Olga Mello
Especial para o Correio da Manhã
Cinco séculos depois da chegada dos portugueses em território brasileiro, para onde trouxeram escravizados - a maior parte deles originários da costa ocidental africana, o prêmio Caminhos da Literatura cumpre a rota inversa pelo Atlântico Sul: em 2027, o romance vencedor do concurso será publicado, simultaneamente, no Brasil, em Portugal e em Angola.
O produtor cultural e escritor Henrique Rodrigues, idealizador do Caminhos da Literatura, acredita que a iniciativa pode ajudar a aumentar o interesse nos ficcionistas brasileiros em geral. "Existe uma uma via de mão dupla um pouco desequilibrada em alguns aspectos: autores de fora são as grandes estrelas nos festivais literários brasileiros, e o mesmo não ocorre do outro lado, o que se deve à nossa antiga condição de colônia.
Também é natural, por uma questão de mercado, que autores de maior sucesso comercial e midiático no Brasil atraiam o interesse de fora. Daí a relevância do nosso Caminhos levar para esses países um livro escolhido unicamente por sua qualidade literária, independentemente de quem o escreva. Essas duas editoras acreditam não só no potencial da nossa literatura, mas também apostam no nosso método de seleção dessas obras, considerando que são produzidas por autores inéditos.", diz Rodrigues.
Por enquanto, o concurso é restrito a brasileiros ou a estrangeiros residentes no Brasil e seu resultado deve ser anunciado em novembro. O livro vencedor será lançado no Brasil pela editora Dublinense, como nos anos anteriores. Em Portugal, a edição fica com o grupo Infinito Particular, que também publica no país as escritoras brasileiras Carla Madeira, Socorro Acioli e Aline Bei. A editora em Angola é a Kacimbo, criada pelo escritor angolano Ondjaki. Segundo Henrique Rodrigues, um dos fatores comuns à literatura dos países lusófonos é a forte valorização de vozes até então excluídas socialmente.
"As desigualdades de gênero, etária, racial, entre tantas, têm sido questionadas nesse campo das representações simbólicas. Esse é, inclusive, o conceito do nosso Prêmio Caminhos, gratuito e democrático, no qual cada pessoa tem a mesma oportunidade. Sabemos o quanto é difícil para um autor iniciante ter seu livro publicado por uma editora que dê um tratamento profissional e distribua a obra. A seleção é protegida por anonimato, a fim de que seja revelado um romance pela sua qualidade. No próximo ano, o livro se movimentará por esse triângulo lusófono formado por Brasil, Angola e Portugal, estabelecendo uma plataforma cultural de circulação da literatura brasileira contemporânea entre os três países", lembra Rodrigues.
As inscrições estão abertas no site www.premiocaminhos.com.br, a partir da segunda-feira, 17 de agosto, e vão até 15 de setembro. Podem se inscrever escritores brasileiros que jamais tenham publicado um romance. Criado para estimular a chegada de novas vozes à literatura brasileira, o Caminhos da Literatura, em 2024, foi para a paraense Izabella Cristo, foi a vencedora com o romance Mãezinha. No ano seguinte, o prêmio revelou a escritora mineira Paula Novais, autora de Gaiolas de concreto armado.
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