Affonso Nunes
Depois de abrir a Cidade do Rock com quatro dias de guitarras, pista, pop e o retorno retumbate de Elton John, o Rock in Rio entra em sua reta final emitiando outras vibraçõescom outro tipo de equilíbrio. De sexta-feira (11) a domingo (13), o Palco Mundo passa pelo K-pop, pela música eletrônica, pelo pop de rádio e por doses de rock alternativo. Já o Sunset, mais uma vez, promove encontros que há alguns anos vêm oferecendo uma nova face do festival. É nele que o Jamiroquai divide a noite com PJ Morton e artistas brasileiros de gerações distintas, que Mumford & Sons encontra João Gomes acompanhado por orquestra e que Marina Sena, Céu, Joelma e Viviane Batidão desenham uma noite de pop com jeitão brasileiro.
Na sexta, a estreia do K-pop no Palco Mundo será conduzida por Stray Kids. Formado por Bang Chan, Lee Know, Changbin, Hyunjin, Han, Felix, Seungmin e I.N, o grupo chega ao Rio apoiado numa base de fãs que transformou a espera pela apresentação em acontecimento próprio. O octeto acumulou mais de 30 milhões de álbuns vendidos, tornando-se o grupo com mais discos no topo da Billboard 200 neste século. Os números descrevem apenas parte deste fenômeno global. No palco, o Stray Kids combina rap, melodias pop, produção eletrônica e coreografias rigorosas, numa linguagem em que canção, dança, vídeo e comunidade de fãs funcionam como uma peça só. "God's Menu", "Thunderous", "Miroh" e "My Pace", peças de um repertório que jpa funciona em grandes arenas agora testado na escala aberta da Cidade do Rock.
Antes deles, a noite traz NEXZ e Hwasa. A presença dos dois reforça que o recorte não se limita a uma atração isolada, mas tenta apresentar ao público brasileiro partes diferentes de uma indústria musical que tem na performance um de seus elementos centrais. Entre os shows, Alok ocupa o Palco Mundo com "Keep Art Human", projeto que usa o próprio espetáculo como defesa da criatividade humana num momento de expansão das ferramentas de inteligência artificial. A produção anunciada prevê 1.500 drones no céu da Cidade do Rock — número que a organização apresenta como recorde em um show na América Latina — e um painel coreografado por 45 bailarinos - um show tecnológico e visual.
O Sunset de sexta constrói uma resposta menos monumental e mais musical. Jamiroquai, banda identificada com o acid jazz e o funk moderno, chega com o repertório que fez do carismático vocalista Jay Kay uma figura globalmente conhecida desde os anos 1990. "Virtual Insanity", "Cosmic Girl" e "Space Cowboy" permanecem como portas de entrada para um grupo cheio de groove que transita talentosamente pelo funk setentista, soul, R&B, disco, pop e eletrônica com arranjos pensados para dançar.
PJ Morton, cantor, compositor e integrante do Maroon 5, acrescenta outra vertente do soul contemporâneo. Antes, Os Garotin recebem Duquesa, e Jota.Pê chama Luedji Luna e Zaynara. A sequência permite que o R&B, o rap, a canção e referências amazônicas circulem no mesmo palco.
O sábado (12) é, provavelmente, o dia de maior amplitude comercial do segundo bloco. Pedro Sampaio abre o Palco Mundo antes de J Balvin, Demi Lovato e Maroon 5. A sequência é quase uma história recente do pop de grande público: o brasileiro que transformou funk em linguagem de arena, o colombiano que levou o reggaeton a uma escala global, a cantora americana que atravessou pop, rock e televisão desde a adolescência e, no fechamento, a banda de Adam Levine. O Maroon 5 chega com mais de duas décadas de repertório e hits como "This Love", "She Will Be Loved", "Moves Like Jagger" e "Sugar". Sua trajetória é marcada justamente pela elasticidade: começou com base pop-rock e incorporou R&B, produção eletrônica e colaborações que o mantiveram nas paradas mesmo quando o desenho do rádio mudou. É uma banda que acumula disversas passagens pelo Brasil e pelo Rock in Rio em particular - são quatro apresentações nas edições de 2011, 2017 e 2022.
