema venoso e tecido adiposo não sofrem as mesmas transformações durante o processo.
Em perdas de peso expressivas ou rápidas, por exemplo, a pele pode não acompanhar a redução do volume corporal. A retração depende de fatores como elasticidade, idade, histórico de oscilações de peso e tempo de distensão dos tecidos.
Também existem condições que não podem ser explicadas apenas pelo excesso de gordura. A diástase abdominal, por exemplo, caracteriza-se pelo afastamento dos músculos retos do abdômen. As hérnias, por sua vez, ocorrem quando estruturas atravessam áreas enfraquecidas da parede abdominal. Já as lipodistrofias envolvem alterações na distribuição do tecido adiposo e podem exigir investigação específica.
O que ainda permanece?
Mesmo após um emagrecimento significativo, algumas pessoas continuam apresentando excesso de pele, flacidez ou perda de sustentação em regiões como mamas, braços, abdômen e coxas. Alterações no contorno facial também podem se tornar mais evidentes depois da redução do volume corporal. Em determinadas situações, o excesso de tecido deixa de ser uma questão estética. Atrito, irritações, dificuldade para se vestir e desconforto durante a prática de atividades físicas podem comprometer a rotina.
Outros sinais exigem atenção: dor, sensação de peso, inchaço, sensibilidade, hematomas frequentes e desproporção entre diferentes partes do corpo. Esses sintomas podem estar associados a alterações vasculares, distúrbios na distribuição da gordura ou outras condições clínicas. Assim, a persistência da queixa não significa necessariamente que o emagrecimento tenha fracassado. Pode indicar que existem problemas diferentes coexistindo e que cada um precisa de uma abordagem específica.
Avaliação é fundamental
Depois da perda de peso, a avaliação deve considerar mais do que o número da balança. A estabilidade, o estado nutricional, a quantidade de massa muscular, a qualidade da pele e a presença de sintomas são alguns dos aspectos que podem influenciar o tipo de tratamento.
A investigação também deve observar como a alteração interfere na vida cotidiana. Dor, inchaço, sensibilidade e limitações funcionais podem indicar a necessidade de avaliação por diferentes especialidades.
Segundo o médico André Araújo, nos casos de lipedema, a perda de peso pode melhorar parte do quadro, principalmente quando a paciente também apresenta sobrepeso ou obesidade. No entanto, o emagrecimento não necessariamente elimina manifestações como dor, sensibilidade, inchaço e desproporção corporal.
O especialista também destaca, em análise sobre a relação entre o Mounjaro e o lipedema, que a tirzepatida pode contribuir para a redução do peso e para o controle de fatores que podem agravar a condição. Isso, entretanto, não significa que o medicamento seja um tratamento específico ou isolado para a doença.
Tratamentos adequados
A conduta depende da causa identificada. O acompanhamento pode incluir orientação médica e nutricional, atividade física voltada à preservação da massa muscular, fisioterapia, terapia de compressão e cuidados relacionados à circulação.
Quando há excesso significativo de pele, diástase, hérnias, limitações funcionais ou alterações persistentes no contorno corporal, procedimentos cirúrgicos podem ser considerados. A indicação depende de fatores como anatomia, estabilidade do peso, condições clínicas e impacto na qualidade de vida.
Em determinadas situações, o tratamento pode ser realizado em etapas, priorizando a segurança e uma recuperação adequada.
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