Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), onde participa de uma mesa-redonda nesta quinta-feira, às 17h30, para festejar os 50 anos de seu romance mais célebre - "Essa Terra" -, o baiano Antônio Torres certa vez recordou, em entrevista ao Correio da Manhã, que assistiu a "Vidas Secas" (1963) em São Paulo, "num cinema cheio de nordestinos... migrantes como eu". Essa lembrança é o gatilho de uma identificação regional, geopolítica e poética. "Aquele jovem que eu fui, ali, naquela hora, queria ter ficado lá em Sampa, com aquele povo, que era igual a ele e entendia suas dores e seus sonhos, mas tinha passagem comprada para o Rio e precisou partir".
Após um périplo que passa por Copacabana, Lisboa, Itaipava e Flamengo, o escritor se fez um gigante da nossa literatura de ficção, com romances aclamados como "Meu Querido Canibal", "Um Táxi Para Viena d'Austria" e "Querida Cidade" em seu currículo a um só tempo campeão de vendas e cultuado pela crítica.
Esse casamento de sucesso, raro em nossa pátria, consagrou-se mundo afora com as muitas versões de "Essa Terra" para outros idiomas. Suas páginas narram a história de Nelo, que decide migrar de Junco (atual Sátiro Dias), no sertão baiano, para São Paulo. Cada parágrafo tinge de realismo a tragédia dessa ave migratória de pés no chão, com sonhos desfeitos pela cidade grande - que o atrai e depois expulsa impiedosamente.
Neste 22/10, na ABL, o economista Edmar Bacha e o bamba da Letras Italo Moriconi, ensaísta e professor, analisam a narrativa que fez de Torres um titã, cinco décadas atrás. Mas, antes, nesta conversa, o prosador vindo lá da Bahia fala de seu modo de escrever.
Como você descreveria o sol que banha a Junco imaginária de "Essa Terra"?
Antônio Torres - Não conseguiria descrevê-lo melhor do que o capixaba Carlinhos Oliveira, que entrou para a história do Rio como um carioquíssimo cronista. Para ele, o personagem principal do "Essa Terra" era o sol, que raia, ilumina, banha, arde em todas as suas páginas.
De que maneira o "Essa Terra" permitiu que você mergulhasse no Nordeste a partir de uma subjetividade que não se conhecia em nossa prosa?
O Nordeste ao fundo do "Essa Terra" é um cenário real para um drama mítico e trágico. Comecei a escrevê-lo em São Paulo, mas foi no Rio que ele ganhou corpo e forma, depois de duas viagens ao interior da Bahia, em busca da memória que o seu povo teria daquele que iria me servir de personagem: o imigrante que, depois de muito ir e vir, acabou dando fim à própria vida ao enlaçar o seu pescoço numa corda. Como ninguém queria tocar nesse assunto, achei que havia perdido a história. Até perceber que muito pelo contrário: a negação dos fatos é que era o fato principal. Reescrevi um capítulo por lá mesmo, comecei outro numa cidade mais adiante, e continuei num quarto de hotel na capital, Salvador. Do princípio ao fim, esse vai e vem durou dois anos e meio, chegando ao ponto final no dia 31 de julho de 1975, com a voz de uma tia muito querida aos meus ouvidos: "Eu passei um mês inteiro bebendo chá de casca de laranja para dormir e esquecer daquele homem, e você agora quer me lembrar tudo de novo? Pelo amor de Deus, não me faça uma desgraça dessa!" Bota subjetividade nisso...
De que forma aqueles personagens abriram caminhos para a obra que você erigiu a partir do primeiro romance? O povo de "Essa Terra" já te assombrou?
"Essa Terra" acabou gerando uma trilogia, com "O Cachorro e o Lobo" e "Pelo Fundo da Agulha". Estes três romances foram aglutinados recentemente pela Record num só volume, intitulado "Trilogia Brasil". Mas sim: fui assombrado, e muito, pela imagem do suicida que puxa toda a história, a ponto de recorrer à psicanálise. Ou seja: viagem foi o que não me faltou em todo o processo criativo dessa trilogia. Para fora e para dentro de mim mesmo.
Como se deu o processo de publicação de "Essa Terra", nos anos 1970, e que cenário do mercado leitor você encontrou em sua estreia?
A minha estreia literária aconteceu em 1972, com o romance "Um Cão Uivando Para A Lua", que causou um grande impacto na crítica ("revelação do ano" etc.) e no público, chegando a frequentar listas de best-sellers. No embalo, veio "Os Homens Dos Pés Redondos", que não deixou a peteca cair - muito pelo contrário. O "Essa Terra" foi o meu terceiro romance, e também o terceiro livro a ser publicado, em 1976, pela Editora Ática, de São Paulo, numa coleção intitulada Nosso Tempo, criada por Jiro Takahashi, com uma tiragem inicial de trinta mil exemplares. Isto na sequência de "O Pirotécnico Zacarias", de Murilo Rubião, e "A Morte de D. J. em Paris", de Roberto Drummond, ambos de contos. Logo, o cenário do mercado editorial que encontrei foi o mais alvissareiro possível. Um exemplo: o "Essa Terra" se revezava nas listas dos mais vendidos com "A Festa", de Ivan Ângelo, que também acaba de ter uma edição comemorativa dos seus 50 anos. Aliás, salve, ele!
O que significa apresentar esse livro hoje ao Brasil que escreve via IA?
Significa que para a Editora Record esse livro continua vivo. Permita-me lembrar que o que estamos apresentando aqui é a trigésima edição do "Essa Terra", e isto no formato padrão, pois há mais quatro edições pela BestBolso, assim como houve uma com ótima tiragem pelo Clube do Livro de São Paulo e mais outra na já referida "Trilogia Brasil". Sem contar edições mundo afora, de Cuba ao Vietnã. Está para sair uma edição na Índia. Sou de uma geração muito bem lida (de Moacyr Scliar, em Porto Alegre, a Márcio Souza, em Manaus) e agora vejo outra indo mais longe ainda, puxada por campeões de venda como Ana Maria Gonçalves, Itamar Vieira Júnior, Carla Madeira, Socorro Acioli, Raphael Montes, Jeferson Tenório, Aline Bei... O que significa que a literatura brasileira está vivíssima.
Qual o autor que mais influenciou a escrita de "Essa Terra"?
Aquele de quem tirei a seguinte epígrafe: "As batalhas nunca se ganham. Nem sequer são travadas. O campo de batalha só revela ao homem a sua própria loucura e desespero, e a vitória não é mais do que uma ilusão de filósofos e loucos". William Faulkner, em "O som e a fúria".
Que novos livros estão em gestação na tua cabeça?
Se eu contar sobre um que já me ronda, ele se dará por escrito. Logo, mudemos de assunto.
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