Teatro

A verdade tem dentes de ouro

Tuca Andrada brilha no papel do bicheiro mítico de Nelson Rodrigues, nova montagem de 'Boca de Ouro', com direção de Sergio Módena

A verdade tem
dentes de ouro

Em cartaz na Arena do Sesc Copacabana, a nova montagem de "Boca de Ouro", de Nelson Rodrigues, tem Tuca Andrada na pele do bicheiro mais célebre da dramaturgia brasileira. O personagem nasceu do sendo cronista de Nelson. Segundo o relato do biógrafo Ruy Castro, um pernambucano da linha do ônibus que Nelson tomava todos os dias para visitar a mãe exibia, ao chegar ao ponto final, em Laranjeiras, os vinte e sete dentes de ouro — "Pode contar, um por um! E não é coroa, é maciço! Ouro 24!". O dramaturgo somou esse material ao bicheiro real Arlindo Pimenta e escreveu, em 1959, a peça sobre as muitas versões da trajetória do personagem-título.

Nesta encenação, depois de o "Drácula de Madureira" ser encontrado morto na sarjeta, sem seus famosos dentes de ouro, o repórter Caveirinha (Jessé Scarpellini), do jornal "O Sol", bate à porta de Dona Guigui (Ana Velloso), ex-amante do contraventor, em busca do "crime bacana" que renda a primeira página.

Ela entrega três versões da mesma história. Sem saber que ele morreu e movida pelo rancor de ter sido abandonada, descreve um bandido cruel e violento, capaz de matar o inofensivo e covarde Leleco para tomar Celeste, menina sonhadora, fiel ao marido.

Ao saber da morte, ela cai em prantos e o contraventor vira amante extraordinário e homem generoso — Celeste agora não é nada fiel, Leleco é viciado em jogo, capaz de vender a própria mulher, e Agenor, o marido que a acolheu quando Boca a "chutou", irritado com os elogios ao rival, faz as malas.

Na terceira versão, com a interferência de Caveirinha, que se sente responsável pela separação, Guigui fala em traição, ciúmes e numa mistura de sentimentos, buscando preservar o casamento — e revela também as inseguranças do bicheiro, de quem a grã-fina Maria Luísa, que o visitava em busca de donativos para os filhos dos cancerosos, fazia um "Deus Asteca".

"A obra mostra-se absolutamente atual ao questionar a própria noção de verdade, cada vez mais sujeita a interpretações, distorções e manipulações de acordo com interesses, convicções e ideologias. Afinal, somos todos criadores e recriadores da realidade quando recordamos e narramos os acontecimentos", observa Sergio Módena, diretor e idealizador da montagem. "Em Boca de Ouro, Nelson Rodrigues nos lembra que a ideia de uma verdade absoluta é uma invenção. Todos nós somos vistos, avaliados e julgados a partir da subjetividade do olhar de quem nos observa."

O autor dessa engenharia de versões tem biografia de personagem. Nelson Falcão Rodrigues nasceu no Recife em 23 de agosto de 1912, filho do jornalista e deputado Mário Rodrigues, e chegou ao Rio de Janeiro em 1916, numa família de treze irmãos. Aos 13 anos, já era repórter policial em "A Manhã", jornal do pai — o convívio com a sarjeta e a notícia apressada atravessaria toda sua obra. De "A Vida Como Ela É", a coluna, aos folhetins assinados como Suzana Flag, e das crônicas esportivas que, desde 1962, transformavam partidas de futebol em batalhas épicas, Nelson dissecou família, moral burguesa e classe média.

Foram dezessete peças, e a consagração veio com "Vestido de Noiva" (1943), montada no Teatro Municipal pelos Comediantes, sob direção de Ziembinski: os três planos de realidade, memória e alucinação iniciaram a modernização do teatro brasileiro. O Anjo Pornográfico, como ficou conhecido, morreu no Rio em 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos, deixando um legado literário reconhecido internacionalmente.

Tuca conhece o autor de longa data. Há 33 anos viveu Pedro na montagem comemorativa dos 50 anos de "Vestido de Noiva", com Malu Mader de Alaíde, sob direção de Luiz Arthur Nunes. "Nelson Rodrigues é o grande modernizador do teatro brasileiro no século XX. Foi o primeiro autor brasileiro a subverter a relação de tempo versus espaço nos palcos nacionais e escancarar as relações familiares, dissecando as classes média e pobre do país com uma crueza nunca antes vista", diz o ator, que reencontra Módena no repertório rodriguiano em sua montagem de "A Falecida" entre 2023 e 2025, com Camila Morgado de Zulmira, por sessões lotadas do país. Zulmira e Boca de Ouro são dois anti-heróis suburbanos.

Embora reconheça os traços fortes do universo suburbano, Módena não reproduz a Madureira do fim dos anos 1050: sua proposta cênica é atemporal. Ao lado de Tuca, compõem o elenco Gustavo Wabner, Maria Clara Aquino, Ana Velloso, Jessé Scarpellini, Antonio Gonzalez e Cássia Sanches.

"Para mim, Boca de Ouro é antes de tudo um estudo sobre o que é a 'verdade'. Qual é a 'verdade' que mais nos interessa quando somos personagens daquela história? Qual é a 'verdade' que lemos numa notícia da imprensa? É uma 'verdade' ou só está servindo aos interesses de alguém? Num mundo esfacelado e de pós-verdades me parece uma discussão bastante oportuna", diz Tuca. "Boca de Ouro me parece um personagem extremamente difícil porque o autor não dá ao público dados concretos sobre ele. Você assiste o personagem sendo modificado pelo estímulo emocional de outro personagem, que é quem narra a história, e esse relato toma formas diferentes ao longo da peça. É um texto com muitas armadilhas para qualquer ator", pontua.

SERVIÇO

BOCA DE OURO

Arena do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)

Até 22/11, quintas e sextas (20h) e sábados e domingos (18h)

Ingressos: R$ 40, R$ 36 (conveniados), R$ 31 (conveniados empresariais), R$ 28 (sócio Sesc), R$ 20 (meia) e grátis (PCG)