Precisou de um vídeo de bastidores ao lado de Fábio Porchat para o público descobrir Jefferson Schroeder, o "homem das mil vozes". No viral, o ator apresentava Kate, uma dubladora com o bordão "Oh, meu Deus", e saiu dali com milhares de fãs da noite para o dia. Da internet para o palco do Café Pequeno, no Leblon, ele apresenta até 30 de setembro o monólogo "Onde estão as pessoas que você amou", comédia dirigida por João Fonseca.
"É a primeira vez que eu reúno muitos dos meus personagens em uma peça de teatro. São 17 vozes", conta Schroeder, ator e dramaturgo do espetáculo, que conta a história de um neto que visita a avó convidada a celebrar o último aniversário da própria vida. Comovido com o encontro, o jovem recria com a própria voz um universo de personagens que preenchem a solidão da senhora.
"Para essa comédia, eu e o João Fonseca tivemos a imaginação do público como ponto de partida. A primeira pergunta que faço é: 'Se eu pedir para vocês imaginarem, vocês imaginam?'. O jogo é proposto de uma forma muito crua: poucos elementos de cena, pouca trilha musical, poucas mudanças no cenário e um figurino inspirado em uma roupa de ensaio preta. A partir dessa imagem de um ator em um palco cru, começa a contação da história, conduzida pelas vozes de cada um dos 17 personagens", explica.
Na dramaturgia, o desafio foi levar personagens que ele já fazia no Instagram (@schjefferson), sem ligação entre si, para uma história lógica em que todos acabam se conhecendo. Na cena, são as trocas rápidas de uma voz para a outra, que também transformam o corpo. "Há um momento em que todos os personagens estão em cena, enquanto eu estou sozinho para dar vida a todos eles — incluindo a avó, que sou eu também que faço", conta.
O coração da peça, porém, está fora do palco. "O assunto é relacionado às minhas avós que já faleceram e a saudade que sinto delas. O monólogo é a expressão do meu desejo de entender para onde elas foram e como faço para reencontrá-las. No texto há vários elementos das memórias da minha infância e da vida de cada personagem que criei ao longo dos anos", relembra o ator.
As mortes das avós o marcaram "de uma forma profunda e eterna", com a sensação de que elas sumiram de repente, sem boa explicação. Daí a ideia de criar "um planeta para onde foram as pessoas que morreram na Terra". "A morte é um grande enigma para mim, com diversas respostas possíveis. Essas pessoas, tão cheias de detalhes, morrem, são subtraídas daqui da Terra... e vão para onde? Para um outro planeta? Ainda não sei, tento responder trazendo-as à vida novamente, nessa peça. E agora posso reencontrá-las no palco, enquanto faço suas vozes e revivo as memórias que tenho delas."
A peça carrega a marca de uma parceria premiada: "A produtora e a gaivota", primeiro solo de Schroeder, venceu nas categorias Melhor Texto e Melhor Performance no Prêmio do Humor do Rio de Janeiro.
É o segundo monólogo dos dois juntos e o terceiro trabalho em comum. "Eu e o João temos uma relação muito amigável. Funcionamos como um único cérebro pensante, resultante desse encontro. Com ele tenho liberdade para dizer como me sinto e o que desejo, e ele me dirige a partir do que funciona para mim. Decidimos juntos os melhores improvisos que devemos manter; ele tem a permissão de me olhar de fora, e eu de me olhar por dentro."
Formado pela Casa das Artes de Laranjeiras, Schroeder atuou por seis anos na companhia OmondÉ, de Inez Viana, e em montagens dirigidas por Felipe Hirsch e Gerald Thomas. Na TV, passou por "Se Joga" e "Big Brother Brasil 19", da Globo, e por produções da Netflix como "Acorda, Carlo!" e "B.O.". No cinema, está em "Minha Mãe é uma Peça" e "Cabras da Peste 2", entre outros, e é autor do livro "O Ponto".
SERVIÇO
ONDE ESTÃO AS PESSOAS QUE VOCÊ AMOU
Teatro Municipal Café Pequeno (Av. Ataulfo de Paiva, 269, Leblon)
Até 30/9, terças e quartas (20h) | Ingressos: R$ 70 e R$ 35 (meia)
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