Correio da Manhã
Música

Clube dos oitentões da MPB recebea filiação de João Bosco

O consagrado cantor e compositor mineiro junta-se à ilustre companhia de Chico, Caetano, Gil, Bethânia, Ivan Lins e Milton

Clube dos oitentões da MPB recebea filiação de João Bosco
João Bosco é o grande homenageado na edição desta terça do Sem Censura Crédito: Marcos Hermes/Divulgação


O clube dos grandes nomes da MPB que chegaram aos 80 anos de vida acaba de ganhar mais um membro ilustre. Com oito décadas completadas no último domingo (12), João Bosco será homenageado ao vivo na edição desta terça-feira do programa Sem Censura (TV Brasil). O cantor e compositor mineiro pavimentou uma carreira de mais de cinco décadas pautada pela genialidade e sofisticação musical.

"A música me deu tudo: me trouxe pessoas, histórias e momentos", comentou o artista em entrevista ao JC Uol às vésperas de seu aniversário.

Desde menino, ele demostrava interesse por música. "Minha irmã tocava piano e percebeu que eu gostava de ficar mexendo no violão verde. Eu ficava colocando os dedos e ela viu que eu tinha interesse. Minha vida musical começou ali", relembra.

Antes de se dedicar exclusivamente à música, Bosco era engenheiro civil formado pela Universidade de Ouro Preto. Durante seus anos de estudante, era fã inveterado do jazz de Miles Davis e da bossa nova de João Gilberto e Tom Jobim. Foi também na universidade que conheceu o poeta Vinicius de Moraes, cujas influências marcariam sua trajetória. Ao se mudar para o Rio, abandonou a engenharia para perseguir a música.

Sua estreia em disco, em 1972, já apresentava ao grande público um artista notável. O jornal alternativo O Pasquim lançava uma série de compactos inovadora chamada "Disco de Bolso", vendida em bancas de jornal, que trazia um artista consagrado no lado A e um novato no lado B. No primeiro volume, Tom Jobim gravou "Águas de Março" — que se tornaria um dos maiores clássicos da música brasileira — enquanto João Bosco apresentava "Agnus Sei", sua primeira gravação. O projeto, produzido por Sérgio Ricardo, foi um sucesso de público e crítica, abrindo as portas para o que viria a ser uma carreira de parcerias memoráveis.

Mas foi a parceria com o letrista carioca Aldir Blanc (1946-2020) que consolidou o nome de Bosco na história da MPB. Juntos, criaram sucessos como "O Bêbado e a Equilibrista" é apenas um dos clássicos que marcaram época. A parceria produziu pérolas como "Dois Pra Lá Dois Pra Cá", "Corsário" e "Bala com Bala", todas essas canções imortalizadas pela voz de Elis Regina. Enquanto Aldir derramava sensibilidade em seus versos, João Bosco entregava complexidade harmônica em suas melodias.

Dono de uma das batidas de violão mais célebres da MPB, João Bosco conquistou o grande público tanto em seus álbuns quanto em apresentações ao vivo. Ao longo dos anos, lançou álbuns que se tornaram referência: de "João Bosco" (1973) e "Caça a Raposa" (1975) até trabalhos mais recentes como "Relicário" (2023) e "Boca Cheia de Frutas" (2024), além do álbum colaborativo "Corsário and Guests" (2025). Em 2017, recebeu homenagem pela excelência musical da Academia Latina de Gravação, reconhecimento que coroava uma carreira já repleta de indicações ao Grammy Latino. Nos últimos anos, Bosco reinventou sua trajetória ao lado do filho Francisco, mantendo a mesma exigência estética que o caracteriza desde o início. Em 2020, em parceria com o filho, conquistou o Grammy Latino de Melhor Canção em Língua Portuguesa.

Levantamento do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) confirma que o repertório de João Bosco permanece entre os mais tocados da música brasileira mesmo na era das plataformas digitais de música.