Teatro

Inspiração que veio de John Gay e Bertold Brecht

Inspiração que veio de John Gay e Bertold Brecht

A "Ópera do Malandro", escrita por Chico Buarque em 1978 e inicialmente dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa pela recém-fundada produtora Teatro dos 4, nasceu de uma conversa com o cineasta moçambicano Ruy Guerra. A ideia era adaptar para o Brasil duas obras que, à época, já formavam uma linhagem: "A Ópera do Mendigo" (1728), de John Gay, e "A Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill.

A cadeia genealógica começa em Londres, quando John Gay estreou sua obra no Lincoln's Inn Fields Theatre. Tratava-se de uma ballad opera — peça com diálogos falados intercalados por canções populares — que parodiava a ópera italiana importada e, sobretudo, satirizava a política inglesa, com alusões claras ao então primeiro-ministro Robert Walpole. O herói, Macheath, era um bandoleiro charmoso, e a obra enchia os palcos com prostitutas, ladrões e informantes, questionando a fronteira entre criminalidade e a sociedade inglesa.

Duzentos anos depois, Brecht e Weill transformaram o material de Gay numa obra nova, com libreto baseado na tradução de Elisabeth Hauptmann. "A Ópera dos Três Vinténs" deslocou a ação para uma Londres vitoriana e introduziu o aparato do teatro épico brechtiano: distanciamento, canções de comentário, e a crítica marxista à hipocrisia burguesa. Mackie Messer (Mack the Knife) tornou-se símbolo da violência capitalista disfarçada de elegância. A partitura de Weill, com suas referências de cabaré, dizia tanto quanto o texto de Brecht.

Chico Buarque, por sua vez, leva sua dramaturgia para o Rio de Janeiro da década de 1940, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas e a Segunda Guerra Mundial. O bandoleirismo inglês agora é malandragem carioca; a ópera parodiada virou samba, bolero, marchinha... e a crítica à burguesia europeia assume ares de denúncia ao capitalismo burocrático brasileiro e sua modernização entreguista. "O nosso trabalho tem a estrutura da peça de Gay, o enfoque crítico de Brecht, mas é essencialmente brasileiro", disse Chico à época.

A ressignificação é profunda. O casamento que em Gay e Brecht selava a aliança entre crime e polícia torna-se, em Chico, a formalização do contrabando pelo Estado Novo — o casamento de Teresinha com Max Overseas. A figura de Geni, a travesti que "só serve para apanhar", é criação original, sem equivalente direto nas obras anteriores.

O musical usava o passado varguista como espelho da ditadura militar dos anos 1970 — ardil que permitiu a Chico driblar a censura. Quase cinquenta anos depois, a "Ópera do Malandro" segue com sua crítica radical aos valores (ou falta de) da sociedade brasileira.