Aincapacidade humana de detectar a angústia e sofrimento no outro, mesmo que sejam íntimos, é o que o texto dramático "Boa Noite, Mãe" nos aterra. A escritora estadunidense Marsha Norman faturou o Prêmio Pulitzer de Teatro em 1983 pela obra, que virou filme em 1986, dirigido por Tom Moore e estrelado por Anne Bancroft e Sissy Spacek.
Numa única noite de sábado, no interior dos Estados Unidos, mãe e filha estabelecem um confronto aterrador: a descendente anuncia ceifar a própria vida. Daí em diante somos envolvidos numa trama sobre suicídio, dores, afetos extraviados, ressentimentos. Um diálogo aprofundado faz com que as duas revisitem o passado.
Jessie é acometida por uma epilepsia grave, teve seu casamento fracassado, um filho transgressor, uma vida claustrofóbica, que a conduziu para desconstruir o sentido das coisas. Num mergulho temerário, as personagens criam embates, nos quais o peso de outrora desvela a vulnerabilidade das relações em busca de conexões autênticas, fabulando um mecanismo catártico desconfortável.
A tradução de José Pedro Peter é fluida e Leonardo Netto opta por uma montagem enxuta, permitindo que a excelente narrativa reverbere o impacto necessário. O diretor estrutura seu realismo psicológico articulando silêncios e conflitos tormentosos, como se uma panela de pressão estivesse pronta a estourar, numa ausência de trilha, que fortalece o esfacelamento entre mãe e filha. Institui, com propriedade, efeitos cotidianos para encobrir a tensão imersa daqueles vocábulos potentes e dolorosos.
Há um legato vocal impulsiona a interpretação de Ana Beatriz Nogueira, cuidando para que suas transições emocionais fluam organicamente, sem esforço. Rompantes de falas são organizadas harmonicamente, com perfeito controle de respiração. Além de presença marcante, a excelente atriz embute humor no status trágico de sua Thelma, sedimentando seu talento. Andréia Horta desenha a tribulação da personagem com força dramática na medida certa, sem fragilizá-la, além de não se desviar para o sentimentalismo barato. A atriz confere personalidade à sua Jessie, mesmo repleta de decisões funestas. Suspensões inebriantes são implementadas pelas intérpretes, potencializando a montagem.
A caixa cênica é preenchida por estrutura que revela copa cozinha, onde transcorre a ação, com mesa, armário e sótão, dialogando com figurinos apropriados, em coloração terrosa, numa dúplice concepção do talento de Ronald Teixeira e Flavio Graff. A delicada luz de Ana Luzia Molinari de Simoni escolta o fluxo de emoção das personagens.
Vale ressaltar que este dimensionamento dramatúrgico denuncia reflexos especulares de uma infinidade de indivíduos que sofrem de epilepsia e, estatisticamente, é comprovada a expansão de sua prevalência nas últimas décadas. "Boa Noite, Mãe" é contundente, eficaz e humano, no sentido de que a invisibilidade da dor pode resultar em consequências irreversíveis.
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