'Sou um Tupi tocando um Alaúde." O verso de Mário de Andrade, publicado em 1922 no livro de poemas "Pauliceia Desvairada", é o fio condutor de um projeto ambicioso do Grupo Anima: transformar em música de concerto as melodias que o modernista anotou durante sua viagem etnográfica pelo Nordeste entre 1928 e 1929. O resultado é "Na Pancada Desvairada", décimo álbum da trajetória do conjunto, que reúne 18 músicas inéditas compostas e arranjadas pelos oito integrantes do grupo a partir do vasto acervo de Andrade guardado no Instituto de Estudos Brasileiros da USP
O trabalho representa a primeira dedicação exclusiva do Anima ao polímata Mário de Andrade — uma homenagem a quem, em momento crucial da história cultural brasileira, arregaçou as mangas e foi a campo ouvir os artistas do povo. Entre as faixas estão duas que incorporam trechos de áudio capturados pela própria missão de pesquisas folclóricas organizada por Andrade em 1938: "Desafio Em Martelo Agalopado" e "Aboio Final".
O repertório navega entre cocos, desafios rimados, toadas e aboios coletados em cidades como Bom Jardim (Rio Grande do Norte), Recife (Pernambuco) e João Pessoa (Paraíba).O que torna o projeto singular é sua abordagem metodológica: o Anima não apenas resgata essas melodias, mas as coloca em diálogo deliberado com a música medieval e renascentista ibérica. Rabecas, violas sertanejas, gaitas de cabocolinho e percussões afro-brasileiras conversam com harpas trovadorescas, flautas medievais e instrumentos renascentistas. É uma releitura que o grupo vem explorando há décadas — a introdução da rabeca brasileira em 1991, através do músico José Eduardo Gramani.
A ideia é exatamente essa devoração antropofágica da musicalidade medieval ibérica através das lentes da tradição oral brasileira. O álbum traz 120 páginas com textos dos integrantes do Anima em português e inglês, imagens dos manuscritos de Andrade e fotografias da viagem etnográfica, além de ser acessível para leitura em voz alta por aplicativos para pessoas cegas.
A pesquisa musical de Andrade sempre foi parâmetro para a trajetória do Grupo Anima — um caminho ao revés do colonialismo impregnado na música de concerto. Os originais da colheita de Andrade estão guardados no IEB/USP, e a consulta a essas fontes primárias foi central ao projeto para nortear questões estéticas e composicionais em relação à rítmica e ao caráter improvisatório dos cocos, por exemplo. O Anima faz uma revisitação deste vasto repertório propondo uma leitura pela ótica das matrizes e matizes da música afro-brasileira cruzando-as com aquelas da idade média e da renascença ibéricas.O Grupo Anima construiu sua reputação ao longo de mais de três décadas explorando essas conexões entre fontes indígenas, africanas e ibero-medievais.
Desde 1997, acumula prêmios como o Movimento de Música Brasileira (melhor CD instrumental em 1998), APCA (melhor grupo de música de câmara em 1998), Carlos Gomes (2000) e Funarte de Música Brasileira (2017). Seus espetáculos funcionam como pesquisa em performance, onde etnomusicologia, musicologia histórica e teatro contemporâneo se entrelaçam. O projeto foi contemplado pelo PROAC Edital Fomento CultSP PNAB 24/2024 e é lançado pela produtora e gravadora Kuarup, especializada em música brasileira de alta qualidade.
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