Música

Quem ouve MPB conhece esse piano

Cristovão Bastos se aproxima dos 80 anos como pianista lendário da música popular

Quem ouve MPB conhece esse piano
Como músico forjado na noite, Cristóvão Bastos tornou-se fluente em vários estilos Crédito: Divulgação

A entrada da boate La Cumparsita, em Cascadura, na zona norte carioca, era discreta. Muitos pais de família frequentavam o "inferninho", como se dizia nos anos 1960, mas não queriam ser vistos no local, proibido para menores de 21 anos. O sanfoneiro do grupo musical da boate nem poderia estar lá - tinha apenas 17. Num dia em que o pianista faltou, o adolescente pediu para trocar a sanfona pelo teclado.

Começava assim, por acaso e na clandestinidade, a carreira de uma lenda da música popular brasileira.

O aniversário de 80 anos de Cristovão Bastos será no próximo dia 3 de dezembro. O carioca de Marechal Hermes, que desenvolveu uma linguagem própria e inconfundível ao piano, irá celebrar com apresentações em Portugal, na França e no Brasil.

Quase todos os shows serão em parceria com a cantora Ilana Volcov, brasileira radicada em Lisboa, com quem Bastos lançou, em março do ano passado, o premiado álbum "Acariciando". Nos dias 25 e 26 de novembro, o pianista será homenageado na Casa do Choro, no Rio.

É impossível alguém que acompanha a MPB nunca ter ouvido o piano de Cristovão Bastos. O músico contabiliza mais de 500 participações em álbuns de artistas como Gal Costa, Elza Soares, Alaíde Costa, Ângela Maria, Fafá de Belém, Edu Lobo, Chico Buarque, Paulinho da Viola e vários outros intérpretes.

Também assina mais de uma centena de composições com diversos parceiros, sendo os mais constantes Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro. Algumas delas se tornaram clássicos da música brasileira, como "Resposta ao Tempo", com Blanc, sucesso de Nana Caymmi, e "Todo Sentimento", com Chico.

Bastos forjou seu estilo ao incorporar - e depois desconstruir - diversas influências. Como músico de boate, tornou-se fluente em vários ritmos, entre eles o baião, que conhecia dos tempos em que tocava sanfona. Sua principal influência no gênero era Zé Gonzaga, irmão de Luiz Gonzaga e autor de sucessos como "Pisa na Fulô". Juntou à mistura o samba, o choro, o bolero, o beguine e os demais ritmos das gafieiras. Com o tempo, diluiu e amalgamou esses estilos à sua maneira própria.

"Para aprender piano rapidamente, corri atrás de partituras", diz Bastos, relembrando o que teve de fazer quando se voluntariou para tocar o instrumento na boate. "Comecei com uma sonata de Mozart e cheguei ao 'Clair de Lune' de Debussy. Meu professor na ocasião, Alexandre Gnatalli, irmão do maestro Radamés Gnatalli, elogiou minha maneira de tocar, mas hoje sei que ele estava sendo gentil. Minha interpretação do 'Clair de Lune' era muito ruim".

Mas foi dedilhando as partituras do impressionista Claude Debussy, de outros mestres da música erudita e do jazz que Bastos aprendeu a dispor acordes num arranjo como um pintor espalha cores numa tela.

"Ele não se preocupa em tocar os ritmos de maneira convencional, de forma a que os ouvintes reconheçam", diz a cantora Ilana Volcov. "Em vez disso, cria atmosferas, transmitindo de forma sensível e precisa a emoção de cada música."

Por causa dessa habilidade, Bastos se tornou, ao longo da carreira, um dos pianistas mais requisitados para acompanhar cantores e tocar em rodas de choro. "Eu tenho cabeça de arranjador", afirma Bastos. "Existem pianistas que, quando tocam em grupos, ouvem apenas a si próprios. Eu gosto de ouvir os outros músicos e cantores, pensando onde eu posso encaixar o meu piano. Meu trabalho é procurar espaços".

Bastos se tornou conhecido no meio musical nos anos 1970, quando tocava na boate Flag, em Copacabana. A casa noturna recebia frequentemente artistas como Nara Leão, Tom Jobim e Paulinho da Viola. Foi com o sambista portelense que Bastos estabeleceu uma de suas colaborações mais celebradas.

"Eu era o pianista da casa quando ele foi ensaiar lá. A gente começou a passar as músicas e deu liga, sabe?", diz Bastos. "Rolou uma amizade boa, tanto que depois ele foi padrinho do meu primeiro filho".

Bastos é autor de quatro choros em parceria com Paulinho da Viola. No primeiro deles, "Meu Tempo de Garoto", Bastos compôs a primeira parte, cheia de harmonias dissonantes e sofisticadas, e Paulinho respondeu na segunda com igual dose de inventividade.

"Quando toco essa música, digo que é 25% da minha obra em parceria com ele", diz Bastos. "Da mesma forma que, quando toco 'Todo Sentimento', brinco que é metade de minha obra em parceria com Chico Buarque". Os dois músicos são autores também de "Tua Cantiga".

"Todo Sentimento" entrou para o repertório de vários cantores, entre eles Elizeth Cardoso, Ney Matogrosso, Verônica Sabino e o próprio Chico. "Fiz essa música no violão, na casa de uma namorada; eu estava apaixonado", lembra Bastos. "A Miúcha ouviu e comentou com Chico que ele poderia fazer a letra. Chico estava gravando o álbum 'Francisco'. Mandei a música numa fita cassete e, uma semana depois, ele veio com a letra, cheia de sons em 'PR': 'preciso', 'prefiro', 'procuro. Arrasou", lembra.

Bastos se emociona quando diz que participou da última gravação de Nana Caymmi, uma recriação do clássico "A Lua e Eu", de Cassiano e Paulo Zdanovski, ao lado do cantor Renato Braz.

Essa interpretação dá a exata medida de como Cristovão Bastos reinventou seu ofício: uma profusão de atmosferas ao piano transmite, de forma sutil, a emoção da música, num diálogo tocante com a voz quase sussurrada da cantora. Uma obra-prima concentrada em pouco mais de dois minutos e meio.