A cerâmica feita em Maruanum, distrito rural do Amapá a 80 km de Macapá, chega ao Rio pela primeira vez na exposição que funciona como vitrine para um pedido maior: o reconhecimento do ofício como patrimônio imaterial do Brasil. "Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum" abre no próximo dia 30 de abril, às 17h, no Museu de Folclore Edison Carneiro, reunindo 208 peças que documentam uma tradição que mistura conhecimentos indígenas, práticas africanas e a biodiversidade amazônica.
Atualmente, apenas 26 pessoas sabem fazer a louça do Maruanum — 20 mulheres, 2 homens e 4 crianças. O ofício é historicamente feminino, mas a pesquisa de campo de outubro de 2025 revelou uma mudança: dois meninos aprendem a técnica e expressam orgulho pela prática. Um homem deixou de fazer louça após quebras sucessivas; outro não assume o ofício por constrangimento.
O processo criativo desses artistas envolve um sistema complexo: barro do solo amazônico, cinzas da queima da casca da árvore caripé e resina de jatobá. Cada etapa segue regras precisas, especialmente na retirada do barro e na queima. O momento ritual mais importante acontece após extrair o barro: as mulheres modelam pequenas peças e as depositam no buraco de origem, em oferecimento à "mãe do barro". Agradecem, pedem proteção para a queima e cantam versos de marabaixo — expressão cultural amapaense que integra crenças indígenas e africanas.
A exposição é resultado de quase 15 anos de articulação. A sazonalidade da produção e as dificuldades logísticas foram obstáculos significativos. A pesquisadora Célia Costa, do Instituto Federal do Amapá acompanha desde 2011 o trabalho dessas artesãs. A mestra Marciana Dias, de 85 anos, é a guardiã dessa tradição.
O pedido de registro como patrimônio imaterial, protagonizado pela comunidade, é a primeira etapa formal de salvaguarda. Michel Bueno Flores da Silva, superintendente do Iphan no Amapá, destaca que o reconhecimento "assegura a salvaguarda desse saber e reposiciona o Amapá no cenário nacional, garantindo instrumentos concretos de proteção — como a defesa dos territórios de coleta e a transmissão intergeracional do ofício".
SERVIÇO
FILHAS E NETAS DA MÃE DO BARRO
Museu de Folclore Edison Carneiro (Rua do Catete, 179)
Até 1/7, de terça a sexta (10h às 18h), Sábados, domingos e feriados (11h às 17h)
Entrada franca