Depois que Christopher Nolan transformou a saga milenar de "A Odisseia" num dos filmes maia rentáveis de toda a História do audiovisual, com uma receita estimada em US$ 1,7 bilhão, os escritos de Homero mobilizam as livrarias, inspirando derivados gráficos das mais variadas formas. Há traduções novas, tem edições comentadas e até uma versão HQ, via Panini Comics, pedir espaço nas prateleiras das lojas especializadas. Matt Damon virou o rosto da "homeromania", que varre a mídia desde o mês de julho, quando o longa-metragem estreou.
A fim de levar esse êxito à esfera do debate crítico acadêmico, o Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB-RJ) abre espaço em sua grade deste mês, nesta quarta-feira, para Carlinda Pate Nuñez, professora da Uerj, analisar o saber homérico. Seu colóquio, mediado por Suzana Vargas e Ramón Nunes Melo, começa às 17h30 deste 30/9.
"Homero é o fundador da Literatura ocidental. As obras que lhe são atribuídas, a 'Ilíada' e a 'Odisseia', são poemas que têm como prerrogativa a preservação de cantos tradicionais, incluindo-se aí tanto feitos heróicos quanto dados da vida familiar", diz Carlinda ao Correio da Manhã. "Nolan concretizou o sonho de Homero, com a tecnologia do séc. XXI. Homero, fundador da épica grega e da poesia ocidental, compôs uma narrativa sobre a ternura humana".
Titular de Teoria da Literatura do corpo docente da Uerj desde 2018, Carlinda graduou-se em Português-Literatura pela Universidade Santa Úrsula, onde também lecionou Grego até 2002. É mestre e doutora em Literatura Comparada pela UFRJ e realizou pós-doutorado na Universidade de Freiburg, na Alemanha, com pesquisa sobre mitos platônicos. Na Uerj, atua desde 1994 e exerceu diversas funções acadêmicas, incluindo a coordenação do Programa de Pós-graduação em Letras. É autora de "Electra ou uma constelação de sentidos" (2000) e de artigos e capítulos de livros, além de organizadora de revistas e obras acadêmicas.
Ela explica que o épico de Homero tem como prerrogativa a visibilidade das ações, das peripécias, das situações grandiosas ou domésticas, que fazem dos protagonistas heróis. "É impressionante a quantidade de personagens envolvidos num poema épico - o protagonismo é alcançado pelas personagens principais de início, mas pode ser dividido com personagens que aparecem uma única vez, mas, uma vez focalizado pela voz narrativa, pode até imortalizar o episódio", explica Carlinda. "Este é o caso do porqueiro Eumeu (Cantos XXIII e XXIV) e do cão Argos (que morre, ao reconhecer seu dono, Ulisses/Odisseu), após 20 anos de ausência)".
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"O filme de Nolan evita representações exageradas ou puramente digitais de deuses e monstros. Zeus e Poseidon, por exemplo, manifestam-se através de elementos da natureza como trovões e ondas", explica a professora. "Outro aspecto é a apresentação de Ulisses menos astucioso do que ele demonstra ser nos poemas homéricos. No filme, ele é melancólico, marcado pela culpa (quanto à destruição de Troia) e pelo peso de vencer graças ao ardil do Cavalo. "A Odisseia" se tornou a obra paradigmática do épico, tendo em vista a combinação de dois fatores que se tornaram emblemáticos para o gênero: as agruras do retorno ("nóstos") e as provas de reconhecimento a que foi submetido. Ao longo dos vinte e quatro cantos, Ulisses está presente como protagonista. Essa presença, enfrentando situações naturais e sobrenaturais, testa e depaupera as forças do herói. A última prova a que é submetido - o segredo do leito conjugal - é a chave de ouro. Ainda está por ser escrita uma epopeia que supere o impacto do desfecho desta epopeia".
O Clube de Leitura do CCBB, organizado por Suzana Vargas (com curadoria dela e de Ramón Nunes Melo) virou uma das maiores coqueluches estéticas do Rio, entre os eventos que celebram a arte da palavra, abrindo espaço nobres para cabeças inquietas como as de Carlinda.
"As literaturas antigas continuam sendo fontes de inspiração e recriação", diz a teórica da UERJ. "Estudos comparativos entre obras literárias, entre os clássicos e adaptações nas literaturas pós-clássicas, traduções do grego e do latim para línguas modernas, estudos temáticos e interdisciplinares asseguram a sobrevivência incansável do clássico. Eu diria até: a presença viva e a pulsante renovação do Clássico. Sem dúvida, o clássico continua autal".
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