A experiência de voltar ao set de uma novela também pode ser uma forma de continuar aprendendo. É assim que Renata Sorrah, aos 78 anos, encara o trabalho em "Por Você", próxima novela das 19h da Globo. Na trama, a atriz interpreta Pérola, uma mulher firme e ética que precisa lidar com o conflito de amar a própria filha, Vanessa (Aline Moraes), apesar de não admirar as escolhas feitas por ela.
A personagem coloca Renata diante de uma relação familiar cheia de contradições. Vanessa é uma das vilãs da história, enquanto Pérola mantém uma postura humanista e tenta acreditar que a filha ainda pode mudar. Para a atriz, o desafio está justamente em não transformar esse sentimento materno em algo simples ou previsível. "Eu acho que a Pérola tem pela filha que é a Vanessa amor. Ela ama a filha, mas o grande sonho do que ela espera na vida é que ela consiga mudar, ela consiga se tornar uma pessoa melhor", afirma.
A atriz diz que tem pensado com cuidado nos limites desse amor. Afinal, Pérola não deixa de amar Vanessa, mas também não consegue ignorar a pessoa que a filha se tornou. "É uma relação difícil você não admirar a sua filha. E ela ao mesmo ela ama a filha, ela gosta dela, ela quer que ela fique bem. E ela se pergunta... Onde foi que eu errei? Onde foi que não deu certo", conta.
O conflito ganha ainda outra camada pela personalidade de Pérola. Longe de ser uma mãe permissiva, ela é descrita por Renata como uma mulher "muito firme, muito inteligente" e "muito íntegra, ética". A personagem, segundo a atriz, tem uma visão de mundo distante daquela apresentada pela filha. "A Pérola é uma ideia mais humanista. Ela quer sim, como a Bela, atender a mulheres grávidas em situação de vulnerabilidade. Ela quer abrir isso, tipo SUS", diz.
A relação entre mãe e filha, porém, é apenas uma das frentes de troca da atriz na nova novela. Em "Por Você", Renata também divide cenas com intérpretes mais jovens e vê nessa convivência uma oportunidade de renovar seu olhar sobre o próprio trabalho. "Eu nunca tinha trabalhado nem com a Giovana, nem com Lucas e foi delicioso, foi muito bom a gente trocar, olhar um no olho do outro", afirma, citando Giovanna Grigio e Lucas, além de outros colegas do elenco.
Para Renata, a construção da personagem não acontece de maneira isolada. A atriz afirma que os colegas ajudam a revelar aspectos de Pérola que não estão necessariamente explícitos no texto. "O meu personagem está na Vanessa, na Bela, no Lucas, na Leandra. Eles é que vão me dando feedback de quem é essa Pérola. Então, é de uma importância imensa", explica.
Aos olhos da atriz, esse tipo de interação é justamente uma das vantagens de permanecer em uma profissão na qual nunca existe uma fórmula definitiva. Mesmo depois de décadas de carreira, ela diz que continua encontrando motivos para se surpreender. "Eu tenho milhares de anos trabalhando... e é sempre bom aprender, continuar aprendendo. No dia que disser: 'Eu sei tudo, ah, isso eu já sei'. Aí acabou. Aí não tem graça. A graça é você estar sempre abrindo as janelas, abrindo as portas, respirando, dizendo: 'Como é que é? Olha que interessante'", afirma.
"Por Você" também representa um momento de reencontro com a televisão para Giovanna Grigio. A atriz, que passou quase uma década sem fazer novela, conta que voltar ao formato tem sido uma espécie de reaprendizado. "Está sendo toda uma experiência muito, muito especial, né? Porque realmente fazia muitos anos que eu não fazia novela. Eu estava fazendo bastante cinema e séries nesse meio tempo", diz a atriz que compara a experiência a voltar a jogar um jogo que acreditava conhecer, mas que agora apresenta novas regras.
Com autoria de Dino Cantelli e Juliana Peres, "Por Você" parte de uma proposta diferente daquela que tradicionalmente domina a faixa das 19h. Em vez de colocar um romance no centro da narrativa, a novela acompanha uma amizade feminina e os vínculos construídos a partir dela.
A história é inspirada em um caso real de uma policial civil do Rio Grande do Norte que, em 2018, acolheu seis crianças encontradas sozinhas depois de atender a uma ocorrência. A partir desse ponto, a trama amplia a discussão para temas como maternidade, luto, família e as diferentes formas de afeto.
Para Juliana Peres, uma das autoras, a história nasceu também do desejo de retratar a zona sul carioca e construir uma geografia reconhecível para os personagens. "Quando a gente começou a contar a história, a gente queria falar da zona sul carioca, porque a gente queria um universo ali que tivesse a nossa geografia, meio ali como o Maipá, Botafogo...", explica, destacando que a escolha do título acompanha a ideia de entrega que atravessa as relações da novela. .
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