Música

'Este disco nasceu da vontade de agradecer'

Volume 1 do novo trabalho reinventa a obra de João Bosco em colaborações com Zeca Pagodinho, Mart'nália, Tiago Iorc, Hamilton de Holanda e César Camargo Mariano

'Este disco nasceu da vontade de agradecer'

Affonso Nunes

João Bosco, todos sabemos, não é só um dos grandes cantores e compitores da música brasileira. É, acima, de tudo um virtuoso do violão, dono de uma das batidas mais inventivas de nossa canção popular. Desde que esse mineiro de Ponte Nova chegou ao Rio de Janeiro no fim dos anos 1960, carregando a herança libanesa do pai, o bandolim familiar e uma harmonia que misturava samba e jazz com muita liberdade, logo tornou-se referência. Agora, ao completar 80 anos, ele volta a escancarar as portas de seu riquíssimo edifício sonoro com um novo álbum.

"Amigos Novos e Antigos" é o nome do disco que chega em duas etapas ao longo de 2026, acompanhado de turnê. A parte 1, com seis faixas, já está nas plataformas digitais. O álbum completo, com 17 faixas, sai em 25 de setembro. Seu título é inspirado em composição feita ao lado do eterno parceiro Aldir Blanc (1946-2020). A parte 1 não traz canções inéditas, mas não cheira a coletânea. É disco de reinvenções, recordações e abraços. O artista olha para trás, mas encara o momento atual com frescor e entusiasmo. "Chegar aos 80 cercado de pessoas que fizeram parte da minha história e de artistas que continuam levando essa música pra frente é um presente. Este disco nasceu da vontade de agradecer. Cada canção é uma conversa, um abraço, um reencontro", resume.

João Bosco de Freitas Mucci cresceu em Ponte Nova, no interior de Minas, num lar de dez irmãos onde música era o ar que se respirava. Bandolim, piano, violino e canto faziam parte do cotidiano familiar. Aos 12 anos, ganhou de uma irmã um violão verde — o primeiro instrumento. A herança libanesa do pai e a matriz mineira se fundiram cedo em uma obra que nunca coube em uma única prateleira. Sua melodia era um samba de construção sofisticada que trazia a liberdade do jazz, sempre com descontração.

A parceria histórica com Aldir teve início nos anos 1970 pelo projeto Disco de Bolso, encartado no jornal O Pasquim por sugestão de Sérgio Ricardo. De um lado do compacto, um artista consagrado, no caso Tom Jobim com "Águas de Março". Do outro, uma revelação, no caso João. A faixa era "Agnus Sei". O próprio Maestro Soberano teceu rasgados elogios ao estreante no encarte do compacto. Foi essa canção que levou Elis Regina a descobrir a dupla João/Adir e gravar, nos anos seguintes, várias parcerias dos dois.

Voltemos ap novo trabalho. A parte 1 do álbum traz encontros cuidadosamente escolhidos por João. Zeca Pagodinho divide o vocal em "Siri Recheado e o Cacete", canção do álbum "Bandalhismo" (1980), escrita com Aldir Blanc, que transforma uma pescaria de siris no Canal da Barra numa crônica hilariante. Mart'nália acompanha João no clássico "Kid Cavaquinho", outro fruto da profícua parceria com Blanc. Tiago Iorc aparece em "Perfeição", composição de João Bosco e do filho Francisco. César Camargo Mariano acrescenta teclados a "Casa de Marimbondo", canção de 1975 que usa a imagem do ninho de marimbondos para ilustrar a força coletiva do samba. O amigo Hamilton de Holanda vem de bandolim em "Nação", assinatura tríplice de João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio.

Na maioria dessas novas versões de velhas canções, Aldir Blanc se faz presente. Parceiro, cúmplice artístico e amigo inseparável, Aldir ocupa um lugar central no projeto. Sua poesia percorre o álbum como presença afetiva constante.

Outra referência desta trabalho é Elis. Pois foi por meio de sua voz que muitas dessas canções ganharam o país. João definiu Elis, em entrevista à Revista Cult, como "uma bússola".

Em vez de coletânea de sucessos, "Amigos Novos e Antigos" propõe um percurso por diferentes momentos da carreira, reunindo canções emblemáticas e outras que revelam facetas menos conhecidas de um compositor cuja ousadia sempre caminhou lado a lado com a popularidade. Em novos arranjos, elas aparecem iluminadas por outras vozes, novas leituras e diferentes gerações de músicos. "Essas músicas nunca foram minhas apenas. Desde que nasceram, passaram a pertencer às pessoas. Agora voltam diferentes, carregando as histórias de quem as cantou, ouviu, gravou e viveu com elas. Acho bonito ver uma canção continuar mudando sem perder sua essência", ensina o músico. E se é assim, João Bosco tem um Brasil inteiro como parceiro, pois quem nunca cantou suas criações?

A turnê comemorativa levará ao palco essa atmosfera de encontro, com shows em Belo Horizonte (6 de agosto), Maceió (12 de setembro), Rio de Janeiro (2 de outubro), São Paulo (9 de outubro), Porto Alegre (15 de outubro) e Curitiba (16 de outubro). Mais do que uma retrospectiva, os espetáculos serão celebração do presente de um artista que continua criando, reinventando o próprio repertório e emocionando plateias no Brasil e no exterior. Aos 80 anos, João Bosco reafirma aquilo que sempre distinguiu sua obra: a capacidade de transformar virtuosismo em emoção, sofisticação em proximidade e amizade em música. "Amigos Novos e Antigos" não é apenas um tributo a uma carreira extraordinária. É a prova de que algumas canções continuam encontrando novos caminhos porque nasceram para permanecer.