Correio da Manhã
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O atraente horror que vem do Japão

O atraente horror que vem do Japão

Suspense sobrenatural texto simples e direto = J-horror. Esta fórmula garantiu o sucesso absoluto das histórias contemporâneas de mistério que têm como base valores ancestrais dos japoneses, papas da criação na cultura pop. Elementos pouco afeitos ao universo ocidental - respeito à sabedoria ancestral, formalidade no tratamento até das pessoas íntimas, entre outros - são parte da composição narrativa de curiosas obras como a duologia "Não mexa neste celular" e "Não mexa neste arquivo" (Intrínseca, R$ 67,90, os dois volumes), de Michito Chinen, ou a série "Casas estranhas", do videomaker Uketsu.

As histórias incomodam, com seus textos bastante simples, que induzem o leitor a desvendar os segredos de crimes bem planejados ou a entrar no redemoinho de sérios problemas dos protagonistas. O andamento é acelerado e a leitura também é rápida, pontuada por referências da atualidade, explicadas em poucas palavras para os leitores. Esses vira-páginas vêm na medida para quem foi criado numa cultura bastante visual e com limitada abstração.

Não há qualquer semelhança com a literatura dos consagrados asunari Kawabata (Prêmio Nobel em 1968), Junichiro Tanizaki, Yukio Mishima, Abe Kobo e Kenzaburo Oe (Nobel em 1994), sequer do cultuado Haruki Murakami, com sua linguagem contemporânea e realismo fantástico.

Os autores do J-Horror estão bastante próximos do que foi chamado pelo mercado editorial norte-americano, entre 1920 e 1950, de pulp fiction, publicações impressas em papel de baixa qualidade, consideradas subliteratura até o surgimento, nos anos 1940, do Misterio Magazine de Ellery Queen. Dashiell Hammett, Cornell Woolrich, Raymond Chandler e Erle Stanley Gardner foram alguns dos escritores renomados que tiveram contos publicados no MM, elevando as bancas de revistas ao status de livrarias.

Se o pulp se caracterizou por tramas sensacionalistas, repletas de ação, com detetives, crime, terror e ficção científica, o J-Horror tem a delicadeza das narrativas orientais, inspiradas no folclore e histórias de fantasmas vingativos dos séculos XVII até XIX, focadas na fragilidade entre a vida e a morte.

A maldade de alguns personagens não tem justificativa em traumas ou incidentes tenebrosos. Ela existe, apenas, sem qualquer razão lógica.

Para um leitor acostumado aos enredos repletos de viradas da literatura de suspense, o J-Horror nem sempre surpreende. O ritmo lento das descobertas permite intuir quem são os responsáveis pelos crimes. Causa estranheza, no entanto, a falta de punição para esses culpados, algo corriqueiro nessas histórias, como os intrigantes "Não mexa", que podem ser lidos separadamente, mas que têm tramas complementares. O livro de bolso "Não mexa neste celular" tem as dimensões de um smartphone e ilustrações que são parte da narrativa. "Não mexa neste arquivo, que obedece ao tamanho tradicional de um livro - ou de uma ficha de arquivo -, também apresenta a história com imagens, entre plantas arquitetônicas, cópias de artigos de jornal e fotografias, ao longo do texto. Se ao leitor não se exige muita imaginação, a curiosidade é aguçada nessas duas histórias sobre um local amaldiçoado que leva à morte quem o visita, depois de muito ser assombrado pelas aparições de uma criatura apavorante com o corpo coberto por olhos. Deixar de lado a leitura é muito difícil, que o digam os 140 mil exemplares da duologia, vendidos no apenas no Japão, em um mês de lançamento.