O Palco Sunset do sábado oferece um contraponto mais orgânico. Mumford & Sons, formado em 2007, mistura folk e rock com banjo, violões e refrões que crescem até virarem coro coletivo. "Little Lion Man", "The Cave" e "I Will Wait" explicam parte de seu alcance, mas o interesse do show está no modo como a banda transforma instrumentos acústicos em energia de estádio. João Gomes & Orquestra Brasileira ocupa o mesmo palco com outra origem sonora: o piseiro e a sofrência romântica do cantor pernambucano encontram uma formação orquestral, em arranjo que amplia sem apagar a cadência de canções como "Meu Pedaço de Pecado", "Dengo", "Se For Amor" e "Aquelas Coisas". A imagem é sugestiva: a vaquejada anunciada pela organização não chega como cenário folclórico, mas como linguagem popular posta em diálogo com uma estrutura sinfônica.
Também no Sunset, Gilsons convidam Daniela Mercury e Olodum, numa noite de baianidade na veia, enquanto Criolo, Amaro Freitas e Dino D'Santiago formam outro encontro de grande densidade. Criolo, entre rap, samba e canção; Amaro, pianista que trata o jazz como campo de invenção; e Dino, voz portuguesa ligada a ritmos cabo-verdianos, R&B e pop.
O domingo (13) fecha a edição com um Palco Mundo desenhado como sequência de hits. Ivete Sangalo abre a programação, seguida por Lola Young e Halsey, antes do Twenty One Pilots. Ivete não precisa de apresentação para o público de festival: sua experiência de multidão, construída entre Carnaval, televisão e grandes palcos, cria uma abertura com energia própria. Lola Young chega com a projeção recente de uma artista que se move entre pop, soul e uma escrita de tom confessional. Halsey traz uma obra que, desde "Badlands", alterna pop, rock, eletrônico e experimental. O álbum de estreia, lançado em 2015, estabeleceu um universo distópico e pessoal; dez anos depois, a apresentação no Rio coincide com a memória dessa virada e com a fase de "The Great Impersonator"*, trabalho mais recente da cantora.
O Twenty One Pilots fecha a noite apoiado numa relação intensa entre música e universo narrativo. Tyler Joseph e Josh Dun misturam rap alternativo, pop e rock experimental, mas a força do duo não está somente em "Stressed Out", "Heathens" e "Ride". Ao longo dos discos e videoclipes, a banda construiu uma mitologia que organiza ansiedade, identidade e conflito interno em imagens recorrentes. Essa dimensão teatral ajuda a entender por que seus shows têm tanta importância para os fãs: a apresentação funciona como capítulo de uma história que o público acompanha há anos. Para um festival acostumado a medir seus encerramentos pelo tamanho dos refrões, o Twenty One Pilots leva uma forma de espetáculo cuja escala também é emocional e visual.
O Sunset encerra a edição com Zara Larsson, Marina Sena convidando Céu, Joelma convidando Viviane Batidão e Carol Biazin convidando Joyce Alane. A programação é uma espécie de mapa de pop feminino. Zara traz o repertório de alcance internacional; Marina e Céu aproximam duas gerações de artistas que cruzam MPB, reggae, axé, dancehall, trip-hop, soul e eletrônica; Joelma e Viviane ligam a música popular de massa do Norte a uma forte presença cênica; Carol Biazin e Joyce Alane acrescentam vozes mais novas da canção pop.
No último percurso possível, o New Dance Order tem John Summit, Roddy Lima, Illusionize e Dawn Patrol — formado por Maz, Antdot, Riascode e Bakka. Dennis, Suel e Marvvila estão no Espaço Favela; Lucy Alves, Haley Smalls e Kynnie se apresentam no Global Village. Quando a Cidade do Rock fechar, às 3h, terá passado por três dias de sonoridades diversas e encontros únicos, daqueles que merecerão ser lembrados por anos a fio.
SERVIÇO
ROCK IN RIO 2026
Cidade do Rock (Parque Olímpico, Barra da Tijuca)
11 a 13/9, a partir das 14H (abertura dos portões)
Ingressos: R$ 870 e R$ 435 (meia)
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