Affonso Nunes
OVale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais, é conhecido pela tradição de ceramistas e pela paisagem de serras e veredas. Mas há um novo elemento transformando a região: o lítio, mineral essencial para baterias de carros elétricos e celulares, e alvo de uma corrida que envolve mineradoras brasileiras e multinacionais. É esse cenário que a fotógrafa e documentarista mineira Isis Medeiros registra em "Zona de Sacrifício: do ouro ao pó", exposição que abre nesta quinta0feira (2), na Galeria Mestre Vitalino, no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), no Catete
Primeira mostra individual de Isis na cidade, "Zona de Sacrifício" é fruto de dois anos de trabalho com base em Araçuaí e Itinga, dois dos 54 municípios do Vale do Jequitinhonha atingidos pela mineração. O projeto foi contemplado pelo Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia (17ª edição) e se desdobra em fotografia documental, audiovisual e uma exposição itinerante — em início do ano, passou pelo Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, em Araçuaí.
As imagens registram o contraste entre a vida cotidiana das comunidades e a presença das mineradoras: montanhas de rejeitos, crateras abertas no solo, o pó que se espalha e, à noite, a iluminação artificial das máquinas rompendo a paisagem. A exposição também inclui peças do acervo do Museu de Folclore Edison Carneiro, conectando a produção cerâmica tradicional da região ao contexto documental.
O título da mostra remete ao conceito de "zonas de sacrifício" — áreas onde a exploração econômica é priorizada em detrimento do meio ambiente e da qualidade de vida da população. O Brasil ocupa hoje o 6º lugar no ranking mundial de reservas de lítio, mineral considerado estratégico para a transição energética global. "O que me inquieta é essa nova corrida mineral ser apresentada como parte de uma 'transição energética verde', enquanto no território o que aparece são poeira, explosões, pressão sobre a água e impactos diretos na vida das pessoas", afirma Isis.
No dia da abertura, será exibido o documentário "Chico", de Augusto Gomes e Isis Medeiros, que acompanha a perspectiva de Chico do Poço das Antas, liderança comunitária de Itinga. Na sexta (3), às 16h, ocorre a Roda de Confluências, com participação de Ana Carolina Nascimento (CNFCP), Sandra Benites (Funarte), Chico, Tatiana da Costa Sena (IFNMG) e Helena Taliberti (ICLT), com mediação de Gabriela Sarmet.
Isis Medeiros, que também é autora do fotolivro "15:30" (2020), sobre o rompimento da barragem da Samarco/Vale-BHP em Mariana, tem trabalhos nos acervos do MASP, da Biblioteca Nacional da França e do Instituto Moreira Salles. A curadoria da exposição é de Carol Lopes.
SERVIÇO
ZONA DE SACRIFÍCIO
Galeria Mestre Vitalino — Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (Rua do Catete, 179) | De 2/7 a 1/11, de terça a sexta (10h às 18h), sábados, domingos e feriados (11h às 17h) | Grátis
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