Apandemia passou, mas deixou sequelas tanto na saúde quanto no comportamento humano. O isolamento nos afastou do convívio social. O que acontece com quem desaprendeu a estar com outras pessoas, quando desaprendemos a estar com outras pessoas? Essa pergunta incômoda é o ponto de partida de "Apocalip-se", que estreia nesta quinta-feira (2) no Teatro Poeira.
Concebido como um musical, o texto de Julia Spadaccini e Marcia Brasil é uma reflexão bem-humorada (e também pemmelancólica) sobre solidão, tecnologia e saúde mental, temas que ganharam relevância depois da pandemia.
No centro dessa narrativa temos um homem solitário, vivido por Jorge Caetano que desde a pandemia permanece isolado em casa, relacionando-se apenas com a tela do celular e com uma assistente virtual, interpretada por Nina da Costa Reis. Incapaz de estabelecer vínculos reais, encontra na música a única possibilidade de comunicação genuína com o mundo e consigo mesmo. Aos poucos, a Inteligência Artificial deixa de ser apenas ferramenta e passa a ocupar o lugar de confidente, terapeuta e única testemunha da existência do protagonista.
O título do espetáculo inventa um novo verbo: "apocalipsar", termo que define o processo de atravessar o fim de um mundo conhecido, elaborando as marcas emocionais deixadas pelo isolamento e pela transformação das relações humanas. "'Apocalip-se' é um monólogo profundamente humano sobre um homem que desaprendeu a estar com as pessoas. A pandemia terminou, mas ele permaneceu isolado. A peça pergunta até que ponto a tecnologia aproxima ou apenas cria a ilusão do encontro", resume Jorge Caetano, que também divide a direção com Alexandre Mello.
A dramaturgia nasceu durante o período mais crítico da pandemia e amadureceu ao longo dos últimos anos. "A IA acaba ocupando o lugar do outro. Ela parece substituir aquilo que é insubstituível: a presença imprevisível de uma pessoa. Como ferramenta, ela é extraordinária, mas é impossível não projetarmos nela algo mágico, humano. Quando isso acontece, nossa capacidade de encontro não se amplia. A ilusão do encontro talvez seja sua maior armadilha", afirma Julia Spadaccini.
"Começamos a escrever a peça assombradas pelo 'fim' do teatro, no auge da pandemia. Depois percebemos que a solidão daquele personagem era também a nossa. Hoje, entendemos que aquela experiência coletiva de afastamento abriu espaço para um enfraquecimento dos vínculos e para a fantasia de que companhias artificiais poderiam preencher esse vazio", destaca Marcia Brasil.
Embora seja estruturado como um monólogo, "Apocalip-se" transforma a música em um segundo narrador da história. São seis canções inéditas, compostas por Felipe Storino e Jorge Caetano, que revelam aquilo que o personagem já não consegue expressar pela fala. Dialogando com a intensidade do rock e da MPB das décadas de 1960 e 1970, as músicas funcionam como o verdadeiro fluxo de consciência do protagonista. Em cena, além de Caetano e Nina, estão os músicos Felipe Storino (guitarra e direção musical), Paula Otero (violoncelo), Maurício Chiari (bateria e direção musical) e Rafael Oliveira (guitarra).
A encenação aposta em linguagem multimídia, com projeções audiovisuais desenvolvidas por Letícia Pantoja. O cenário transforma o palco em um ambiente povoado por telas e dispositivos tecnológicos, enquanto a iluminação reforça o contraste entre o universo digital e a experiência humana.
Para o diretor Alexandre Mello, que dirige pela sexta vez um texto de Julia Spadaccini, "Apocalip-se" discute uma das questões mais urgentes do mundo de hoje. "O texto investiga como a tecnologia construiu enormes pontes de comunicação que, paradoxalmente, acabaram nos afastando do encontro físico e da convivência real. O personagem acredita que pode substituir o outro por uma máquina, mas nós só existimos plenamente nas relações humanas. É dessa tensão entre humor, solidão e desejo de reencontro que nasce a força da peça", comenta o encenador.
SERVIÇO
APOCALIP-SE
Teatro Poeira (Rua São João Batista, 98, Botafogo)
De 2/7 a 30/8, de quinta a sábado (20h) e domingos (19h) | Ingressos: R$ 120 e R$ 60 (meia)
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