Correio da Manhã
Teatro

O que o tempo tira de nós?

'Corpos em Expurgo', com texto e direção de Klever Schneider, reflete sobre as marcas que o tempo deixam nos corpos, memórias e relações humanas

O que o tempo tira de nós?

Oque o tempo tirado de nossas vidas? A pergunta, que caberia numa conversa entre amigos num fim de tarde, é o ponto de partida do espetáculo "Corpos em Expurgo", nova montagem da Companhia Fragmentos do Baú que estreia nesta sexta (3) no Espaço Rogério Cardoso, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. Com dramaturgia e direção de Klever Schneider, o espetáculo investiga as marcas que o tempo — e a velocidade da vida contemporânea — deixam no corpo, na memória e nas relações afetivas.

Em cena, Camilo Ricardo, Ducco Baggio, Henrique Lott e Tchella Queiroz conduzem o público por três histórias independentes, unidas pela mesma inquietação: a forma como o tempo transforma — ou deforma — a existência. Na primeira, intitulada "Hiato", um homem se dá conta de que a correria cotidiana o afastou da capacidade mais elementar de respirar e reparar no que está à sua volta. O personagem vive imerso na velocidade, até perceber que perdeu o contato com o banal — com aquilo que, justamente por ser banal, sustenta a vida.

Na segunda cena, "Biotério", a perspectiva muda de figura: um homem-rato vive submetido a regras e estímulos que o transformam gradualmente numa criatura incapaz de distinguir instinto de identidade. Como uma cobaia num experimento sem fim, o personagem questiona onde termina a submissão e começa a escolha — e se ainda existe escolha.

Na terceira e última, "Infiltração", uma mulher atravessa uma porta e se vê diante de lembranças da infância que julgava enterradas, mas que insistem em ocupar o presente. A memória, aqui, não é refúgio: é território a ser revirado.

As três cenas propõem um jogo de olhares entre palco e plateia: quem observa quem? Entre um quadro e outro, vozes gravadas de pessoas reais respondem à pergunta-título — "O que o tempo tem tirado de você?" — num mosaico sonoro que amplifica a dimensão coletiva da experiência. O público também é convidado a responder à mesma pergunta ao chegar ao teatro, num registro que alimenta a dramaturgia viva do espetáculo.

"O que é expressado todos sabemos, mas ao expurgar e purificar, tornamos ainda mais visível o que insiste ficar adormecido ou escondido." A montagem aposta numa atmosfera que mescla suspense e mistério, com estética que evoca um cenário pós-apocalíptico — sem perder de vista a delicadeza das questões que levanta. Ao longo dos três quadros, o espetáculo borda temas como a falta de tempo, o excesso de cobranças, as opressões invisíveis do cotidiano e as memórias que carregamos sem perceber. São situações distintas, facilmente reconhecíveis por qualquer pessoa: ao acompanhar os personagens, a plateia é levada a revisitar experiências próprias, encontrando paralelos entre o que acontece em cena e diferentes momentos de suas vidas.

"Corpos em Expurgo" dialoga com o debate corrente sobre saúde mental, ritmo de trabalho e a sensação generalizada de esgotamento, temas recorrentes em conversas cotidianas e que chegou às pesquisas acadêmicas. Ao transpor essas questões para o palco numa linguagem sensorial e poética, a peça oferece um respiro — um convite à pausa, à escuta e à respiração. Em comum, a constatação de que, apesar de tudo, alguma coisa insiste em resistir — e que talvez seja justamente isso que valha a pena levar para o palco.

SERVIÇO

CORPOS EM EXPURGO

Espaço Rogério Cardoso — Casa de Cultura Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176, Ipanema)

De 3 a 26/7, sextas e sábados (19h) e domingos (18h)

Ingressos: R$ 50 e R$ 25 (meia)