Acuriosidade em levantar autores das histórias que Alfred Hitchcock filmou me levou a conhecer Ethel Lina White (1876-1944), uma galesa que deixou mais de 100 contos e novelas de suspense. Como outros escritores que ofereceram excelente material para Hitchcock - entre esses, a britânica Daphne Du Maurier, a americana Patricia Highsmith e a dupla francesa Boileau-Narcejac —, Ethel foi uma mestra na descrição de ambientes, na crítica social e tramas intrigantes a serem desvendadas por jovens protagonistas inteligentes e independentes.
A principal diferença da conterrânea Agatha Christie (ainda quem mais vendeu livros na história, depois de William Shakespeare e dos anônimos que escreveram a Bíblia) estava em sua preferência por criações mais próximas ao macabro.
Tão conhecida quanto outras autoras da época, como Agatha e Dorothy L. Sayers, a fama de Ethel se diluiu depois de sua morte, aos 68 anos. O pavor de confinamento e os cenários claustrofóbicos das histórias se refletiram na recomendação em testamento à irmã, a quem legaria todas as suas posses, desde que ela pagasse "a um cirurgião qualificado" para cravar uma faca em seu coração após a morte. A carreira literária foi curta, de apenas 17 anos. Entre seus maiores sucessos está "A dama oculta" (Vestígio, R$ 60), cuja adaptação cinematográfica é considerada o ápice da "fase inglesa" de Alfred Hitchcock.
A dama que some, no título original ("The Lady Vanishes"), é uma mulher rica que a jovem Iris conhece na pousada onde se hospedam na Suíça. Na viagem de volta à Inglaterra, de trem, a mulher desaparece misteriosamente, e Iris começa a questionar sua própria sanidade mental, já que ninguém se lembra da passageira. Nada que as contemporâneas, Paula Hawkins ou Ruth Ware não tenham explorado nos thrillers "A garota do trem e "A mulher da cabine 11".
Ethel não figura entre os autores reunidos no espetacular "101 contos clássicos de crime, mistério e suspense" (Nova Fronteira, R$ 132,90), organizados por Janaína Senna, que confessa, na introdução, sua dor em eliminar diversos textos merecedores de estar na seleção. Um volume traz escritores de língua inglesa, talvez os mais prolíficos no gênero que consagraram. O outro volume é de brasileiros e "estrangeiros" em geral, como Voltaire, Tchecov, Franz Kafka, além de Charles Perrault e seu gótico "O Barba-Azul", que matava as esposas "desobedientes", igual a tantos feminicidas da atualidade. Tomara que a editora se anime a publicar outra coletânea — de contos de suspense da Era de Ouro das histórias policiais dos anos 1920 a 1930.
A recriação é uma prática literária consagrada. Mesclando cuidadosamente o suspense e o terror, os japoneses vêm trazendo alento ao nicho, ainda que se inspirem claramente na ambientação e enredos consagrados pelos clássicos. Cega agora ao Brasil "Os assassinatos da Casa Decagonal" (Intrínseca, R$ 69,90), de Yukito Ayasatsuji, que leva seis jovens apaixonados por literatura de suspense para uma ilha onde houve um quádruplo homicídio. Ayasatsuji, em momento algum, esconde que o idealizador do convite tem o objetivo de matar "um de cada vez (...) exatamente como no livro daquela escritora britânica famosa — lentamente, um por um", referindo-se a "E não restou nenhum", antigamente conhecido como "O caso dos dez negrinhos", de Agatha Christie. A "Casa Decagonal" fez de Yukito Ayasatsuji um dos mais reverenciados criadores de mistério japonês, discutindo, através de seus personagens, a atualidade do gênero e suas inovações.
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