O ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza afirmou à Polícia Federal que recebeu, ainda em 2024, informações sobre irregularidades bilionárias envolvendo o Banco Master. O relato abre uma nova frente de questionamentos sobre a fiscalização da instituição comandada por Daniel Vorcaro antes de sua liquidação.
Segundo o depoimento, Paulo Sérgio disse ter tomado conhecimento, em setembro de 2024, de problemas relacionados a fundos ligados ao Master. Meses depois, em dezembro, o BTG Pactual teria informado a ele sobre a identificação de um possível rombo de aproximadamente R$ 32 bilhões durante uma análise realizada sobre o banco.
O valor era superior à fraude de R$ 11,5 bilhões que posteriormente passou a fazer parte das apurações sobre o Master. A comunicação formal desse caso ao Ministério Público Federal ocorreu apenas em novembro de 2025, cerca de um ano depois dos primeiros alertas mencionados pelo ex-diretor.
De acordo com informações reunidas pela investigação, o BTG havia analisado ativos do Master durante uma possível negociação envolvendo a instituição. Paulo Sérgio relatou ainda que Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central, teria sido informado verbalmente sobre as suspeitas. Não houve, segundo o relato, apresentação de documentos naquela ocasião.
O depoimento ganha peso porque Paulo Sérgio está no centro de outra investigação da Polícia Federal. Ele e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, são suspeitos de favorecer interesses de Vorcaro dentro do Banco Central e de compartilhar informações restritas com o empresário. Ambos foram afastados de suas funções.
Mensagens analisadas pela PF indicam que Paulo Sérgio mantinha contato frequente com Vorcaro e chegou a ser procurado pelo ex-banqueiro para tratar de assuntos relacionados ao Master. A investigação também apura benefícios que teriam sido oferecidos aos servidores. As defesas contestam as acusações e negam atuação irregular em favor do banco.
Vorcaro, por sua vez, declarou em depoimento que Paulo Sérgio não prestou serviços particulares a ele e negou que integrantes do Banco Central tenham trabalhado em seu benefício.
A Polícia Federal tenta agora reconstruir a cronologia dos alertas e das decisões tomadas durante a fiscalização do Master. Gabriel Galípolo, atual presidente do BC, Roberto Campos Neto, seu antecessor, o diretor de Fiscalização Ailton de Aquino e André Esteves, do BTG Pactual, foram chamados para prestar depoimento como testemunhas.
A apuração deverá esclarecer quem teve acesso às informações sobre a situação financeira do Master, quais providências foram tomadas a partir dos alertas e por que as suspeitas de fraude só chegaram formalmente às autoridades responsáveis pela investigação criminal meses depois.
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