Correio da Manhã
Música

Doces Bárbaros, a turnê que desafiou a ditadura com alegria

Pesquisador Luiz Abrahão reconstitui em livro os 50 anos do supergrupo baiano com documentos da censura e da vigilância militar sobre Caetano, Gal, Gil e Bethânia

Doces Bárbaros, a turnê que desafiou a ditadura com alegria
Bethânia, Caetano, Gal e Gil já tinham carreiras consolidadas quando se reuniram no projeto Crédito: Reprodução


Não foi exatamente aquilo que podemos chamar de um começo grandioso. No dia 24 de junho de 1976, quando Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia subiram ao palco do Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, o que o público viu foi um grupo de amigos que, mais de dez anos depois de estrearem juntos em Salvador, tinha saudade de dividir o palco. Batizado por Bethânia de "Doces Bárbaros", o projeto era, à primeira vista, uma celebração de uma década de carreiras solo — cada um dos quatro já era um nome consolidado da música brasileira. Para os quatro, havia mais. Por trás da reafirmação da amizade mútua, os quatro assumiam um exercício deliberado de leveza em meio aos anos de chumbo num momento em que a crítica musical brasileira cobrava coerência e engajamento da classe artística.

Cinquenta anos depois, nesta mesma data, o pesquisador Luiz Abrahão anuncia a pré-venda de "Mistério Sempre Há de Pintar Por Aí — Uma História dos Doces Bárbaros", primeiro livro dedicado inteiramente à história do quarteto. São 320 páginas que reconstituem a trajetória do grupo a partir de entrevistas, reportagens da época e documentos inéditos obtidos em arquivos públicos. O prefácio é do cineasta Jom Tob Azulay, diretor do documentário que registrou a turnê de 1976.

Para entender os Doces Bárbaros, é preciso recuar a 1964. Foi num show beneficente no Teatro Vila Velha, em Salvador, que os quatro dividiram o palco pela primeira vez. Caetano e Bethânia, irmãos filhos de dona Canô, já cantavam desde a adolescência em Santo Amaro da Purificação. Gil, baiano de Ituaçu, e Gal, de Salvador, completavam o quarteto que a imprensa passaria a tratar como um "grupo baiano" unificado — muito antes que qualquer projeto coletivo formal existisse.

Era o início de um período de efervescência e repressão. Em 1965 e 1966, os quatro desembarcaram no Sudeste, cada um buscando seu espaço no eixo Rio-São Paulo. Em 1967 e 1968, bagunçaram os cânones da MPB com a Tropicália — Caetano e Gil na linha de frente, Gal como uma das vozes mais marcantes do movimento, Bethânia já consolidada como intérprete de força cênica incomum desde sua grandiosa estreia no espetáculo "Opinião" ao substituir Nara Leão. De 1969 a 1972, vieram o exílio de Caetano e Gil em Londres e a separação forçada, enquanto Gal e Bethânia mantinham a chama acesa no Brasil. De 1973 a 1975, cada um consolidou-se individualmente com carreias solos de respeito.

Quando o projeto Doces Bárbaros finalmente tomou forma, havia um sentimento que unia os quatro além de qualquer cálculo mercadológico. "Estavam com saudades de dividir a cena, o palco e a vida", resume Abrahão. A origem do nome, aliás, foi uma resposta direta às hostilidades: Caetano cunhou "Doces Bárbaros" depois que o jornal O Pasquim publicou insinuações homofóbicas sobre o grupo. A doçura e a barbárie, fundidas numa expressão, eram a resposta.

Uma das características mais marcantes dos Doces Bárbaros — e que o livro de Abrahão ajuda a compreender em profundidade — era o ecletismo deliberado do repertório. As quinze canções novas, compostas exclusivamente para a turnê por Caetano e Gil, misturavam rock psicodélico ("Chuckberry Fields Forever", trocadilho que fundia Chuck Berry e Beatles), funk, samba, religiosidade afro-brasileira ("São João, Xangô Menino"), referências indígenas ("Um Índio"), orientalismo e uma estética circense que contaminava o figurino e a cenografia.

