O vestido que Joana Lerner veste em cena não foi feito para ela. Criado por Marcelo De Gang para o solo "Dagmar e Su Espelho", da bailarina Giselda Fernandes, pertencia a outro corpo, outro gesto. E agora é usado por pela enteada da bailarina, num espetáculo em que as duas se apresentam juntas pela primeira vez, já diz boa parte do que se passa em "Sem corpo não há aqui": coisas que eram de alguém se deslocam, ganham outra respiração — e é nesse trânsito que a memória se faz presente.
Em cartaz na Sala Multiuso do Sesc Copacabana até o dia 26, o espetáculo de dança-teatro com direção e dramaturgia de Isabel Cavalcanti é construído sobre um deslocamento mais fundo do que o de um vestido emprestado. Giselda Fernandes e Joana Lerner são madrasta e enteada na vida real. Há dois anos, perderam o marido e pai, o artista plástico Hilton Berredo — parceiro de vida e de arte de Giselda desde 1986, diretor artístico da Os Dois Companhia de Dança, cia fundada por ela em 1992 e hoje uma das mais longevas da cena carioca.
Berredo morreu no início de 2024, deixando um vazio afetivo e criativo: era ele quem assinava a cenografia, os vídeos, a concepção visual dos espetáculos.
A tarefa de transformar esse luto compartilhado em ficção caiu sobre Isabel Cavalcanti. Indicada aos prêmios Shell, Cesgranrio e Arte Qualidade Brasil, autora de um livro sobre Samuel Beckett — quem sabe o maior dramaturgo da ausência —, ela tinha diante de si um desafio que transcende a encenação.
"Como realidade e ficção se misturavam o tempo todo nesse processo, precisei criar um espaço em que elas se sentissem seguras para expor as dores, alegrias, memórias, os conflitos, encontros e desencontros existentes entre elas e, simultaneamente, transformar isso tudo em ficção, em dança-teatro", diz Isabel.
A articulação entre fala e movimento não veio de imediato. A diretora propôs que cada intérprete criasse partituras corporais a partir da história do próprio corpo. Foi da observação dessas partituras que nasceu a necessidade de também dizer com palavras. "Fui entendendo aos poucos o fluxo entre movimento e fala. E a dramaturgia foi se costurando. Tudo é dança, afinal: a palavra e o gesto", explica. A frase tem ironia delicada: meses de noites insones para chegar a uma dramaturgia em que as palavras se dissolvem no gesto — operação que Beckett perseguia em suas peças, onde a linguagem se esgota e o corpo diz o que a palavra não consegue.
SERVIÇO
SEM CORPO NÃO HÁ AQUI
Sala Multiuso do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)
Até 26/8, quintas e sextas (19h) | sábados e domingos (17h)
Ingressos: R$ 40, R$ 36 (convênios), R$ 28 (sócio Sesc), R$ 31 (convênio empresário), R$ 20 (meia) e grátis (PCG)
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