Nesta domingo (4) o Brasil vai às urnas. Nos três dias anteriores, os artistas mambembes Vavá e Lula - criados por Enzo Mothê e João Pessanha - ancoram sua caravana de praça em praça para revisitar, em meio a festa democracia, os tristes episódios da ditadura militar brasileira e investigar a força da arte como resistência. "Colateral" chega à segunda temporada com quatro prêmios no currículo, entre eles o de Melhor Obra no Festival Sated-RJ.
A peça nasceu na CAL, Casa das Artes de Laranjeiras, a partir das reflexões provocadas pelos 40 anos do fim do regime, completados em 2025. Naquele ano, o espetáculo ganhou uma curta temporada fora do âmbito acadêmico, no Teatro Cândido Mendes. Para os criadores, a reestreia de 2026 reafirma a importância da cultura na defesa da democracia.
"É fundamental fincar no palco a bandeira de um Brasil essencialmente livre das amarras de um dos períodos mais violentos da história recente do país", diz João Pessanha. "Reafirmamos nossa peça como uma busca por um Brasil livre e poético. Essencialmente brasileiro. Um Brasil que não cabe no quintal de nenhum país."
O título condensa os sentidos que a palavra "colateral" acumula: os efeitos que a ditadura deixou na sociedade e que, segundo os artistas, ainda reverberam no presente; a dualidade entre drama e comédia; a dupla em cena; o encontro entre dois tempos, o passado e o presente. Na maquiagem dos personagens e na figura do palhaço e do bufão, uma camada a mais: o humor, em contraponto a uma narrativa marcada pela violência.
A música integra a dramaturgia. "A música entra em cena de forma vertebral", explica Enzo Mothê. "Temos um sanfoneiro que introduz o tom popular do acordeon, costurando as transições e acompanhando as canções, que versam sobre resistência através da alegria e da solaridade." No repertório, canções conhecidas como "Tempo Rei", de Gilberto Gil, e "Tareco e Mariola", samba de Norivelle Ribeiro eternizado por Elizeth Cardoso, além da autoral "Brilho de Cornalina", escrita por Pessanha para a peça.
A dupla define seu trabalho como Teatro de Levante, conceito que parte da reflexão de Federico García Lorca sobre o teatro como "a poesia que se levanta das páginas e se faz humana" e o aproxima dos levantes populares e das demandas coletivas. A receita, contam os criadores, tem ingredientes declarados: "Um rocambole enformado por Bertolt Brecht, com massa feita pelo Teatro Vivo e Rueiro de Amir Haddad, recheado por Augusto Boal, confeitado pelo xamã miscelânico José Celso Martinez Corrêa e servido numa festa, onde o brasileiro encontra quem nunca devia ter perdido: o mais genuíno Brasil. Chegou a hora de realizar o Brasil! Através do Novo Teatro. O Teatro de Levante!"
A parceria também nasceu na CAL. Mothê e Pessanha se conheceram no primeiro período da escola e, em poucas semanas, já haviam firmado o acordo criativo. A primeira cena escrita a quatro mãos, "Política do Faz de Conta", colocava Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho num debate eleitoral — prenúncio, se é que precisava de um. De lá para cá, foram 12 cenas curtas e oito prêmios, quatro deles por "Colateral". Moradores da Zona Norte carioca — João, de Marechal Hermes; Enzo, da Vila da Penha —, os dois compartilham o desejo de oxigenar a cena teatral do Rio com uma abordagem multilinguística, em que diferentes linguagens artísticas se integram para contar novas histórias. Juntos, estiveram ainda em montagens como "Exilados" (direção de Fernando Bohrer), "Assim É, Se Lhe Parece" (Marcos França), "Bodas de Sangue" (Marcus Alvisi), "Sururu Armorial" (Adriana Maia) e "O Inspetor Geral" (João Batista).
Além de "Colateral", a dupla circula "Improntidão" e desenvolve duas dramaturgias novas: uma farsa urbana e uma adaptação de "Dom Casmurro", de Machado de Assis.
SERVIÇO
COLATERAL
Temporada: 1, 2 e 3 de outubro (quinta a sábado) | Horários: 19h
Endereço: Teatro Municipal Gonzaguinha — R. Benedito Hipólito, 125, Centro, Rio de Janeiro | Ingressos: R$ 60 (inteira); R$ 30 (meia)
Menu