Em 1975, Elton John parecia incapaz de errar comercialmente. "Rock of the Westies", seu décimo álbum de estúdio, chegou em outubro daquele ano como registro de uma mudança em andamento: o cantor acelerava o som, montava uma nova banda e já era cobrado por uma crítica que enxergava fórmula onde o público via exuberância. Cinquenta anos depois, a reedição devolve esse momento à escuta.
Prevista para 20 de novembro pela UMR, a edição comemorativa reúne o disco original e, nas versões expandidas, nove gravações inéditas reduzidas a Elton John e seu piano, feitas nas sessões de 1975. Sem as duas guitarras, baixo, bateria e percussão, elas expõem a arquitetura das canções escritas com Bernie Taupin. Na versão de "Street Kids" já divulgada como single sobressai o piano insistente e a dimensão áspera da interpretação vocal.
O álbum nasceu em circunstâncias pouco usuais para uma estrela que já operava em escala de estádio. A formação que entrou no Caribou Ranch, no Colorado, para gravá-lo tinha apenas 33 dias de estrada conjunta. Ao lado de Davey Johnstone, parceiro de longa data nas guitarras, chegaram Caleb Quaye, também guitarrista; James Newton Howard, nos teclados; Kenny Passarelli, no baixo; e Roger Pope, na bateria. Ray Cooper manteve-se na percussão. Pouco antes das sessões, esse grupo havia ensaiado em Amsterdã e tocado para 72 mil pessoas no Wembley Stadium, em Londres.
A troca de pulso molda o álbum. Depois de obras expansivas como "Goodbye Yellow Brick Road" e do tom autobiográfico de "Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy", lançado apenas cinco meses antes, Elton acelera. "Rock of the Westies" privilegia bateria mais pesada, baixo de recorte funk, guitarras em dobro e um piano menos dado à solenidade. No repertório, "Grow Some Funk of Your Own", "Street Kids" e o medley de abertura fazem a banda soar como uma máquina em turnê; "I Feel Like a Bullet (In the Gun of Robert Ford)" preserva, em contraste, a vocação de Elton para a balada dramática.
O próprio artista hoje define o trabalho como "o mais genuíno disco de rock and roll" que fez. O trabalho é umonto fora da curva numa discografia lembrada pelos grandes arranjos pop e pelas baladas. Em vez da suíte de estúdio, a energia pulsante e o tesão de uma banda recém-montada. Ray Cooper resumiu a mudança em novos riffs, baixo mais funk e bateria mais pesada.
O resultado foi um êxito de mercado. "Rock of the Westies" estreou no topo da Billboard 200 — repetindo o feito inédito de "Captain Fantastic" poucos meses antes — e ficou três semanas na liderança.
Na página oficial de Elton John, é identificado como seu sétimo álbum consecutivo em primeiro lugar nos Estados Unidos. "Island Girl", de marimbas e balanço caribenho, passou três semanas no nº 1 da Billboard Hot 100; o álbum recebeu platina nos EUA e ouro no Reino Unido. Na Grã-Bretanha, alcançou o Top 5.
Naquele 1975 era como se Elton operasse em escala indutrial. E era isso mesmo: lançou dois álbuns, conduziu espetáculos no Wembley e no Dodger Stadium e manteve uma presença radiofônica rara. A reedição revisita, assim, um instante em que a escala do artista parecia tão grande quanto sua produtividade.
A recepção crítica inicial foi bem menos unânime que as vendas. Em resenha de 1975 na "Rolling Stone", Stephen Holden avaliou que a nova banda alterava a superfície do som, sem mudar profundamente as canções. Décadas depois, o álbum ainda divide leituras: há quem o veja como o último grande arranco roqueiro da fase setentista; outros o situam abaixo dos títulos que consolidaram o artista no Olimpo da música. E isso torna o álbum taõ interessante: a ousadia de um artista consagrado em testar novas linguagens musicais.
As novas faixas de voz e piano da edição comemorativa permitem ao publico ouvir o que havia antes da engrenagem sonora ser montada: melodias, acentos rítmicos e um pianista em pleno domínio técnico.
Aos 50 anos, "Rock of the Westies" é a fotografia de uma transição. É o som de Elton John no auge, disposto a se divertir — e a se arriscar.
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