Para os críticos da época, aquela mistura parecia uma salada mal resolvida. Para o quarteto, era exatamente o ponto. "A unidade dos Doces Bárbaros estava no fato de que se tratava de um grupo", explica Abrahão. "Em todos os aspectos, Gil, Bethânia, Gal e Caetano se empenharam em diluir, na ideia de conjunto, suas marcas individuais. E a grande marca estética desse grupo era exatamente a pluralidade."

O pesquisador observa que os críticos tiveram enorme dificuldade de compreender esse conceito — muitos insistiam que o projeto não passava de um arranjo mercadológico sem qualquer novidade. "Erraram feio", diz Abrahão. O ecletismo não era falta de identidade, mas a identidade mesma do grupo que misturava orixás, indígenas, orientalismo, circo, Nordeste. "Era uma vertigem para olhares viciados", completa.

Mais do que isso: o quarteto deliberadamente queria escapar da própria sofisticação. "Gal, Gil, Caetano e Maria Bethânia, embora já consagrados, queriam brincar de ser amadores, principiantes — como haviam sido em 1964", conta o pesquisador. "Não queriam estar presos a dogmas estéticos ou a princípios artísticos. O frescor era o anseio, não os compromissos filosóficos." Daí o tom deliberadamente descontraído dos shows, o figurino colorido com influências hippies e religiosas, a cenografia que evocava um circo, a ausência de qualquer pose de "artistas sérios".

"Essa estrutura de show se impôs naturalmente como uma forma de contemplar equilibradamente a atuação dos quatro artistas que já nessa época, 1976, eram imensamente populares e cada um com uma obra própria e original. Um show que incluísse os quatro teria que necessariamente ter uma estrutura como essa. Efetivamente nunca tivemos nada parecido na MPB", atesta Tom Job Azulay.

Olhando no retrovisor, o cineasta destaca os problemas que teve para liberar a exibição do filme na época. "Viver sob um estado de exceção é viver permanentemente sob vigilância militar. A gente tende a naturalizar embora sabendo tentando não sentir para se conseguir levar a vida, compreende?", comenta.

"Esse é o drama de se viver sob uma ditadura. No tocante às artes em geral, eles nos deixavam viver, trabalhar, criar, mas na obra de lançar as obras era necessário submetê-las à Censura, órgão do Ministério da Justiça", acrescenta Azulay. No caso de "Os Doces Bárbaros", o cineasta levou pessoalmente o documentário a Brasilia. "Fui recebido cordialmente pelos censores e discuti com eles cada um dos cortes. Evidentemente não consegui alterar nenhum, mas pelo menos acho que consegui evitar outros e o filme foi liberado para exibição pública". No verso do Certificado de Censura constam os cortes que precisariam ser feitos e os fiscais da Censura podiam aparecer durante a exibição e verificar se o filme estava passando com cortes exigidos. "O ambiente de sufoco era generalizado, apenas que naturalmente nada aparentávamos", lembra.

O repertório incluía pérolas como "Gênesis", "Um Índio", "Eu Te Amo" (que Caetano compôs para testar os agudos de Gal), "Peixe", "Os Mais Doces Bárbaros" e "Pássaro Proibido", parceria de Caetano com Bethânia. De Gil, "O Seu Amor" e "Chuckberry Fields Forever". Além das canções próprias, o quarteto incorporou "Fé Cega, Faca Amolada", de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e "Atiraste uma Pedra", clássico de Herivelto Martins e David Nasser — esta última, uma das responsáveis pelos momentos mais emocionantes da turnê, especialmente na apresentação em Belo Horizonte, quando a plateia contava com o próprio Milton Nascimento e integrantes do Clube da Esquina.

