Correio da Manhã
Música

Sem (jamais) tirar os pés da lama

Nação Zumbi volta ao Corco Voador com show de 30 anos de 'Afrociberdelia', álbum fundamental do movimento Manguebeat. Mombojó, também recifense, abre a noite

Sem (jamais) tirar os pés da lama

Affonso Nunes

Oque são três décadas diante de uma obra-prima? Não há como esse espaço de tempo ser suficiente para dissolver o interesse do público em "Afrociberdelia". Atendendo a pedidos, a Nação Zumbi volta ao palco do Circo Voador para celebrar o álbum clássico que marcou a expansão do manguebeat. Após duas apresentações com a casa inteiramente lotada em maio, a data extra ficou para esta sexta (3).

O segundo álbum de estúdio da banda recifense, lançado em 1996 e produzido pelo paulistano Eduardo Bidlovski (Bid), foi o último gravado com Chico Science antes de sua morte trágica em 1997, aos 30 anos, em acidente automobilístico. Se "Da Lama ao Caos" (1994) estabeleceu as bases do movimento manguebeat, "Afrociberdelia" foi sua expansão sonora — um disco de 23 faixas que apostava em diferentes sonoridades com mais tecnologia, psicodelia e batidas de hip-hop, sem abandonar as tradições nordestinas.

É a batida do maracatu e a drum machine, o ritmo ancestral e a experimentação eletrônica, tudo no mesmo tempo e espaço. O disco traz faixas clássicas como "Manguetown", "Macô" e a célebre versão de "Maracatu Atômico", que ganhou novas dimensões com remixes em ragga e trip-hop. A produção de Bid incorporou influências muito além do Nordeste, conversando com o mundo sem tirar os pés da lama — a marca registrada do manguebeat.

No palco, Jorge Du Peixe (vocal), Dengue (baixo), Toca Ogan (percussão), Marcos Matias e Da Lua (tambores), Tom Rocha (bateria) e Neilton Carvalho (guitarra) tocam a obra na íntegra, além de outras pedradas do repertório. É uma formação que carrega a responsabilidade histórica de manter viva a chama de um movimento que, embora tenha surgido em um contexto específico, continua reverberando na música brasileira.

"Na verdade, o tempo não chegou nesse disco ainda não. 'Afrociberdelia' é um disco bem à frente do seu tempo. Se prestar atenção e ouvir ele na íntegra, vai descobrir. Inclusive, percebe-se que o Curupira já tem seu tênis importado, não conseguimos acompanhar o motor da história, mas somos batizados pelo batuque e apreciamos a bicultura celeste, como já disse Chico Science", disse Jorge Du Peixe, ao falar em maio para o Correio da Manhã sobre a permanência do álbum.

A demanda por ingressos nas duas primeiras noites (8 e 9 de maio) foi tão intensa que levou a produção a abrir uma terceira data. Mesmo sem seu maior pensador, a Nação Zumbi segue na trincheira da resistência contra as desigualdades brasileiras, misturando tradição e modernidade sem macular o DNA nordestino — e o público continua respondendo a esse chamado.

Para esta noite especial, a Mombojó apresenta ao público carioca o repertório de "Solar", seu novo álbum de inéditas lançado em abril. Seis anos depois do projeto que embalou o filme "Deságua", de Luan Cardoso, a banda recifense retorna com um disco banhado pelo sol de Recife e embalado por referências que vão de ritmos do interior do estado a produtores de países europeus.

Gravado entre 2023 e 2024, "Solar" traz de volta a longeva parceria com o produtor Léo D, que integrou o celebrado disco de estreia do conjunto, unido a nomes pernambucanos como a cantora Sofia Freire e o cantor Nailson Vieira, a carioca Letrux, e músicos como Domenico Lancellotti, além de referências internacionais como Laetitia Sadier, da franco-britânica Stereolab, e os produtores franceses Hervé Salters (General Elektriks) e Anthony Malka (Le Commandant Couchê-tout).

Ao longo de oito faixas, o samba e a música popular se fincam como raízes para apresentar novos sons, com inspirações psicodélicas e experimentais. O disco marca uma fase revigorada do grupo, que celebra 25 anos de trajetória. Felipe S., vocalista do Mombojó, explica que "Recife, além de ser nossa cidade, é também de onde tiramos muitas das nossas referências musicais e estéticas. Lugares ensolarados trazem naturalmente uma energia dançante e de festa".

As canções carregam a vontade de sair para dançar e se misturar com as pessoas após o isolamento da pandemia — funcionam quase como remédios para aquele sofrimento.

SERVIÇO

NAÇÃO ZUMBI | AFROCIBERDELIA - 30 ANOS | MOMBOJÓ

Circo Voador (Rua dos Arcos, s/nº — Lapa)

3/7, a partir das 20h (abertura dos portões)

Ingressos: R$ 180 e R$ 90 (meia e ingresso solidário com 1 kg de alimento não perecível)