Música

Morre Tomás Improta, aos 77

Talento da música instrumental, pinaista tocou com grandes nomes da MPB e lançou dez discos. Se fez conhecido por integrar A Outra Banda da Terra, que acompanhava Caetano Veloso

Morre Tomás Improta, aos 77
Filho de um casal de pianistas, Tomás tornou-se um dos mais inventivos instrumentistas Crédito: Reprodução Facebook

Aos cinco anos, sem nunca ter tocado uma lição formal, Tomás Improta França sentou ao piano e venceu o Concurso de Iniciação Musical do Conservatório Brasileiro de Música. Era o primeiro sinal de uma musicalidade latente herdada do pai, o pianista e crítico Eurico Nogueira França, e da mãe, a pianista erudita Ivy Improta. Nascido no Rio em 24 de setembro de 1948, Tomás completaria 78 anos no próximo mês. Morreu neste domingo (23), aos 77, depois de enfrentar um câncer na garganta.

Tomás cresceu entre partituras e discos. Na década de 1960, a sofisticação harmônica do jazz e a bossa seduziram o rapaz que ainda era pianista amador. Formou-se com professores do calibre de Francisco Mignone e Marlos Nobre, em composição, e Tenório Junior, no piano popular. A partir de 1970, acompanhou em palcos e estúdios uma lista que parece um índice da MPB: Gal Costa, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan, Zezé Motta, Nara Leão, Baden Powell, Elizeth Cardoso, Elba Ramalho...

Foi com Caetano Veloso, porém, que a parceria foi mais intensa. No fim de 1977, Caetano montou A Outra Banda da Terra — com Tomás nos teclados, Arnaldo Brandão no baixo e Vinicius Cantuária na bateria. Esta formação esteve por trás de discos fundamentais da obra caetânica como "Muito" (1978), "Cinema Transcendental" (1979), "Outras Palavras" (1981), "Cores, Nomes" (1982) e "Uns" (1983). O piano de Tomás ali era algo difícil de nomear — solto, errante, mas perfeitamente costurado às canções. "Seu piano totalmente solto mas misteriosamente ligado com o que me vinha à cabeça em cada momento de show, no tempo da Outra Banda da Terra, era a música em seu brilho espontâneo", disse caetano em suas redes ao comentar a perda do amigo.

Em 1980, o Jornal da Música o apontou como o melhor tecladista do país. Seu grupo instrumental Mandengo figurou entre os melhores do ano. Tocou no prestigiado Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, por duas vezes, assinou a trilha premiada do filme "Bar Esperança" e participou dos shows "Doces Bárbaros" e "Bahia de Todos os Sambas", este realizado em Roma.

Mas havia em Tomás um impulso pedagógico tão forte quanto o musical. Em 1986, fundou no bairro de Botafogo a Escola de Música Cenário, por onde passaram gerações de alunos. Escreveu mais de dez livros didáticos, entre eles o "Curso de Harmonia Popular" (1998) e "Aprendendo a ler música", pela Irmãos Vitale. Manteve coluna mensal na revista BackStage e produziu programas de jazz para as rádios MEC e Roquete Pinto.

Nos anos 1990, voltou-se quase integralmente para a carreira solo. A discografia instrumental que construiu é das mais refinadas do gênero no Brasil: "Tear" (1992); "Bartok Jazz" (1995), com releituras jazzísiticas da obra do compositor russo; "Certas Mulheres" (1998); "Dorival" (2003) — em que recriou Caymmi com sua classe —; o disco em duo com a flautista Andrea Ernest Dias (2008); "A volta de Alice" (2015), com Raul de Souza e Marcelo Martins; e "Olha pro Céu" (2017), seu décimo e derradeiro trabalho solo.

Nas redes, instrumentistas como Kiko Continentino e Dirceu Leite e muitos prestaram homenagens. "Músico da maior importância para a música brasileira", definiu Dirceu.