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Um box para uma autora fora da caixa

Conceição Evaristo chega aos 80 com compilado de oito livros que percorre uma obra feita de memória e invenção

Um box para uma autora fora da caixa
A obra de Conceição Evaristo aborda questões raciais e sociais em tom poético Crédito: Lis Pedreira/Divulgação

As editoras Malê e Pallas se uniram para lançar, durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, uma edição comemorativa pelos 80 anos de Conceição Evaristo, autora que tem livros publicados pelos dois selos. completados em novembro. O box reúne oito volumes de uma autora cuja circulação cresceu de modo extraordinário nas últimas décadas, oferecendo um percurso por uma obra que transformou memória, linguagem e experiência negra em centro de gravidade da literatura brasileira contemporânea.

Estão ali romances, contos, poesia e um livro de entrevistas: "Olhos d'Água", "Histórias de leves enganos e parecenças", "Insubmissas lágrimas de mulheres", "Ponciá Vicêncio", "Becos da memória", "Poemas da recordação e outros movimentos", "Canção para ninar menino grande" e "Quando eu morder a palavra", organizado a partir de conversas com a escritora.

O conjunto, com projeto gráfico de Letícia Quintilhano, custa R$ 375 e inaugura uma parceria entre as duas editoras cariocas, que desde 2014 se alternam na publicação de seus livros de Conceição.

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O box contém oito títulos essenciais da obra da autora mineira | Foto: Divulgação

Nascida em Belo Horizonte em 29 de novembro de 1946 e radicada no Rio desde os anos 1970, Conceição começou a publicar aos 44 anos, em 1990, nos "Cadernos Negros", a série ligada ao coletivo Quilombhoje que acolheu seus primeiros poemas e contos. Foi uma entrada tardia no mercado editorial, embora não na escrita. A prosa de fôlego chegaria com "Ponciá Vicêncio", em 2003; três anos depois, "Becos da memória" converteria em romance as lembranças e observações da favela do Pindura Saia, onde passou a infância e a adolescência.

Essa origem tornou-se matéria de elaboração. Conceição chama de "escrevivência" a escrita que nasce do vivido, da memória e de uma experiência coletiva, mas que não se confunde com simples testemunho. A formulação, que se tornou uma das chaves de leitura de sua obra, contém também um programa crítico: "A nossa escrevivência não pode ser lida como história de ninar os da casa-grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos".

A frase ajuda a explicar a permanência de questões que atravessam gêneros muito diferentes. Em "Ponciá Vicêncio", a busca de uma mulher negra por pertencimento é atravessada por heranças da escravidão. "Becos da memória" preserva a vida de uma comunidade sob ameaça de remoção. Já "Olhos d'Água", vencedor do Jabuti em 2015, concentra em quinze contos mulheres negras, crianças, trabalhadores e moradores das periferias urbanas. Nos poemas, memória, ancestralidade, maternidade, amor e luto encontram uma dicção ao mesmo tempo íntima e pública.

Não se trata, porém, de uma obra limitada à denúncia. Há fantasia, afeto, desejo, humor, fabulação e uma atenção rigorosa ao modo como as personagens ocupam o mundo. "Histórias de leves enganos e parecenças" aproxima o cotidiano do insólito; "Insubmissas lágrimas de mulheres" dá a palavra a protagonistas que enfrentam violências e desigualdades; em "Canção para ninar menino grande", Evaristo desloca o olhar para um homem e suas relações com diferentes mulheres, tratando de masculinidades, racismo e vínculos afetivos.

Essa amplitude explica por que a autora passou a ocupar escolas, universidades, clubes de leitura e pesquisas acadêmicas, no Brasil e fora dele. Para Cristina Fernandes Warth, editora da Pallas, os livros de Conceição "ganharam o mundo, chegaram às escolas, às universidades e, principalmente, às mãos de muitos leitores".

Ao justificar a parceria entre as editoras, Vagner Amaro, da Malê, lembra a articulação de Conceição com outras autoras negras, coletivos literários e movimentos sociais — e recupera duas de suas imagens mais conhecidas: "uma sobe e puxa a outra" e "nossos passos vêm de longe".

É esse movimento que o box torna palpável. Em vez de fixar a autora num único livro ou na força de uma palavra-conceito, a coleção permite acompanhar a variedade de sua construção: a narradora das mulheres e das periferias, a romancista das heranças históricas, a poeta da ancestralidade, a intelectual que pensa a circulação da literatura negra. Aos 80 anos, Conceição Evaristo é celebrada não como exceção isolada, mas como uma escritora cuja obra ampliou quem pode falar, ser personagem e ser lido na literatura brasileira.