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Festival Machado de Assis leva literatura ao MAR com 12 horas de programação gratuita

Evento no MAR reúne literatura, debate, ocupação imersiva e espetáculo para aproximar o público da obra do escritor

Festival Machado de Assis leva literatura ao MAR com 12 horas de programação gratuita
Machado de Assis Crédito: Reprodução

Machado de Assis, o escritor que revolucionou a narrativa brasileira no século XIX e permanece absolutamente vivo nas questões que coloca sobre poder, raça, desejo e hipocrisia social, ganha uma celebração à altura de sua importância neste domingo (21). O Festival Machado de Assis, apresentado pela Prefeitura do Rio por meio da Secretaria Municipal de Cultura, ocupa os pilotis do Museu de Arte do Rio (MAR), na região da Pequena África, com 12 horas de programação gratuita que transforma a literatura em experiência coletiva.

Idealizado pela escritora e acadêmica Ana Maria Gonçalves — primeira mulher negra eleita para a Academia Brasileira de Letras, a casa criada pelo próprio Machado — o festival reúne caminhadas literárias pelo Centro Histórico, mesas de debate com especialistas, leituras em microfone aberto, intervenções artísticas e um espetáculo cênico-musical que promete encerrar a noite em celebração coletiva com baile charme.

A relação de Machado com o Rio é orgânica. O autor viveu e trabalhou na cidade e sua obra está intimamente ligada à história cultural carioca. Nascido em 21 de junho de 1839, o escritor testemunhou transformações profundas na política, economia e sociedade brasileira ao longo de sua vida — da escravidão à abolição, da monarquia à república — refletindo tudo isso em narrativas que combinavam ironia aguçada, análise social implacável e uma sofisticação literária que o colocou entre os maiores nomes da literatura em língua portuguesa.

Sua contribuição para as letras brasileiras é incontestável: foi o introdutor do Realismo no Brasil com "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881), obra que rompeu com o romantismo idealizado e apresentou um narrador morto que conta sua própria história com cinismo e lucidez. Publicou mais de 200 contos, dez romances, poesias e peças de teatro. Mas além de escritor prolífico, Machado foi intelectual engajado que, em 1897, reuniu-se com colegas para fundar a Academia Brasileira de Letras, instituição que presidiu até sua morte, em 1908, e que deu à língua portuguesa um espaço institucional de prestígio.

O que torna Machado particularmente relevante hoje é justamente o que o torna desafiador. Seus personagens — Capitu, Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro — não são heróis ou vilões, mas seres contraditórios, movidos por ambição, desejo, vaidade e medo. Capitu, seu personagem mais debatido, permanece enigmática após mais de um século: traiu ou não traiu Bentinho? Machado recusou a certeza moral. Escreveu sobre a subjetividade humana antecipando técnicas narrativas que só ganhariam força no século seguinte.

Sua ironia e capacidade de mascarar crítica social em conversa de salão denunciava hipocrisias coletivas. Quando Brás Cubas, já morto, olha para trás e vê sua vida como uma sequência de pequenas traições e compromissos, está falando sobre a própria estrutura da sociedade brasileira, sobre como nos tornamos cúmplices do sistema que nos oprime. E quando Machado escreve sobre personagens negros — como em "Quincas Borba" ou em contos como "O Alienista" — faz isso de forma velada, irônica, mas devastadora, refletindo sua própria experiência como homem negro em uma sociedade escravocrata e profundamente racista.

Preservar e reafirmar a obra de Machado é necessária. Vivemos em tempos em que a leitura literária compete com múltiplas formas de entretenimento digital, em que o acesso à cultura clássica se concentra em espaços elitizados e as gerações mais jovens crescem sem contato com textos que poderiam transformar sua forma de ver o mundo. O festival leva Machado e sua obra para a dimensão das ruas, torna o autor acessível ao conectá-lo a questões em discussão no Brasil dehoje como raça, gênero, poder e desejo.

Machado não é um escritor do passado congelado em páginas amareladas; é um pensador cuja capacidade de desmascarar hipocrisia social, cuja exploração da subjetividade humana, cuja ironia sofisticada continuam absolutamente atuais. Seus textos falam sobre o Brasil de hoje — sobre como o poder se exerce, sobre como a raça estrutura as relações sociais, sobre como o desejo e a ambição nos movem, sobre como fingimos ser quem não somos para sobreviver socialmente.

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Primeira escritora negra eleita para a ABL, Ana Maria Gonçaves assina a curadoria do festival | Foto: Léo Pinheiro/C41 Estúdio

"Em seus livros, Machado de Assis sempre falou muito bem da cidade. Então, é extremamente importante a gente fazer esse festival no MAR, com uma programação que engloba espaços instagramáveis, quiz literário, shows, mesas com os acadêmicos e encerramento com Baile Charme, numa tentativa de trazer suas obras mais para perto do público, apresentando-o para novas gerações, para que possam entender o quão atual ainda é esse grande escritor", diz Ana Maria Gonçalves, para quem Machado não precisa ser "simplificado" para ser compreendido, mas apresentado de formas múltiplas.