Um dos pontos mais fascinantes que Abrahão levanta em sua pesquisa é a natureza ambígua da resistência política dos Doces Bárbaros. O grupo não fazia panfletagem nem militância explícita — e por isso foi alvo de críticas tanto da direita (que os vigiava e censurava) quanto da esquerda (que os acusava de alienação). "Não havia panfletagem ou militância no Doces Bárbaros. Isso não significa que não houvesse uma dimensão política no projeto", afirma o pesquisador. "Aliás, essa é uma das razões pelas quais eles foram tão atacados pelos críticos, sobretudo os de esquerda: a falta de engajamento explícito. O quarteto, porém, preferiu afirmar a potência dos encontros humanos, sem esquecer as dores do autoritarismo."

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Quarteto era monitorado pelo regime

Quarteto era monitorado
pelo regime
Luiz Abrahão colheu depoimentos e pesquisou documentos de época para produzir o livro; Capa de 'Mistério Sempre Há de Pintar Por Aí', o primeiro livro dedicado à trajetória dos Doces Bárbaros Crédito: Divulgação

Apesquisa de Abrahão nos arquivos do Ministério da Aeronáutica revelou um dossiê que mostra como o governo militar mantinha o quarteto sob vigilância. A prisão de Gilberto Gil por porte de maconha em Florianópolis, no dia 7 de julho de 1976 — que interrompeu a turnê e o obrigou a se submeter a um tratamento de reabilitação no Instituto Psiquiátrico São José — serviu de pretexto para intensificar o monitoramento. O percussionista Djalma Corrêa e o baterista Chiquinho Azevedo também foram presos. "Gil saía do hospital e ia direto para os shows, depois tinha que voltar. Ficava uma viatura na porta", lembrou Djalma em entrevista anos depois.

Além disso, Abrahão descobriu documentos inéditos que mostram que, além do já conhecido veto a "Como São Lindos os Chineses" (de Péricles Cavalcanti), outras quatro canções do repertório sofreram sanções: "Os Mais Doces Bárbaros", "Nós, Por Exemplo", "O Seu Amor" e "Um Índio" foram consideradas impróprias pelas forças de repressão e tiveram trechos alterados para serem liberadas.

"A resistência dos Doces Bárbaros foi, em certa medida, algo paradoxal: afirmar a possibilidade de alegria, amor e frescor em um país que apenas começava a sonhar com o retorno das liberdades civis", escreve Abrahão. "Caetano disse que eles eram uma 'nova raça': uma geração por vir, que sofreu com a repressão, mas já sentia o retorno da vida. A força criativa dos Doces Bárbaros está no fato de que vislumbravam, em 1976, sujeitos próprios de um Brasil que só viria a existir em 1988, com a Constituição Cidadã. Por isso, considero os Doces Bárbaros uma verdadeira utopia de liberdade."

Do ponto de vista discográfico, o álbum duplo ao vivo "Doces Bárbaros — Ao Vivo", lançado pela Philips/PolyGram em 1976, ocupa uma posição ambígua na história da música brasileira. É um cult-clássico disputado por colecionadores, mencionado em listas de melhores discos ao vivo da MPB — mas não foi um sucesso comercial imediato como os trabalhos individuais que os quatro lançavam em paralelo.

Abrahão aponta duas razões principais. A primeira é que o LP trazia um repertório praticamente inédito, composto em tempo recorde — ao contrário do que o público poderia esperar, não era uma coletânea de sucessos do passado. "Não era uma reunião dos êxitos radiofônicos de Gal, Gil, Maria Bethânia e Caetano", explica. A segunda, e mais decisiva, foi a recepção dos críticos. "Foram implacáveis: atacaram aspectos técnicos, a capa, o repertório etc." De fato, gravações ao vivo nos anos 1970 apresentavam limitações técnicas inevitáveis — e os próprios artistas reconheciam os problemas pontuais do registro. Havia ainda a polêmica de que quatro faixas ("Esotérico", "Chuckberry Fields Forever", "São João Xangô Menino" e "O Seu Amor") haviam sido lançadas antes como gravações de estúdio num compacto duplo, o que gerou questionamentos sobre a "pureza" do registro ao vivo.

