Família, amigos e representantes da classe artística se despediram neste domingo (12) de Mauro Marcondes Rodrigues, cantor e compositor carioca que morreu na sexta-feira aos 72 anos. Sua morte encerra uma trajetória de recomeço. Sua vocação artística foi "abafada" por décadas por uma bem sucedida trajetória como executivo e gestor público, até que um dia ele passou a dedicar-se integralmente à música. E que bom que isso aconteceu!
Nascido em 1º de outubro de 1953, criado em Copacabana ouvindo bossa-nova e MPB, Marcondes começou cedo. Aos 17 anos, em 1971, foi o compositor mais jovem a participar do IV Festival Universitário da TV Tupi, concorrendo com Belchior (que venceu com "Na Hora do Almoço") e Alceu Valença. Participou do Festival de Costa a Costa no Uruguai em 1972. Em 1980, sua música "Como se Fosse" (parceria com Caito Spina) foi classificada no Festival MPB-80 da Rede Globo, com arranjo da maestrina Célia Vaz e defendida pela cantora baiana Jace.
Mas a vida o puxou para outro lado. Formou-se em Química pela UFRJ, pós-graduou-se em Economia pela Unicamp, e ascendeu aos postos mais altos da administração pública: presidente da Finep, diretor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em Washington (EUA) e secretário de Planejamento do Ministério do Planejamento, entre outros cargos. Durante décadas, compôs esporadicamente. Gravou álbuns como "Perfil de Sal" (2003) e "Mar Azul" (2005, nos EUA). Mas era música de quem tinha outras prioridades.
Quando retornou em 2014, aos 61 anos, decidiu acordar aquela música adormecida. Reencontrou o poeta Zéjorge e iniciou uma parceria que resultaria em "Cantoria de Bazar" (2017), lançado no Blue Note Rio — um álbum que funciona como homenagem a Guimarães Rosa.
A partir de então, produziu com regularidade impressionante. Em 2023, lançou "Canções Urbanas", seu quarto álbum, resultado das influências musicais e experiências de vida em metrópoles, com toda a diversidade urbanística, cultural e humana. Em 2025, aos 71 anos, apresentou "O Tempo e o Amor", seu quinto e último álbum, concebido para cantar o amor em diferentes tempos. O álbum traz participações especiais dos cantores Áurea Martins (em "Bolero da Solidão") e João Cavalcanti (em "O que já foi não é"), além das vozes de Masé Sant'Anna e Soraya Nunes. O repertório é diverso — canções, bossas, baladas, sambas, choros, valsas, boleros — refletindo o compromisso de Marcondes com a diversidade da nossa canção popular.
As parcerias deste trabalho revelam a rede de apoio que Marcondes construiu: Caito Spina (seu compadre e parceiro de juventude), Zéjorge (seu parceiro mais constante nos últimos anos), Paulo César Feital (parceiro de toda uma vida), além de André Lacerda, Gustavo Baião e Sérgio Pachá.
Marcondes tinha clareza sobre seu lugar no como artista no mercado. "Como eu fiquei afastado muito tempo da cena musical, tenho um grande desafio de construir meu público com método e tranquilidade". Focou em produção de conteúdo para redes sociais, gravando sempre com músicos de qualidade, garantindo bons arranjos. Lançou singles como "Love Forecast" (com Leila Maria) e "Além do Cais" (com Leandro Braga). Expandiu-se para o audiovisual, gravando videoclipes que faziam de seus lançamentos álbuns visuais.
Era melodista de harmonias cuidadosas. Construiu uma obra marcada pela sofisticação, mas compreensíveis ao público. Suas influências eram vastas: Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto, Edu Lobo, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Ivan Lins, Dori Caymmi, João Bosco. Também absorvia blues americano, maestros como Claus Ogerman e Ennio Morricone, música de protesto latina (Daniel Viglietti, Zitarrosa, Mercedes Sosa, Violeta Parra) e o cantautor uruguaio Jorge Drexler. "Não há limite para o meu espírito absorver coisas belas", dizia.
Quando perguntado o que dizia para quem queria trilhar carreira musical, respondeu com a síntese de sua própria vida: "O importante é reunir talento com profissionalismo. Se possível busque sempre estar rodeado de bons profissionais que vão agregar valor ao seu trabalho. Busquem sempre a melhor qualidade, seja no conteúdo do seu trabalho, mas no material para divulgação".
O que o deixava mais feliz? "Quando um show termina bem e o público sai com gosto de quero mais". O que o deixava triste? "Conhecer tantos talentos musicais subaproveitados ou não podendo viver da sua arte". Sua própria trajetória era uma resposta a essa tristeza: aos 61 anos, livre das obrigações burocráticas, escolheu viver da sua arte e assinou contrato vitalício com a música. Deixa dois filhos: Cristiano e Bernardo, este último também músico e residente nos EUA.
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