POR marcelo perillier
Aancestralidade, a memória e a força das mulheres indígenas estão no centro de Toda Árvore Tem Raiz, primeira exposição individual da artista indígena Yacunã Tuxá. A mostra reúne mais de 25 obras em diferentes linguagens e ocupa a CAIXA Cultural RJ, com visitação gratuita até 20 de setembro.
Realizada em torno do Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado em 9 de agosto, a exposição apresenta trabalhos que transitam entre pintura, fotografia, poesia, muralismo, escultura, lambe-lambe, vídeo mapping e performance. Nascida no povo Tuxá de Rodelas, na Bahia, Yacunã constrói, a partir dessas diferentes linguagens, uma narrativa sobre suas origens, sua ancestralidade e as experiências das mulheres indígenas.
"A exposição tem o meu compromisso com a memória e o pertencimento. É um bonito convite para as pessoas mergulharem na minha história e se identificarem também, porque ela retrata mulheres indígenas em diferentes contextos, a força irrefreável que há nestas mulheres e no povo indígena, mas que nem sempre fica evidente", afirma a artista.
Com curadoria de Naine Terena e Vera Nunes, em diálogo com Yacunã, a mostra estabelece uma relação entre referências da identidade indígena e elementos dos contextos culturais não indígenas. O percurso expositivo foi concebido para proporcionar uma experiência imersiva e estimular reflexões sobre os atravessamentos vividos por corpos indígenas, seus territórios e sua espiritualidade.
Estreada em Salvador, a exposição acompanha a trajetória de Yacunã, marcada por deslocamentos forçados e resistência. A artista vem consolidando uma produção que articula ancestralidade, política e imaginação urbana. Seu trabalho já passou por instituições como o Museu de Arte de São Paulo (MASP), a Pinacoteca de São Paulo e o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab).
Nas obras reunidas na CAIXA Cultural RJ, linguagens analógicas e digitais se encontram para abordar temas como memória, identidade, urbanidade e território. A metáfora das raízes funciona como fio condutor da exposição, representando histórias individuais e coletivas e a relação entre passado, presente e pertencimento.
"É uma exposição que fala sobre experiência humana, é uma forma de as pessoas se conectarem com suas avós, com as mulheres de suas vidas, de territórios muito particulares, entender a casa como espaço de resistência, primeiro museu, onde a gente se reconhece nas histórias daqueles que vieram antes da gente. É um elo de identificação e aproximação", diz Yacunã.
Entre os elementos simbólicos presentes na mostra estão o rio, a canoa e a Jurema, planta sagrada que atravessa o conjunto de obras como um eixo espiritual e político. Nesse universo, o feminino indígena aparece como elemento estruturante, associado às raízes profundas da terra e às histórias de resistência, cuidado e reinvenção.
Para a artista, a diversidade de técnicas e formatos também é uma forma de evidenciar a multiplicidade das experiências indígenas.
"É impossível sintetizar a pluralidade subjetiva das existências indígenas", destaca Yacunã Tuxá. "Entre aldeia e cidade, com as mãos moldando o barro ou segurando uma filmadora, a presença dessas mulheres, ao longo da história, articulou e articula resistências variadas, algumas até invisíveis, mas todas potencialmente criativas e transformadoras", afirma.
Ao reunir diferentes linguagens e perspectivas, Toda Árvore Tem Raiz propõe um mergulho nas relações entre memória, território e identidade. A exposição transforma a trajetória da artista e as histórias das mulheres de sua ancestralidade em ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre pertencimento e resistência.
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