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Foucault, 100 anos

Foucault, 100 anos

O maior começa pelo Menor. Em "A República", de Platão, o Estado age de forma imperceptível, por isso se faz presente no lugar Menor, ou seja, no quarto da criança. Entre a mãe e o filho, o Estado é força maior que se apequena como fábula nobre lida pela mãe. O Estado infiltra-se na casa.

O ápice da extrema direita é Hitler. Bem mais do que um nome, sua voz ecoa a matilha, e um lobo merece atenção: doutor em Filosofia e cérebro da propaganda nazista, ele, por meio de uma linguagem estetizada, colocou o Estado nazista dentro dos lares alemães: Goebbels.

Biógrafo, Peter Longerich escreve o interesse de Goebbels pelo sucesso com a multidão: "Berlim precisa de sensacionalismo, e toda propaganda política que não levar em conta isso está fadada ao fracasso" (p. 90). A maior multidão começa pelo Menor, isto é, pelo cotidiano da família, é lá onde pulsam as sensações, os desejos. Diz Goebbels: "O sentimento social é a exacerbação do sentimento familiar" (p. 63).

Iniciei esta coluna com a extrema direita, e não com Michel Foucault (1926-1984), porque, antes de o nazismo dominar o lugar Maior, ele circulou por lugares Menores. Não há, primeiro, o nazismo, e sim suas graduações, isto é, micronazismos. Chego a Foucault: pequeno movimento do poder ou microfísica do poder. Qualquer graduação de história neste país, porém, apropria-se da filosofia para deformar Foucault com rótulos de ou estruturalista, ou neoestruturalista, ou pós-estruturalista.

Primavera de 1983: "Jamais fui estruturalista" ("Ditos e escritos II", 2025, p. 327), e continua: "Sinto-me embaraçado porque não vejo claramente o que isso quer dizer, nem mesmo - pouco importa a palavra, sempre se pode usar uma etiqueta arbitrária - qual o tipo de problemas que é visado através dessas palavras" (Ditos e escritos II, 2025, p. 339). Diferente da história, a filosofia não usa etiquetas arbitrárias, não estrangula Foucault com as mãos do período histórico e muito menos sufoca-o com o saco plástico da identidade.

A filosofia pensa conceitos. Cria-os. Aprofunda o conceito de luta. "Marx diz, efetivamente, que o motor da história reside na luta de classes. E muitos, depois dele, repetiram essa tese. (…). Mas até aqui ninguém examinou nem aprofundou a questão de saber o que é a luta. O que é a luta, quando dizemos luta de classes? Visto que dizemos luta, trata-se de conflito e de guerra? Mas como essa guerra se desenvolve? Qual é o seu objetivo? Quais são os seus meios? Sobre que qualidades racionais repousa?" (Ditos e escritos VI, 2013, p. 197).

Se ignoramos o que é relações de poder, desconhecemos como lutar. Para Foucault, filósofo do poder é Nietzsche ("Microfísica", 1979, p. 143), pois, para além de Marx, o poder serve-se do dualismo a fim de se criar enigmático: visível-e-invisível, presente-e-oculto ("Microfísica", 1979, p. 143).

Assim, na condição de paradoxo, o poder é forte porque produz entre signos contrários efeitos do desejo em lugares Menores, lugares onde a realidade acontece. Por causa do Menor, a extrema direita é maior no Congresso, consequência de uma força semântica desejada por famílias em suas casas.

A extrema direita é vitoriosa, e a oposição permanecerá com o modelo dualista de luta, qual seja, a "luta-contra", aliás, que Goebbels tanto motivava. Ouço Foucault: "Uma coisa é determinante: que o marxismo tenha contribuído e contribuiu, sempre, para o empobrecimento da imaginação política" ("Ditos e escritos" VI, 2013, p. 190).