Acena é pequena, mas como diz. Descalço na biblioteca de casa, Sérgio Britto dança sozinho ao som da voz rascante de Billie Holiday em "My Solitude". "Eu faço o que eu quero. Ainda faço o que eu quero", diz ele em off. Tinha 87 anos. O momento está em "A Última Gravação", documentário de Isabel Cavalcanti e Célia Freitas que estreia nesta quinta-feira (24), às 20h, no Canal Brasil, e que também vai para o DOC Canal Brasil, no Prime Video. São os quatro últimos anos de vida de um homem que se confunde com a história do teatro brasileiro — e que se entregou à câmera sem pudor nenhum, falando livremente de sexualidade, de corpo, dos limites que a idade lhe impunha.
Não fosse o teatro, seria médico. Britto cursou até o sexto ano de medicina na Faculdade da Praia Vermelha, mas abandonou tudo em 1945, depois de fazer Benvoglio em "Romeu e Julieta" no teatro universitário. Nunca mais voltou atrás. Foi do elenco profissional inaugural do Teatro de Arena, em 1953, atuou no Teatro Brasileiro de Comédia e fundou, em 1959, o Teatro dos Sete, ao lado de Fernanda Montenegro e Ítalo Rossi.
Na TV Tupi, criou e dirigiu o Grande Teatro Tupi, programa formador de plateia, que rodou mais de uma década entre a Tupi, a TV Rio e a Globo — e contava em cena com Fernanda, Ítalo e Nathália Timberg. Na Globo, dirigiu "Ilusões Perdidas", a primeira telenovela da emissora. Fundou ainda o Teatro dos Quatro, em 1978, encenou mais de 90 espetáculos e, nos anos 2000, seguiu em atividade: fez o solo "Sergio 80", com direção de Domingos Oliveira, viveu o viciado em pôquer de "Memorial de Maria Moura", estrelou "Recordar é Viver" ao lado de Suely Franco e lançou a autobiografia "O Teatro e Eu". Na TV Brasil, apresentava o "Arte com Sérgio Britto".
O filme traz como recorte seu último grande desafio. Em 2008, convidada para uma conversa sobre Beckett no programa dele, a jovem diretora Isabel Cavalcanti — estudiosa da obra do irlandês — saiu de lá com a incumbência de montar "A Última Gravação de Krapp" e "Ato sem Palavras I" com o veterano de 87 anos. Com tradução de Angela Leite Lopes, o programa ficou mais de um ano em cartaz no Oi Futuro e rendeu a Britto um até então inédito Prêmio Shell de melhor ator, em 2009 - a grande láurea teatral que lhe faltava. "O Sérgio ganhou todos os prêmios de melhor ator do ano, inclusive o Shell", lembra Isabel.
As imagens desses ensaios eram boas demais para ficar num arquivo. "Quando vi as imagens do Sérgio, fiquei apaixonada. Falei com a Bel: 'Isso não pode ser making of, tem de ser um documentário'", conta Célia Freitas, montadora e roteirista que assumiu a co-direção. As filmagens começaram sem compromisso, em 2008 — e só andaram porque uma nota de jornal chegou ao ouvidos de Rodolfo da Silva, amigo de Britto desde os tempos do Teatro dos Quatro, que decidiu apoiar o projeto.
O que se vê é um velho em plena posse de si. Britto faz aula de dança, toma banho diante da câmera, comenta as limitações do corpo. Quando uma hemorragia afetou sua memória, pediu para continuar trabalhando. "Ele não tinha pudores, se entregava para a câmera o tempo todo", lembra Isabel. "A disponibilidade era impressionante. Ele não retrucava."
Rodado a partir de 2008, o longa só chegou às telas em 2019, na mostra Itinerários Únicos do Festival do Rio, no Estação Net Gávea — numa terça-feira de dezembro que marcava oito anos exatos da morte do ator, aos 88. "O fato de ser lançado só agora, exatamente no dia em que ele morreu, é muito simbólico. Afinal, um documentário serve para proteger e preservar a memória", observou Isabel na ocasião. Onze anos separaram a primeira cena da estreia; Sérgio Britto, nesse meio-tempo, não deixou de trabalhar um único dia. Agora o filme chega à televisão, para o que grande público jamais esqueça de qão gigante este artista foi.
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