Oator e dramaturgo Renato Borghi conta que tinha seis anos quando ganhou da mãe um disco de "A Branca de Neve". E a voz da princesa, que na versão brasileira era de Dalva de Oliveira, o contagiou como um vírus incurável. Sete décadas depois, essa paixão de infância ganha materialidade no espetáculo. "Minha Estrela Dalva", que faz temporada no Rio a partir de 31 de julho no Teatro Claro Mais.
Borghi, hoje com 89 anos, é um dos fundadores do Teatro Oficina e nome central das artes cênicas brasileiras desde os anos 1960. Ele define sua dramaturgia sobre Dalva como um "delírio documentado", algo sem conexão com biografias convencionais. Em cena, ele invade o camarim de Dalva para propor à cantora algo que nunca aconteceu: um espetáculo em que a "Rainha da Voz" interpretaria as canções de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O real e o imaginado, o passado e o presente, compões o jogo cênico idealizado pelo artista.
Quem dá corpo e voz a Dalva é Soraya Ravenle, atriz e cantora que reencontra o universo de Borghi por uma rota que parece roteiro: em 1987, foi no coro de "A Estrela Dalva" — sucesso do próprio Borghi com Marília Pêra — que ela deu seus primeiros passos no teatro musical. Trinta e nove anos depois, ela ocupa o centro do palco. "Não me interessa a cópia da casca, me interessa chegar perto da sua alma", diz a atriz sobre o processo de interpretar a cantora, a quem se refere como uma artista que desafia tradução.
O elenco ainda traz Ivan Vellame, que dá vida aos amores de Dalva — com destaque para o compositor Herivelto Martins, com quem ela foi casada por treze anos e de quem se separou em meio a um dos escândalos mais rumorosos da música popular brasileira. O fim do casamento, em 1949, foi coberto pela imprensa como um folhetim, com músicas-resposta, acusações públicas e uma guerra de versões que ocupou os jornais por meses.
Dalva saiu do episódio com a carreira intacta, mas com a vida pessoal exposta como nenhuma outra artista até então. Vellame também interpreta Kiko — o segundo marido, Tito Climent — e Bruno Marnet, figuras que, segundo a peça, tentaram cada um a seu modo controlar a cantora.
Elcio Nogueira Seixas, que assina a direção ao lado de Elias Andreato, interpreta o Borghi jovem — o ator dos anos 1960 que dividia a rebeldia do Oficina com o fascínio pelo rádio. "Sigo a receita antropófaga de Oswald de Andrade e faço a devoração de Renato e Dalva", define. A direção musical é de William Guedes. A cenografia de Márcia Moon, a iluminação de Wagner Pinto e os figurinos de Fábio Namatame constroem um universo que mescla o esplendor das rádios dos anos 1950 com a crueza do teatro brechtiano.
A cantora nasceu Vicentina de Paula Oliveira em Rio Claro, interior de São Paulo, em 1917. Descobriu o canto ainda menina e tornou-se um dos maiores fenômenos vocais do rádio brasileiro — com extensão do contralto ao soprano, foi chamada de "Rouxinol do Brasil" e eleita Rainha do Rádio. Gravou clássicos como "Ave Maria no Morro", "Que Será" e "Bandeira Branca", esta última um sucesso retumbante em 1970, dois anos antes de sua morte, aos 55 anos, no Rio de Janeiro.
Nostalgias à parte, em "Minha Estrela Dalva", a diva surge como ela sempre foi: contraditória, alcoólatra, briguenta, genial. Uma mulher que viveu à frente de seu tempo e pagou o preço por isso. O linchamento público que sofreu nos jornais dos anos 1950 — chamada de "Messalina", de indigna, de acabada — encontra paralelos diretos com a exposição a que mulheres são submetidas hoje nas redes sociais. A tecnologia mudou; a lógica, não. "Eu não tenho dono", bradava Dalva, aquela que foi esmagada mas não se curvou.
Dalva fez de cada golpe recebido uma canção. E um ator que, aos 89 anos, decidiu que ainda vale a pena escrever para devolvê-la ao palco viva, inteira, contraditória — e indomável.
SERVIÇO
MINHA ESTRELA DALVA
Teatro Claro Mais (Rua Siqueira Campos, 143, 2º piso, Copacabana)
De 31/7 a 27/9
Ingressos a partir de R$ 50
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