ENTREVISTA

Octavio Guedes: A realidade da História brasileira parece um delírio que supera a ficção'

Octavio Guedes: A realidade da História brasileira parece um delírio que supera a ficção'
Com seu humor crítico afiado, Octavio Guedes garimpou em seu novo livro fatos curiosos que jogam novas luzes sobre episódios de nossa História Crédito: Marcelo de Jesus/Divulgação

Conhecido pela capacidade dosar informação e irreverência até para debater as complexidades da sociedade brasileira, o jornalista Octavio Guedes acaba de lançar seu mais novo livro: "Heróis por acaso - Improváveis personagens que mudaram a História do Brasil" (Ed. Máquina de Livros). Escrita em parceria com seu filho, o pesquisador Tito Guedes, e ilustrada por Bruno Drummond, a obra de 144 páginas mergulha em bastidores obscuros de nossa História e mostra, para nosso assombro, como imprevistos e figuras quase invisíveis moldaram os rumos da nossa República.Na entrevista a seguir, o comentarista de política da Globonews reflete sobre o peso do imponderável na nossa trajetória e o trabalho de minerar informações a partir de fontes escassas e o uso de seu afiado humor crítico como ferramenta de análise histórica. "Meu sonho é que o leitor pense no fim do livro que nenhuma dessas histórias possa ser verdadeira", avisa.

Quando você percebeu que o Brasil tinha tantos heróis por acaso?

Octavio Guedes - Cresci ouvindo que o Brasil foi descoberto por acaso. Mas quando Cabral saía de cena, entravam heróis de bronze montados a cavalo nas praças. Eu me perguntava: onde foi parar o acaso? Como sempre devorei livros de história e biografias, meu olhar sempre estava em busca dele, até que um dia me acendeu uma luz: tem um livro aí. Foi por acaso.

O corretor de seguros que sugeriu a Juscelino Kubitschek a construção de Brasília é um personagem lateral interferindo no centro do poder. No país que consagrou o 'jeitinho', o acaso também pode dar as cartas?

Quando você começa a garimpar as frestas da História, raramente encontra o que realmente estava buscando, mas o que o acaso decide te entregar por um desvio de rota. Foi o acaso, aliás, que me fez colocar um burro no meio entre os personagens. Uma noite, sentei no computador para escrever uma história e, não sei por que, me lembrei do burro Canário, que se tornou uma pitoresca arma brasileira para os militares americanos na Segunda Guerra. Lembrei por acaso.

Quando as fontes sobre personagens quase esquecidos são escassas e fragmentadas, como estabelecer os limites entre uma história irresistível e outra que, efetivamente, pode ser comprovada?

A realidade da História brasileira frequentemente parece um delírio que supera a ficção, poderia ter sido escrita pelo mais criativo romancista. O episódio do Burro Canário, por exemplo, que se apresentava no Cassino da Urca "respondendo" a perguntas complexas e impressionando autoridades civis e militares, parecia, à primeira vista, uma piada tipicamente carioca. Mas é aí que entra a garimpagem jornalística. Eu e Tito fizemos uma imersão em jornais antigos, livros, biografias, documentários e documentos para poder montar um quebra-cabeça que contasse a trajetória de cada personagem. Mas meu sonho é que o leitor pense no fim do livro que nenhuma dessas histórias possa ser verdadeira.

Há algum personagem do livro cuja história contrariou uma versão dos acontecimentos que você próprio tinha aprendido na escola ou incorporado ao longo da vida?

Um personagem interessantíssimo é o marujo Marcelino Rodrigues Menezes. Quase ninguém conhece seu nome, mas ele está no centro de um dos episódios mais marcantes da nossa história: a Revolta da Chibata. Quem ficou conhecido por liderá-la foi João Cândido, que de fato esteve à frente do movimento. Mas a tortura que Marcelino recebeu foi o estopim da rebelião, embora seu nome tenha sido esquecido pela memória nacional. A República até tentou apagar também a memória de João Cândido, e não conseguiu. Mas, de certa forma, teve êxito com Marcelino.

O Brasil é injusto com os personagens que estão no livro?

O livro não pretende transformar todos em grandes heróis nacionais. Alguns são heróis, outros são anti-heróis e há aqueles que simplesmente estavam no lugar certo - ou errado - na hora certa. A grande satisfação desse livro foi falar de Sua Excelência o acaso.

Falando em heróis e anti-heróis, o Brasil também produziu seus "vilões por acaso" — personagens insignificantes que, sem planejar, acabaram provocando grandes estragos? Isso daria um novo livro?

Com certeza. A História do Brasil é um imenso palco de bastidores mal iluminados e repleto de vilões por acaso. O primeiro personagem que me fisgou, aliás, foi um vilão: depois de ler a biografia de Getúlio, escrita pelo Lira Neto, fiquei apaixonado pela história do Climério, o matador que Gregório Fortunato contratou para matar o Carlos Lacerda. Mas o cara era um trapalhão e deu no que deu. Climério é um clássico vilão por acaso, embora muita gente o enxergue como um anti-herói.

Usar o bom humor, como você faz no livro e na TV, é uma forma de chamar a atenção para a História do Brasil de antigamente e de hoje em dia?

Assim como a política, a História do Brasil tem acontecimentos tão absurdos, personagens tão improváveis e situações tão inacreditáveis que muitas vezes o humor está no próprio fato. Não é preciso inventá-lo. Meu trabalho é encontrá-lo e usá-lo como isca para um comentário ou uma crônica.