Foram quase 30 anos emprestando a voz — uma das mais expressivas do samba contemporâneo — ao repertório alheio. De Paulinho da Viola a Cartola, de Noel Rosa a Zeca Pagodinho, Teresa Cristina construiu uma carreira sólida como intérprete, alguém que canta (e bem), investiga, garimpa e reorganiza repertórios de respeito com o rigor e método de quem cursou Letras antes de ganhar os palco. Agora, aos 58 anos, ela dá o passo que talvez tenha ensaiado por tanto tempo: no último fim de semana chegou aos aplicativos a canção "Quando a Onda Passar", primeiro single de "Tudo Que Eu Tenho", álbum programado para o fim de julho que marca o primeiro trabalho totalmente autoral e inédito de sua carreira.
Na bela faixa, assinada por Teresa Cristina em parceria com Mosquito e Xande de Pilares, a artista canta que nem todo amor precisa se eternizar como relação amorosa para seguir. Às vezes a amizade é o que resta e esta também é moeda rara. Virar a página de uma relação também pode ser um gesto de cuidado. "Por mais que eu não queira partir não dá pra ficar", avisa ela num dos versos da faixa produzida por Pretinho da Serrinha (mesmo parceiro que pilotou "Jessé — As Canções de Zeca Pagodinho", lançado em janeiro deste ano). O single já está disponível nas plataformas digitais pela Altafonte.
O álbum "Tudo Que Eu Tenho" foi contemplado pelo edital Natura Musical, e o selo da cantora, Uns Produções, assina a produção executiva. A ficha técnica reúne músicos de primeira linha: Charlinhos no baixo, Miguel Torres na bateria, Juan Felipe no cavaquinho, Marcelo Minios no violão, além do próprio Pretinho no pandeiro, na cuíca e no tamborim, entre outros. O repertório, todo inédito, promete atravessar memória, maturidade, espiritualidade, política e afetos — uma espécie de balanço de vida desenhado por quem passou os últimos 15 anos acumulando canções próprias sem encontrar o momento certo de gravá-las.
Essa espera foi longa. Em entrevista na ocasião do lançamento de "Jessé", Teresa Cristina já adiantava a ansiedade pelo novo projeto: "É como se eu tivesse recomeçando a minha vida, sabe? Tô trocando de escritório, trocando de empresário e voltando pro estúdio para cantar o que eu faço, o que eu componho. Eu comecei a cantar samba sendo compositora, nunca tive sonho de ser cantora. O que me levou para tudo isso foi uma pesquisa sobre o Candeia, mas eu comecei a compor antes de cantar". E completou: "São 15 anos de músicas, composições. Fiquei com medo que elas ficassem cansadas."
Nascida em Bonsucesso e criada na Vila da Penha, Teresa Cristina Macedo Gomes teve uma trajetória digna de roteiro de cinema. Antes de chegar ao samba, foi manicure, fiscal do Detran, vendedora de cosméticos e programadora de rádio pirata na UERJ, onde cursou Letras.
O estalo veio aos 25 anos, quando um amigo da faculdade lhe emprestou um disco de Candeia. Ela, roqueira na época, conta que conhecia o compositor desde criança, por influência do pai, mas foi só na vida adulta que a obra do sambista fez sentido como ferramenta de afirmação identitária e política. Montou um espetáculo com o repertório de Candeia e, em 1998, foi cantar no Bar Semente, na Lapa. O bairro vivia então uma espécie de ressaca boêmia, e aquele pequeno palco — somada à roda que se formou ao redor do Grupo Semente — ajudou a reavivar a cena do samba carioca.
Em 2002, o álbum duplo "A Música de Paulinho da Viola" a projetou nacionalmente. O trabalho rendeu o Prêmio TIM de Música como cantora revelação e uma indicação ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Samba. Paulinho declarou na época: "É uma figura jovem e cativante, excelente cantora de samba. A gente está precisando de cantoras assim, porque hoje em dia não tem gente interpretando samba como ela". Marisa Monte, outra admiradora, diz: "Ela é maravilhosa. É uma devota do samba, que vai às raízes e pesquisa. Uma artista íntegra, que interpreta sem afetação".
De lá para cá, vieram os álbuns autorais — "A Vida Me Fez Assim" (2004), "Delicada" (2007), "Melhor Assim" (2010, ao vivo) — e a trilogia de songbooks que a consagrou como intérprete: "Teresa Cristina Canta Cartola" (2016), lançado pelo selo Nonesuch Records com turnê mundial ao lado de Caetano Veloso; "Teresa Cristina Canta Noel" (2018), com produção de Caetano; e, neste ano, "Jessé — As Canções de Zeca Pagodinho", em janeiro. Em 2020, durante a pandemia, virou a "Rainha das Lives" com 203 dias consecutivos de transmissão — feito que lhe rendeu o prêmio Faz a Diferença (O Globo) e o título de Artista do Ano pela APCA.
"Tudo Que Eu Tenho" chega num momento em que Teresa Cristina parece disposta a ocupar um lugar que por muito tempo deixou em segundo plano: o de compositora. Em fevereiro, ela dizia: "Passei muito tempo cantando o ponto de vista masculino. Com muito orgulho, gravei tudo que quis, mas acho que ainda tenho muito assunto para falar como mulher". Depois de tantos anos celebrando a obra de grandes mestres, Teresa Cristina começa a confiar na própria caneta.
A cantora e compositora que, em 2024, assumiu a apresentação do "Samba na Gamboa" na TV Brasil, manifesta também o desejo de firmar parcerias com outras mulhere, entre as quais Zélia Duncan, Liniker e Marina Iris.
A turnê de lançamento do álbum começa em setembro, com três datas confirmadas: Salvador (19/9, no Largo da Tieta, no Pelourinho), Rio de Janeiro (23/9, no Teatro Riachuelo) e São Paulo (26/9, na Casa Natura Musical). Os shows devem mesclar o repertório inteiramente autoral com composições que a acompanham desde o início da carreira — algumas inéditas em sua própria voz nos palcos. Depois de tantos álbuns com o nome começando o nome "Teresa Cristina Canta...", agora temos um Teresa Cristina canta Teresa Cristina. E pela qualidade do single que se apresenta, que venham muitos outros.
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