Correio da Manhã
Teatro

O compositor que só sabe evoluir

Guinga mostra a excelência das novas criações e suas canções mais célebres em duas apresentações pelo projeto Terças no Ipanema

O compositor que só sabe
evoluir

Affonso Nunes

Aos 76 anos, Guinga presenteia o público com "Catonho", um EP que reafirma sua condição de um dos maiores compositores brasileiros contemporâneos. Lançado em 10 de junho — data de seu aniversário —, o trabalho dialoga com aclamado álbum "Zaboio", de 2021. Agora, o violonista carioca sobe ao palco do Teatro Ipanema Rubens Corrêa para a estreia do show nesta terça-feira (7) e no dia 21, dentro do projeto Terças no Ipanema. Nas duas apresentações, o músico será acompanhado por convidados especiais.

O EP reúne duas canções inéditas que mostram uma das facetas mais notadas na obra de Guinga: seu lado cronista do subúrbio e, por exetensão, da alma brasileira. "Catonho", a faixa-título, é um autorretrato épico e geográfico que percorre as ruas do Rio — da Ladeira Grapiúna à Praça Seca, de Bangu ao Catonho — transformando bairros e memórias em poesia em seu estado mais puro.

Para o compositor, a música nasce diretamente de sua trajetória pessoal. "É uma descrição de lugares por onde andei na minha vida e ando até hoje. É sobre existência. Catonho sou eu". A segunda faixa, "Rua do Pecado", dedicada à mãe do artista, Dona Inalda, é uma elegia de profunda delicadeza que narra o desembarque simbólico da matriarca no "céu de Imbassaí".

A excelência técnica e criativa marcam toda a obra deste cantor e compositor singular. Produzido por Alexandre Kassin, o trabalho evidencia o violão como instrumento central. As introduções são obras-primas criadas com a precisão de quem domina cada nuance do instrumento. A harmonia e a melodia abrem caminhos para as letras que se adaptam com perfeição, carregando palavras inesperadas e instigantes. Em "Catonho", versos como "eu sou um velho capenga / Que realenga no Catonho / Cafundá brejo medonho / Cara a cara com o demônio" revelam a desafetação com que Guinga escolhe suas palavras, criando uma comunhão entre versos, harmonias, melodias e ritmos.

Em resenha publicada aqui no Correio em 23 de junho, nosso crítico Aquiles Rique Reis já destacava que "a criatividade composicional do cara aumentou" e que Guinga "está muito perto de ser visto como um dos maiores compositores deste país... se bem que, a essa altura, ele já seja o maior". Aquiles observa ainda que o violão de Guinga opera "qual um Paganini endiabrado", um "tesouro fantástico". A análise ressalta ainda que nada passa despercebido ao compositor: "tudo aflora em comunhão, versos, harmonias, melodias, ritmos — profundo alcance criativo".

"Rua do Pecado" reafirma a excelência musical de Guinga como criador revolucionário. A canção carrega um movimento íntimo de reconciliação afetiva — um acerto de contas com a mãe que "enfrentou mil e uma noites de agonia", deixando um rastro de luz na história do filho artista. Segundo Guinga, a composição é "um tributo à minha mãe, eu que a via sempre triste e chorando. Essa canção é um acerto de contas com a minha mãe". Ao cantar com uma voz diferente de qualquer outra, Guinga associa seu amor próprio à sua própria música, tornando tudo profundamente pessoal.

Neste show de estreia do noco trabalho, Guinga relembra ainda parcerias memoráveis com compositores como Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro — "Bolero de Satã", "Catavento e Girassol", "Baião de Lacan" e "Senhorinha" — além de composições solo como "Igreja da Penha" e "Paulistana Sabiá", dedicada à cantora Mônica Salmaso.

Nesta terça, os convidados são a violonista, cantora e compositora Anna Paes e o cantor, músico e compositor Thiago Amud. No dia 21, a cantora Paula Santoro e a musicista estadunidense Natalie Cressman dividem a noite com o anfitrião.

Anna Paes é uma presença constante na trajetória artística de Guinga desde 2013, quando começou a participar como intérprete em seus shows em cidades do Brasil, Espanha, França e Estados Unidos. A parceria se aprofundou a partir de 2018, quando ambos iniciaram uma colaboração como compositores, gerando canções como "Mello Baloeiro", "Nobreza da Maré" e "A Quatro Mãos". Em 2022, Anna Paes lançou o álbum "Você Você - Anna Paes Canta Guinga", resultado de quase dez anos de convivência musical.

A criatividade composicional de Guinga não apenas aumentou com o tempo — ela se aprofundou. Cada faixa do EP demonstra um compositor que não se contenta em criar belas frases musicais, mas em fazê-las soar como nunca se ouviu igual. "Catonho" confirma o estado de evolução permanente de um dos compositores mais instigantes de nossa canção popular.

SERVIÇO

GUINGA — CATONHO

Teatro Ipanema Rubens Corrêa (Rua Prudente de Morais, 824)

7 e 21/7, às 20h

Ingressos: R$ 100 e R$ 50 (meia)