Música

A bossa é sempre nova!

Universal Music lança álbum em que seis DJs revisitam o repertório de um dos pais do gênero às vésperas de seus 90 anos

A bossa é sempre nova!

Affonso Nunes

AUniversal Music Brasil acaba de Lançar "Pure Bossa Remixes - Roberto Menescal", álbum que antecipa as comemorações dos 90 anos do cofundador da bossa nova, a serem celebrados em 25 de novembro de 2027. São seis faixas assinadas por seis DJs — DJ Marlboro, Gui Boratto, Tata Ogan, Diogo Strausz, DJ Spinna e Nicola Conte — que atravessam o repertório do músico com house, soul, funk, afro house e drum'n'bass, sem perder de vista as eternas melodias de Menescal.

A produção executiva é da cantora Patty Ascher, pupila de Menescal, e do A&R, DJ e produtor Béco Dranoff, que idealizaram o projeto e viram a proposta acolhida de imediato pela gravadora.

Aos 88 anos, Menescal tem uma agenda de shows, gravações e produções que não dá trégua. Capixaba de Vitória, criado no Rio, foi um dos organizadores dos primeiros shows de bossa nova no Grupo Universitário Hebraico e tocou no Carnegie Hall em 1962, ao lado de Tom Jobim, Carlos Lyra e João Gilberto.

Sua mais famosa composição, "O Barquinho", parceria com Ronaldo Bôscoli, nasceu em 1961 do barulho de um motor de barco avariado no mar de Cabo Frio — a bateria havia acabado, e o som da manivela virou melodia. Gravada no ano seguinte por Maysa, Pery Ribeiro e Paulinho Nogueira, a canção tornou-se um dos hinos do gênero. Com Bôscoli, seu parceiro mais constante, somou perto de duas centenas de composições, entre elas "Você", "Nós e o Mar" e "Bye, bye Brasil" — três delas revisitadas neste álbum.

Há outro Menescal, menos visível ao grande público: o produtor. Foi ele quem assinou discos de Elis Regina, Nara Leão, Chico Buarque, Maysa, MPB4 e Maria Bethânia, e quem subiu ao palco do Midem, em Cannes, ao lado de Elis, em 1968. A Academia do Grammy Latino lhe entregou o Prêmio à Excelência Musical, e ele calcula em cerca de mil as músicas compostas em mais de seis décadas de ofício. Também foi professor: com Carlos Lyra, abriu uma academia de violão que formou gerações de alunos — e o hábito de ensinar e trocar com os mais jovens tornou-se uma de suas marcas.

É justamente esse diálogo com as novas gerações que o álbum conseguiu captar. "Eu estou sem palavras com esse projeto. A criatividade das releituras e a elegância do conceito me pegaram de surpresa", derrete-se Menescal, que segue gravando, produzindo e fazendo shows pelo mundo.

"Menescal ajudou a dar à música brasileira uma identidade que o mundo reconhece e admira. Mesmo com uma trajetória tão marcante, nunca perdeu a curiosidade pelo novo nem a vontade de trocar com outras gerações", comenta Paulo Lima, presidente da Universal Music Brasil. "Este projeto nasce desse espírito: celebra um repertório essencial da nossa música e abre caminhos para novas interpretações, mostrando como sua obra segue viva e continua inspirando artistas, produtores e DJs ao redor do mundo", completa.

"Abrir seu universo musical para diferentes gerações de DJs, criando um projeto que conecta a delicadeza da bossa nova com os beats, texturas e possibilidades sonoras da música contemporânea é sensacional. A bossa é sempre nova!", anima-se Branof. "O resultado é um álbum que não apenas revisita o legado da bossa nova, mas reimagina sua linguagem mais contemporânea do que nunca", destava Patty Ascher.

O elenco medeia a distância entre a Zona Sul dos anos 1960 e a pista de dança de agora. DJ Marlboro, pioneiro e figura fundamental do funk carioca, costura a bossa com o ritmo que também nasceu nas ladeiras do Rio e ganhou o mundo. Gui Boratto, um dos brasileiros de maior reconhecimento internacional na eletrônica, remixou "Você" num clima anos 80 e chamou Mariana de Moraes, neta de Vinicius de Moraes, para o vocal. Tata Ogan aproxima as referências culturais brasileiras da linguagem eletrônica em "Nós e o Mar"; Diogo Strausz transforma "Balansamba" numa experiência eletrônica atual; DJ Spinna, que transita entre hip-hop, house, soul e jazz, assina o remix de "Rio"; e Nicola Conte, o italiano ligado ao acid jazz, reescreve "A Morte de um Deus de Sal" num afro bossa rework que reencontra a bossa no território sonoro quwe mais a inspirou: o jazz.

Mase esta não é a primeira vez que a obra de Menescal passa pela eletrônica — nem a primeira em que ele mesmo puxa o movimento. No fim dos anos 1990, três jovens produtores — Alex Moreira, Marcelinho Da Lua e Márcio Menescal, seu filho — passavam os intervalos de trabalho no estúdio do mestre "envenenando" bossa nova e afro-sambas com batidas eletrônicas. Do convívio nasceu o Bossacucanova, que estreou em 1999 com "Revisited Classics", disco de remixes de clássicos do gênero, e alcançou o auge dois anos depois com "Brasilidade", no qual convidou Roberto Menescal como parceiro.

O álbum rendeu ao grupo uma indicação ao Grammy Latino de 2002, na categoria Melhor Álbum Pop Contemporâneo Brasileiro — e o veterano subiu ao palco da cerimônia, em Los Angeles, ao lado do trio. A parceria seguiu: em 2019 assinaram juntos "Bossa Got The Blues".

Em 2027, quando fizer 90, Menescal terá visto sua obra passar por sambistas, jazzistas, orquestras e agora DJs de três continentes, comprovando o alcance universal deste que o maior cartão de visitas da múica brasileira mundo afora. A bossa é sempre nova!