A Academia Brasileira de Letras disponibilizou na internet manuscritos originais de obras machadianas, tornando acessível o processo criativo do escritor. Mas preservação não é apenas arquivo digital ou edições críticas — é também manter viva a conversa sobre Machado, garantir que suas obras sejam lidas, discutidas, reinterpretadas por cada geração. Um festival como este, gratuito, ocupando espaço público, convidando o público a participar ativamente, é preservação em ação. É dizer que Machado não pertence apenas aos acadêmicos, mas à cidade, ao povo, ao Brasil. Uma obra literária só permanece viva quando é lida, debatida e, por que não, transformada em experiência coletiva.

O festival começa cedo, às 9h, com uma caminhada guiada pelo Centro Histórico do Rio seguindo o conto "Noite de Almirante", percurso que conecta locais importantes para a trajetória do escritor e para a memória cultural da cidade. Ao longo do dia, o público encontra a Ocupação Capitu, uma ambientação imersiva que recria o universo do século XIX com móveis e elementos de época, permitindo aos visitantes uma experiência fotográfica com filtro especial "Olhos de Ressaca" — referência à icônica descrição da personagem em "Dom Casmurro", aquele olhar que Bentinho nunca conseguiu decifrar completamente. Cada participante recebe sua fotografia personalizada, transformando a visita em lembrança que conecta literatura, memória e tecnologia de forma que não é meramente decorativa, mas que convida à reflexão: o que significa olhar para alguém e não conseguir ler completamente o que se passa em sua mente? Que ambiguidade existe em todo relacionamento humano?

Entre 14h e 16h, duas mesas de debate reúnem acadêmicos e pesquisadores em diálogo público que promete ser denso e acessível simultaneamente. A primeira, "Machado de Assis: raça e personagens em eterno debate", com o professor e pesquisador Eduardo de Assis Duarte, discute aspectos centrais da produção machadiana — sua sofisticação literária, sua relevância para compreender a sociedade brasileira, e particularmente como Machado, sendo um homem negro em uma sociedade escravocrata e racista, construiu uma obra que fala sobre raça de forma cifrada, irônica, mas devastadora. Duarte é especialista em literatura afro-brasileira e tem contribuído significativamente para a leitura de Machado sob essa perspectiva, mostrando como o escritor, apesar de sua posição privilegiada na Academia, nunca deixou de refletir sobre as estruturas de poder que o cercavam. A segunda mesa, "Mulheres e Machado", reúne as acadêmicas Rosiska Darcy de Oliveira, Ana Maria Machado e Lilia Schwarcz em diálogo que explora diferentes interpretações da obra do autor, com foco em temas como raça, poder, subjetividade, política, desejo e crítica social — evidenciando a força e a atualidade de seus textos. Schwarcz, historiadora e autora de importantes estudos sobre o Brasil do século XIX, traz perspectiva que conecta a obra de Machado ao contexto histórico em que foi produzida, mostrando como o escritor não apenas refletiu seu tempo, mas o questionou profundamente.

A partir das 16h30, o Microfone Aberto convida artistas e público a compartilhar experiências a partir da palavra de Machado, transformando leitura em performance e escuta coletiva. Durante duas horas, a literatura deixa de ser objeto de contemplação passiva e se torna experiência viva, onde qualquer pessoa pode ler um trecho, comentar uma cena, oferecer sua interpretação pessoal. É um espaço de democratização da crítica literária, onde a voz do acadêmico e a do leitor comum têm igual valor. Essa atividade é particularmente importante porque reconhece que a literatura não é propriedade exclusiva de especialistas — é patrimônio coletivo que ganha significado quando é compartilhado, quando é transformado em conversa, quando é vivido.

O festival se encerra, a partir das 19h, com "O Corte do Machado", espetáculo cênico-musical dirigido por Felipe Oládélè, Muato e Hugo Germano que reúne música, teatro, performance, poesia e dança. Com interpretações de Janamô, Marcos Sacramento, Natasha Félix e João Vitor Nascimento. Canções, performances e leituras poéticas dão novas formas e vozes às narrativas de Machado. O encerramento é uma grande celebração coletiva: um baile charme conduzido pelo dançarino Marcus Azevedo e DJ Bob Reis, onde a literatura se transforma em dança, encontro e convivência.

SERVIÇO

FESTIVAL MACHADO DE ASSIS

Museu de Arte do Rio (MAR) — Avenida Getúlio Vargas, Zona Portuária

21/6, das 9h às 21h

Grátis

 

Galeria de imagens

Muato Crédito: José de Holanda/Divulgação