Mesmo assim, algumas canções chegaram a tocar nas rádios. "Peixe" integrou a trilha sonora do Sítio do Picapau Amarelo. Mas o registro coletivo não competiu com os discos solo que os quatro lançaram no mesmo período — e o status de obra de culto só viria com o tempo, alimentado pelo valor documental e pela raridade do encontro.

A evolução de Gal

Entre os quatro integrantes, talvez nenhum tenha sido tão transformado pela experiência dos Doces Bárbaros quanto Gal Costa. A cantora que até então era vista como a musa do desbunde — imagem construída nos anos tropicalistas e nos discos da primeira metade dos 1970 — emergiu do projeto com uma nova segurança cênica e uma abertura estética que marcariam seus trabalhos seguintes.

Abrahão confirma essa leitura com nuances. "O projeto Doces Bárbaros teve um impacto importante na carreira de cada um dos seus quatro integrantes. Todos absorveram, cada qual a seu modo, a experiência de reviver, mesmo que por poucos meses, a alegria de um trabalho coletivo, com foco no grupo, não nos indivíduos." Ele destaca que Gal atribuía à convivência com Maria Bethânia uma transformação em sua performance de palco — e que o LP "Caras e Bocas", lançado logo depois, trazia como ponto comum a mistura de estilos, um traço claramente herdado do repertório dos Doces Bárbaros.

"O Doces Bárbaros 'reformulou' Gal — para usar uma palavra que ela mesma empregou em 1976", diz Abrahão. "Mas essa reformulação só ocorreu porque os quatro estavam com saudades de estarem juntos nos palcos, como iniciantes, após mais de dez anos dedicados às carreiras solo." Havia também um componente pessoal: Gal havia iniciado psicanálise, ioga e macrobiótica na mesma época — um conjunto de transformações que o projeto coletivo catalisou.

Os Doces Bárbaros não foram um projeto de ocasião única. Em 1994, dezoito anos depois da turnê original, os quatro desfilaram juntos na Estação Primeira de Mangueira, que os homenageou com o samba-enredo "Atrás da Verde e Rosa Só Não Vai Quem Já Morreu" — paródia de "Atrás do Trio Elétrico", lançada por Caetano em 1969.

Em 2002, veio o reencontro mais aguardado: 26 anos depois, os quatro voltaram a se apresentar como Doces Bárbaros em dois shows históricos ao ar livre — no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e na Praia de Copacabana. O registro dessa reunião gerou o documentário "Outros (Doces) Bárbaros" (2004), dirigido por Andrucha Waddington, que capturou não apenas as apresentações, mas os ensaios e os bastidores do reencontro. As imagens mostram Gal e Bethânia trocando olhares e sorrisos durante "Esotérico", e Caetano discutindo com um jornalista durante uma coletiva — pequenos retratos da dinâmica do grupo, com toda a tensão e afeto que a acompanhavam.

Se os Doces Bárbaros fossem apenas um capítulo da história da música brasileira, já teriam seu lugar garantido. "O grande legado existencial dos Doces Bárbaros consiste em reconhecer a força das amizades, dos encontros, dos afetos e dos amores como fator necessário — mas não suficiente, pois também precisamos de organização política — para lidar com os ciclos de barbárie humana que insistem em nos rodear de tempos em tempos", escreve Abrahão. "Contra as expressões ideológicas de ódio, contra a incivilidade, o fascismo e o desrespeito às liberdades fundamentais e à vida, não podemos dispensar as amizades que unem aqueles que desejam uma existência pautada pelo respeito às diferenças e à diversidade de visões de mundo."

Meio século depois, a doçura e a barbárie seguem conversando.