Raros são os programas de TV pública que conquistam o grande público. O Sem Censura (TV Brasil) é um deles. Vencedor do Prêmio APCA de melhor programa de TV em 2024 — feito inédito em 41 anos de emissora — e bicampeão do Melhores do Ano NaTelinha, o vespertino reedita hoje o programa de sucesso surgido nos anos 1980, quando estreou na então TVE/RJ, em 1985, para celebrar a redemocratização no país. Tetê Muniz inaugurou a bancada; Lúcia Leme o projetou nacionalmente; Leda Nagle o comandou por duas décadas; Vera Barroso assumiu em 2017. Mas a atração foi descontinuada em 2019. Cm a intervenção do governo Bolsonaro na EBC, voltou em formato diminuto, migrou para Brasília e perdeu o caráter diário ao vivo com Marina Machado entre 2021 e 2023. Só retornou à origem em fevereiro de 2024, com Cissa Guimarães, que devolveu ao formato o fôlego perdido. Desde então, o o programa alcançou mais de 16 milhões de brasileiros em 14 regiões metropolitanas monitoradas, com consumo acumulado superior a 59 milhões de horas assistidas — números que mostram a capacidade de conectar a televisão pública a pessoas de diferentes estados e demonstram o engajamento real da audiência com o conteúdo da telinha do canal.
Carioca de 69 anos, Cissa estreou aos 20 na peça "Dor de Amor", de Bráulio Pedroso, no Teatro Dulcina. Na Globo desde 1980, entrou como redatora, virou atriz de novelas como "Direito de Amar" e se tornou a cara do Vídeo Show por 15 anos esbanjando carisma. Apresentou outros programas da emissora mas acabou dispensada, ficando um ano e meio longe da TV. Quebrando o coco sem arrebetar a sapucaia, ela imprimou sua descontração ao Sem Censura e fala ao Correio de sua nova fase profissional.
Você já foi entrevistada pelo Sem Censura nas edições anteriores do programa? Como é a sensação de estar nos dois lados da bancada?
Cissa Guimarães - É maravilhoso. Esse sucesso todo que a gente está tendo agora, o Sem Censura sempre teve. É um programa que o lado que você tiver, você tá bem, porque você é bem recebido, a equipe te faz uma pesquisa incrível. É uma honra enorme conduzir a bancada, mas também vir aqui ser entrevistada. Todas as pessoas que são convidadas adoram, se sentem bem. É bom dos dois lados.
Na Globo você apresentou programas que estavam mais na linha do entretenimento ancorados em estruturas de produção enormes. Na TV Brasil, uma emissora pública, há uma lógica de produção completamente diferente. No que isso te impactou e o que mudou mais no seu jeito de trabalhar?
Existe essa diferença. Realmente na Globo tem uma estrutura gigante, mas não existe a liberdade que eu tenho aqui. Não tem essa conexão com as pessoas, todo mundo junto. Acho que acima de tudo não tem a liberdade que a gente tem aqui por ser uma televisão pública. Isso me fascinou e me encanta até hoje.
O que você acha que o "teu" Sem Censura tem de diferente em relação à sua versão anterior?
Acho que esse meu jeito maluco que fala qualquer coisa. Tinha uma amiga minha que dizia que a minha boca era um precipício por onde as palavras se suicidavam. Eu falo o que passa na minha cabeça e eu faço muito assim, eu tento fazer com que as pessoas também se sintam assim: digam o que pensam e se sintam em casa. Eu sempre falo: "Gente, é papo de botequim, todo mundo falando junto". Então, isso eu acho muito precioso, porque fica uma conversa descontraída, rindo, cada uma dizendo sua fala, sua opinião com tranquilidade.
Seiscentas edições em dois anos e meio traz quase que uma cadência industrial para um programa de conversa ao vivo. Como evitar que essa sequência frenética se mecanize? Como fazer que cada entrevista seja um encontro espontâneo e de troca de ideias?
Muito estudo em casa e se entregando de verdade a cada pessoa que vem aqui. Acredito que a entrega inteira é a coisa mais importante. Então, eu procuro estudar bastante sobre os convidados em casa. Aqui tenho o auxílio do meu diretor e de uma escaleta que eu preparo, mas é a minha cabeça e o meu sentimento na hora que estão sempre envolvidos diretamente com a pessoa. A escuta é muito importante. Então, eu tento desenvolver o máximo possível a escuta.
Como você costura o trânsito entre entrevistados de perfis e trajetórias tão diferentes sem que o programa vire uma colcha de retalhos e se desconecte do grande público?
Estudando e misturando mesmo, porque a vida é uma colcha de retalhos, entendeu? É tentar transformar aquele momento num encontro. Tornar temas triviais em algo útil para aquela pessoa na bancada e do outro lado da tela. Fazer perguntas que despertem o interesse por aquele papo. Você tem que saber dosar e contornar aquela entrevista e seus assuntos de uma maneira que toque a todos e cative o público.
O Sem Censura é uma atração de emissora pública, mas disputa atenção com a grade comercial. A concorrência pela audiência vespertina é justa quando o outro lado tem milhões de verba de marketing?
Eu acho que o mundo não é justo, né? Mas a gente faz o nosso e eu tô muito orgulhosa do que a gente faz, toda a minha equipe. Desenvolvemos um trabalho lindo com o que a gente tem, o que demonstra que não precisa ter muito para fazer um bom trabalho quando você se dedica como a gente faz aqui na TV Brasil. Então isso é uma consequência do nosso trabalho, da nossa entrega total.
Você tem apostado na interação direta com o público ao ler mensagens de WhatsApp ao vivo e comentar com os convidados. Como isso começou? E já houve algum momento em que uma pergunta do público mudou o rumo de uma entrevista de um jeito que você não esperava?
Isso foi uma ideia da direção do programa que eu achei ótima. Não muda não, porque a gente estuda e busca se preparar de uma maneira prévia. De vez em quando quem fica um pouquinho de saia justa é o convidado com a pergunta. Mas, a gente sempre dá um jeito, né gente? O programa é muito livre, democrático, é totalmente sem censura mesmo.
E o que podemos esperar do Sem Censura nas próximas 600 edições?
A gente pode esperar muita informação boa e com a credibilidade de uma TV pública. Eu espero que o cidadão esteja com a gente todas as tardes, doando seu tempo, sua audiência e seu carinho. Que a gente consiga fazer um trabalho livre, com liberdade e democracia.
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