Alfred Hitchcock foi uma das poucas pessoas a ter seu nome transformado em adjetivo. No seu caso, para indicar um tipo determinado de suspense - charmoso, sutil, elegante, sarcástico. Até em seus mais atemorizantes filmes, com exceção, talvez, de "Frenesi", a plateia sempre podia contar com o alívio cômico, nem que fosse apenas nas fugazes aparições do diretor em cena. O charme de suas criações, no entanto, não amenizava o perigo oferecido por um psicopata como Norman Bates, o patético vilão de "Psicose", personagem humanizado por Hitchcock em sua brilhante adaptação do livro de Robert Block.
Em toda sua filmografia, Hitchcock primou pela escolha de excelentes histórias assinadas por mestres da época de ouro dos thrillers, como Patícia Highsmith ("Pacto sinistro") e Cornell Woolrich ("Janela indiscreta"), além de romancistas de destaque na primeira metade do século XX, entre eles Daphne du Maurier, autora de "Rebecca", cuja adaptação deu o único Oscar a um filme dirigido pelo cineasta. O romance da jovem recém-casada com um milionário viúvo, cuja governanta tem obsessão pela preservação da memória da falecida patroa foi apontado como plágio de "A sucessora", da escritora Carolina Nabuco, lançado em 1934, quatro anos antes de "Rebecca". Alheio à polêmica, Hitchcock criou um clássico do cinema bastante fiel ao texto original, da mesma forma empregada em "Pacto sinistro" - o que não era seu tanto seu hábito.
Nem todos os cineastas são roteiristas. Associado ao "cinema de autor", Alfred Hitchcock contava com a colaboração fiel de Alma Reville, sua mulher e mãe de sua única filha. Além de participar de muitas das equipes de roteiristas do marido, ela acompanhava as filmagens e montagens dos filmes, percebendo, inclusive, a respiração da atriz Janet Leigh, que deveria estar morta na famosa cena do chuveiro, em "Psicose". O humor característico do diretor o levou a suavizar algumas versões nas telas, entre elas a de uma das mais pesadas novelas da dupla parisiense Pierre Boileau e Thomas Narcejac, "D'entre les morts"(1954), que viria se popularizar pelo título, no cinema, de "Vertigo - Um corpo que cai". Reza a lenda que Hitchcock teria tentado adquirir os direitos do primeiro sucesso dos franceses, no início dos anos 1950, mas Henri-Georges Clouzot chegou na frente e fez "As diabólicas". Segundo o cineasta François Truffaut, no entanto, Boileau e Narcejac escreveram o segundo livro já com intenção de atrair o interesse de Hitchcock. "...quando souberam que você teria gostado de comprar os direitos de 'As diabólicas', (...) escreveram 'D'entre les morts', que a Paramount logo comprou para você", conta o francês em passagem de seu livro "Hitchcock-Truffaut Entrevistas" (Companhia das Letras, R$ 137,90).
A mais recente edição de "Vertigo" (Darkside, R$ 89,90), privilegia a imagem hitcockiana, copiando, na capa, o design do celebrado Saul Bass, criador de diversos cartazes para os filmes do diretor. Poucas fotografias do filme, entre elas o frame de um apavorado James Stewart pendurado em um parapeito, compõem o belo volume, que traz uma das melhores histórias do duo fracês. Se o filme tem passagens bastante divertidas, embora a trama se concentre na dúvida de um homem sobre a reaparição de uma sósia de uma mulher que viu morta, o livro é sombrio e sem qualquer inocência.
Boa parte dos livros em que Hitchcock baseou seu cinema vieram de escritores hoje pouco conhecidos, que seriam destaque em qualquer biblioteca de histórias de suspense. Ele buscou inspiração nos consagrados John Steinbeck, Joseph Conrad e Somerset Maughan, mas também nos menos divulgados no Brasil David Dodge e Frederick Knott. Boileau e Narcejac tiveram muitas histórias aqui publicadas em coleção de policiais vendidas em bancas de jornal, nos anos 1980, da editora Globo. Daphne du Maurier não se resumiu a "Rebecca", tendo muitas de suas histórias virado filme - que mereceriam reedições brasileiras. Que tal, editoras?
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