O vocoder não costuma frequentar o fado. Tampouco o cristal baschet ou as ondes martenot — instrumentos que parecem ter escapado de um laboratório eletrônico. Mas é esse o território sonoro que Carminho adotou em "Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir" (Sony Music), sétimo álbum de sua carreira, gravado em Lisboa e lançado em outubro passado. Nesta sexta (21), a fadista chega ao Vivo Rio com a turnê do disco, num espetáculo de cenografia inédita que apresenta ao público brasileiro sua obra mais arrojada.
De oito das onze faixas, ela é autora. O repertório mergulha em poemas ambíguos e sentimentos plurais para expandir o fado sem romper com suas raízes. "Busquei em poemas mais ambíguos e em sentimentos mais plurais o meu interesse na interpretação", afirma. A poeta Ana Hatherly (1929-2015) inspira "Balada do país que dói", na qual guitarra portuguesa, mellotron e vocoder — operado pela própria Carminho — costuram tradição e experiência sonora. Em "Saber", Laurie Anderson sussurra versos em inglês sobre a poesia de Hatherly, criando um contraponto entre duas vozes e dois idiomas. "Sofrendo da alma", sobre versos de Amália Rodrigues, ancora o disco na matriz do gênero. E "Canção à ausente", de Pedro Homem de Mello, canta a espera e a ausência amorosa.
"Não é uma necessidade de mudança, nem uma pretensão de mudar o fado", revela a cantora. "Procuro algo que eu goste de ouvir e que continue a fazer sentido para mim, dentro do gênero musical que é o meu. Existe essa adrenalina de procurar os limites da linguagem", completa.
Como registramos aqui no Correio quando o álbum saiu, o título nasceu de um poema de Antônio Campos Monteiro, encontrado entre manuscritos que Carminho recebeu de Beatriz da Conceição. "Esse poema traz a ambiguidade que eu procurava e a vertigem que me encantou nesta ideia de que se morre muito de amor no fado, mas há sempre a hipótese de resistir", disse então. "Eu sou várias vozes, várias interrogações. É importante que não haja uma só verdade dentro de nós." O disco surge na continuidade de "Portuguesa" (2023) e "Maria" (2019), álbuns nos quais, segundo a fadista, surgiram perguntas e a vontade de explorar regiões de sonoridade que o fado tradicional ainda não tinha visitado. Conta ainda com a participação de Mário Laginha.
A presença feminina atravessa o trabalho de ponta a ponta. Carminho reconhece a influência da mãe, Teresa Siqueira, de Beatriz da Conceição, Amália Rodrigues, Wendy Carlos e Annette Peacock — mulheres cujas vozes e trajetórias abriram caminho. "Neste trabalho, fui muito inspirada pela mulher, pela ideia de que a mulher ocupa um lugar central como intérprete, mas que existem muitas narrativas paralelas, mesmo ambíguas, dentro da própria mulher", afirmou ao lançar o disco. "Ao continuar nessa jornada, por si só, a voz feminina já é um ato de resistência."
A ligação com o Brasil permanece intensa. No repertório do show, "Sabiá", de Tom Jobim e Chico Buarque, convive com "Chuva no Mar", dueto com Marisa Monte. A admiração pela nova geração da MPB é declarada: Agnes Nunes, Marina Sena, Ana Frango Elétrico, Dora Morelenbaum, Silva, Tim Bernardes, Jotapê e Zé Ibarra — "Há muita gente fazendo um trabalho muito bonito." Do público brasileiro, diz: "É um público muito carinhoso, fiel, que se expressa imensamente. Uma das maiores alegrias que tenho ao saber que vou tocar no Brasil é me reencontrar com muitos amigos."
SERVIÇO
CARMINHO
Vivo Rio (Av. Infante Dom Henrique, 85 — Parque do Flamengo) | 21/8, às 21h
Ingressos entre R$ 80 a R$ 320
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